Há entre os indígenas aimarás a crença de que ao nos depararmos com um arco-íris, diante de suas tantas cores e beleza, temos a obrigação de repensar a vida e nossos caminhos. Eis-me aqui aniversariando e eis-me aqui diante desse arco-íris. Arco-íris é tudo o que desejo para mim. “Repensar a vida” é tudo o que desejo para mim, porque assim viverei dias realmente vivos, caminhos que realmente desejei sob meus pés, e olharei para trás sorrindo ao perceber que repensar a vida me trouxe uma vida cheia de recriações que valeu infinitamente a pena.

Os dias seguem um ao outro. Assim como as horas. O tempo, implacável, nos diz vez ou outra “olha para mim, estou em movimento”. E o movimento, sempre a frente, sempre adiante, sem nunca dar sequer um passo atrás ou pestanejar, por incrível que pareça, às vezes passa despercebido bem ao nosso redor, bem sob nossos pés. O tempo não exige nada em troca, não exige nem que pensemos para que ele continue a passar.  O tempo é gratuito. E no mesmo instante é o bem mais precioso que temos.  Não há como comprar mais tempo ou recuperar o tempo perdido. O mesmo tempo que não exige nada é capaz de nos tirar tudo. Findado o tempo, findada a vida.

Por isso o ato de repensar, espontâneo, livre, único, voluntário, é o ato mais precioso que temos para lidar com o tempo.  Talvez o tempo, com toda a sua suavidade transmitida pelos minutos e pela incrível relatividade com a qual se relaciona conosco, nos surpreenda vez ou outra quando nos atentamos para o fato de ele ter se movimentado tanto e nós não termos dado o devido valor para isso.  Mal sabemos que o tempo é especialista nisso: consegue se movimentar com proeza, com sutileza, com nuances tão delicadas próprias de seres especiais.

O tempo passa. Passa, caminha, corre, dança, rodopia, sorri, faz piada sempre dando passos a frente. Sim, o tempo “passa”. Tempo de escolha, tempo de decisão, tempo de saída, tempo de chegada, tempo para ir, tempo para voltar. Que tipo de tempo será somos nós é que vamos dizer. Entre um momento e outro, nenhum intervalo, porque a vida não tem intervalo, não tem tempo extra, não tem pausa. Olhar a vida e olhar o caminho que percorremos é olhar para o tempo vivido para, enfim, admirá-lo.  E então o que veremos? Sorte a nossa se pudermos ver um “arco-íris” e diante dele nos renderemos à tarefa de reavaliar nossos passos, de repensar o caminho, de rever o que estamos fazendo, de reviver momentos bons e ruins, de olhar para dentro de nós mesmos um pouquinho mais e fazermos a pergunta: “eu gosto dos caminhos com que estou preenchendo o meu tempo?”.

Hoje brindo o tempo. Hoje brindo a vida. Que venham mais arco-íris, que dance ao meu redor o misterioso e sublime passar do tempo.

Paula Quintão

08 de novembro de 2011

 

Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br

  • Waldir Nonato dos Santos Filho

    Paula, precisamos percorrer o caminho com serenidade de compreender que a jornada é a viagem e não destino final. Paz, Amor e Saúde!

    Não me iludo
    Tudo permanecerá
    Do jeito que tem sido
    Transcorrendo
    Transformando
    Tempo e espaço navegando
    Todos os sentidos…
    Pães de Açúcar
    Corcovados
    Fustigados pela chuva
    E pelo eterno vento…
    Água mole
    Pedra dura
    Tanto bate
    Que não restará
    Nem pensamento…
    Tempo Rei!
    Oh Tempo Rei!
    Oh Tempo Rei!
    Transformai
    As velhas formas do viver
    Ensinai-me
    Oh Pai!
    O que eu, ainda não sei
    Mãe Senhora do Perpétuo
    Socorrei!…
    Pensamento!
    Mesmo o fundamento
    Singular do ser humano
    De um momento, para o outro
    Poderá não mais fundar
    Nem gregos, nem baianos…
    Mães zelosas
    Pais corujas
    Vejam como as águas
    De repente ficam sujas…
    Não se iludam
    Não me iludo
    Tudo agora mesmo
    Pode estar por um segundo…
    Tempo Rei!
    Oh Tempo Rei!
    Oh Tempo Rei!
    Transformai
    As velhas formas do viver
    Ensinai-me
    Oh Pai!
    O que eu, ainda não sei
    Mãe Senhora do Perpétuo
    Socorrei!…(2x)

    Gilberto Gil

  • Leonardo Santos

    O tempo é que o deixa a vida mais bela e menos suave. Deixamos a infância para cheirar a vida com cada vez mais intensidade, aspirar mais experiências e por fim temos um saco de vivências que não podemos largar, nem doar. O tempo não passa, somos nós quem passamos pelo tempo, andamos por sua trilha e apreciamos tudo que ele tem a nos oferecer, a dor e o amor. Às vezes acho que o tempo é um túnel que vai afunilando no final, nos faz esbarrar em suas paredes ásperas e nos marca, cada qual diferenciadamente, com cicatrizes, fundas o suficiente para grifar nossa alma. Sou grato ao que o tempo me deu, à sabedoria necessária para sorrir ao ler este texto.

    • Leonardo, você faz poesia com as palavras e o tempo, obrigada pela visita e pelo comentário cheio de reflexões. Ao tempo, que sorte podermos a ele agradecer. E bela é a sabedoria de saber que vivências não largamos, nem doamos. Que as trilhas do tempo nos tragam mais sacos de vivências…. como amo recolhê-los caminho afora! Grande abraço.

  • Eu gosto de imaginar que o tempo é como o espaço. Nesse caso, como não podemos pará-lo, isso significa que estamos sempre em movimento, quer nos demos conta disso ou não. Noutras palavras, a força da nossa mudança nunca acaba. O que acaba é, em alguns casos, nossa prontidão pra assistir, pra sentir o prazer da mudança. Dá pra criar uma visão teleológica da vida olhando o passado que é magnífica. Parece que quando você vai recolhendo lembranças elas vão formando uma trilha. Parece até que foi tudo planejado.

    Eu retorno à Jung quando ele fala sobre a nossa crença em vida após a morte: se há em nós esse impulso para acreditar que a vida vai para além dessa e esse impulso é praticamente universal, porque abrir mão dele e ser infeliz? Afinal, racionalmente nós não temos garantia de nada! Então eu confesso: acredito em espíritos e, o mais importante, em vida antes do nascimento. Nesse caso, essas mudanças, que nos movem, que nos fazem rir e chorar, são precisamente aquilo que a nossa alma necessita, que o nosso espírito pede. Mudar, querida, é o curso natural das coisas!

    Na verdade o arco-íris está sempre por aí. Você mesma pode produzi-lo usando uma mangueira num dia ensolarado. Basta que se tenha olhos e coração abertos. Gosto de ler esse texto, da idéia de ver o arco-íris através dos seus olhos. Afinal, não sei se você sabe, mas eu vejo apenas três cores no arco íris e muitas vezes preciso das pessoas que amo pra me mostrarem coisas que estão bem diante dos meus olhos!

    Beijos…

    • Silas, que arco-íris enfeitem sua alma, com direito a todas as cores.