Fiquei rodeando a folha em branco. Para onde foram as palavras? Escrevia uma linha, duas, lia e apagava. “Está ruim”, era a frase que mais se formava em meu pensamento.

Tentei temas diferentes. Algumas linhas sobre meus amores e desamores. Algumas linhas sobre algum dos filmes que assisti na última semana, talvez Django Livre, aquele “demônio persuasivo”. Talvez alguma lembrança, alguma memória. Nada fluia. Nada avançava. A folha continuava em branco.

Comecei a me sentir mal com aquele “não sair do lugar”. Olhei o relógio e duas horas tinham se passado. Era como estar rolando na cama antes de dormir quando o sono não vem. Ali eu rolava sobre a folha em branco. Fui tomar café. De novo. A terceira vez aquela manhã.

E quando voltei, lá estávamos novamente a sós. Eu e a Folha em Branco.

Alternativa sempre há, eu poderia refazer um texto publicado, ou dar vida a alguns dos escritos que estão guardados, ou falar sobre qualquer coisa mesmo sem gostar. Mas entendi que minha melhor alternativa era dizer sim e aceitar. Aceitar que aquele era um dia de Folha em Branco, que aquele era um dia do vazio. Um dia da não ideia. Um dia da não inspiração. Um dia de nenhuma linha escrita.

A Folha em Branco era o lugar em que eu estava aquele dia. E aceitar o lugar em que estamos, por incrível que pareça, faz uma grande diferença, move o mundo, transforma o olhar, traz clareza.

Olhar a Folha em Branco não era mais olhar um espaço em que eu precisava depositar linhas e linhas de escritos. Era olhar a Folha em Branco e aceitá-la branca naquele dia. Era olhar o vazio e aceitá-lo acolhedor. Era olhar minha incapacidade de criar e aceitá-la como passageira.

Aceitar o momento é entender que ele não me caracteriza, e que ele vai passar, assim como as nuvens passam pelo céu. “Somos o céu, não as nuvens”, é uma sabedoria que a vida trouxe.

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Aprender a beleza da Folha em Branco me trouxe respiro, me trouxe leveza. Celebrei a Folha em Branco como quem celebra o banho morno para gelado depois de uma longa caminhada. Um alívio. Entendendo que ela é passagem, não residência, eu retiro o peso do momento e consigo colher dele a beleza que está reservada. E então, como que por mágica, esse texto nasceu e a folha foi preenchida linha a linha. 

Por muitas vezes (e muitas vezes) eu fui a própria força contrária sobre os momentos da minha vida em que tudo o que eu precisava era silenciar e observar, vendo a nuvem passar e enquanto isso colhendo as belezas reservadas. Hoje, com toda a calma, escolho como agir num lugar de conexão, a máxima conexão que consigo para aquele momento pois nem sempre é fácil, e sigo rumo às minhas metas e meus objetivos. E hoje, também com a mesma calma, consigo perceber que há momentos que são de observação e não de ação, que são de silêncio, que são de espera, e que aceitar esses momentos vão, ao contrário de me atrasar, evitar que eu me desvie do meu real caminho.

Folha em Branco, seja, portanto, bem-vinda. Hoje é o seu dia. 

Paula Quintão

10 de abril de 2016

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Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br

  • Felype R Sales

    Impecável! A profundidade das suas palavras cativou-me, sei exatamente como é passar pelo dia do papel em branco – também sou escritor ;). Refletir sobre aquele momento é encarar o vazio, que posteriormente pode servir de expiração. Excelente texto!

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Felype, que lindo saber que você consegue se colocar totalmente no meu lugar. Que seus próximos momentos de “folha em branco” sejam muito leves e bem-vindos. Grande abraço e sinta-se sempre bem-vindo.

  • Mari Almeida

    Sabe quando você precisava ler algo assim? Então… Você traduziu o meu tbém momento atual! Obrigada por compartilhar… Gratidão!!!

  • Bruno Cavalcante

    Obrigado Paula. Suas palavras me trouxeram conforto.

  • Alessandra Martelini

    Seus textos sempre vêm na hora certa pra mim 🙂

  • Rico Oliveira

    Mais palavras de sabedoria que espalham paz e conforto…A forma leve e suave com que você soube demonstrar, fez de mais este caso um exemplo de autoestima e superação. Gratidão, querida Paula.

  • Aline Markowicz

    Aceitar nem sempre é fácil muito menos esperar.
    Tenho a mania de sempre agir e reagir a tudo. Quero estar em movimento o tempo todo, mas muitas vezes é tempo de silenciar e esperar. Creio que estou nesse momento. Obrigada Paula por partilhar esse texto tão inspirador!!

  • Carla

    O que dizer de tamanha sensibilidade e essência?
    Paula, você faz nosso percurso mais simples, sereno e essencial para dias com mais significado e transformação. Toda a GRATIDÃO que há pela sua grata existência!

  • Adriana de Castro

    Quanto mais humana, mais cativante! Quanto mais exemplos de evolução e de superações, mais admirável! Tenho muita gratidão por poder te acompanhar a cada semana. Aprendo sempre com você!

  • guaciranewmanrugai

    Lindo Paula minha flor. Mas o que fazer quando a folha em branco se torna um capítulo inteiro? Sentar e esperar o novo capítulo… Beijos minha querida!