Demorei a me dar conta disso, levei muitos anos até perceber que eu era aquela que tentava arduamente “andar na linha”. Uma linha imaginária cheia de “pode ou não pode”.  Andar na linha significava fazer o que esperavam de mim. Andar na linha era me comportar bem. Era atender às expectativas das pessoas que me amavam numa busca incessante por continuar sendo amada. Andar na linha era fazer o que “tem que ser feito”, o que é assim e fim de papo, o que não tem outro jeito.

Descobri, nesses processos de imersão às profundezas da alma, que num belo dia uma Paula, em versão criança, traçou uma linha imaginária diante de si, a colocou sob seus pés, uma linha que implorava passos sobre ela num exercí- cio diário e constante de bom comportamento.

Entre muitos “comporte-se bem” e “seja uma boa menina”, como num passe de mágica, a linha se fez presente e ganhou status suficiente para governar minha vida.

“Seu pé não pode pisar fora da linha, Paula, esse é o seu desafio. Agora vá”, um anjo às avessas deve ter me dito algum dia antes de eu pegar no sono.

A linha imaginária foi uma criação baseada em tudo o que me disseram ser certo e errado, feio e bonito, legal ou chato… vozes dos outros que entraram dentro de mim.

É inevitável. Nascemos cristalinos, coração aberto, mas não só de leite materno nos alimentamos, também as vozes de todos aqueles que nos rodeiam, em casa ou pela televisão, na escola ou nas brincadeiras de rua se transformam em programações e modos de enxergar a vida e suas relações.

Das vozes, nasce a Paula que pisa na linha. Nasce a Paula que se dedica a pisar sobre a linha traçada para que nunca, jamais, em toda a vida, alguém pudesse dizer “olha, ela pi- sou fora da linha!”.

Para além da linha imaginária, fiz mais… criei uma plateia imaginária e uma meta grandiosa: permanecer pisando na linha para só receber aplausos e parabéns. E assim ser amada.

Somos mesmo muito audaciosos com nossas metas.

Costumamos ficar doentes quando nos forçamos a seguir uma linha imaginária, descobri.

Trecho retirado do meu novo livro. Esse é o livro sobre as linhas imaginárias que traçamos, sobre as idas e vindas da vida, sobre o passo a passo que leva ao infinito. O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar. Minha peregrinação a Santiago de Compostela, minha peregrinação de vida.

Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br

  • Miguel Azevedo

    Bom dia Paula
    Antes demais, agradecer-lhe por partilhar a sua vida, experiências, angústias, dúvidas, medos, alegrias, com o mundo. A mim, pessoalmente, ajuda-me saber que as minhas experiências de jornada, de caminho, de vida, já alguém viveu, vive ou vai viver. À minha volta, de uma forma de geral, todos se ocupam, pelo menos aparentemente, só com a resolução dos problemas básicos do quotidiano: comer, dormir, trabalhar, o que é ótimo! Mas eu sinto necessidade de mais, de pensar, refletir, escrever sobre, não só o como mas também, o porquê.
    Este seu texto sobre” andar na linha ” reflete uma parte de mim que está reprimida, saturada de ver à frente só a minha linha.De sentir necessidade de parar, “desalinhar-me”, observar, sentir a paisagem para além da hipnótica linha. Ajudou-me a refletir sobre esta necessidade que incoscientemente vou pisando, silenciando.
    Boa caminhada.

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Miguel, como me encanta saber que daí seus olhos também estão a reparar as profundidades que a vida guarda. Boas vindas hoje e sempre.