Um dos pontos marcos do Caminho de Santiago é a Cruz de Ferro. Nela os peregrinos deixam os pesos que não precisam mais carregar,  aliviam a mochila, liberam a carga. Eu amei estar nesse lugar, a atmosfera era das melhores. Emocionante. Amo o símbolo da Cruz de Ferro, o símbolo de aliviar a carga, de deixar o que já não precisamos mais pelo caminho.

Fiquei profundamente sensibilizada enquanto me aproximava, passo a passo, daquele momento em que eu entregaria algumas pedras que eram símbolos do que eu sabia que precisava deixar ir em minha vida naquele momento.

Reuni as pedras que eu carregava, cada uma delas tinha um nome, um motivo. Eu sabia exatamente o que cada uma daquelas pequenas pedras significavam, sobre quais partes da minha vida se relacionavam, sobre quais sentimentos tratavam. E me abaixar na cruz para entregá-las não me arrancou lágrimas e sim me deu uma abertura e um respiro profundo.

Saí dali leve, dançando sozinha a caminhar com minha mochila e a ouvir minhas músicas preferidas.

Algum lugar de nós reconhece essas entregas. Reconhece a liberação do espaço. E isso dá uma sensação de alívio imensa.

Acontece que há momentos em que nossa clareza tem seus limites, momentos em que sequer sabemos quais pedras deixar.

Porque uma coisa é você se deparar com uma Cruz de Ferro e ter muito claro que alguns pontos em sua vida precisam de cura, de cuidado, de carinho, de trabalho, e que alguns desapegos podem acontecer naquele instante. E outra coisa é você se deparar com uma Cruz de Ferro em um momento que está totalmente perdido, em dúvida, sem saber identificar ao certo onde está doendo, o que está incomodando, ou em que ponto o sapato está apertando, como diz o ditado popular.

Ter essa clareza, sinto, é até mais importante que nos depararmos com a nossa Cruz de Ferro. Porque o lugar de entregas só faz sentido e tem valor se já sabemos o que entregar. É ruim quando não temos a clareza sobre o que deixar e é grave quando entregamos antes da hora de entregar. Uma clareza que tem a ver com o “o que” e também com o “quando”. 

Uma clareza que vem de um processo de autoconhecimento, de autoexploração, de vasculhar tudo o mundo interior e suas nuances, de visitar os sentimentos e entender o que se passa.

Sei que vale a pena a exploração interior. Diante daquela Cruz entreguei minhas pedras, deixei minhas dores, ofereci o que foi valioso para mim e não precisava mais estar na minha mochila, abri espaço para o que viria pela frente, e curei tantas e tantas coisas. E isso só foi possível porque fiz a lição de casa, mergulhei profundo em mim mesma.

Há muita beleza em nos olharmos, em nos entenderemos, em buscarmos nossas curas e levezas. Desejo que sua jornada seja de boas explorações internas, belos passeios pelo seu mundo interior, muita clareza sobre quais as pedras que nesse momento você pode entregar na sua Cruz de Ferro e leveza para seguir sua caminhada.

Assim seja, assim é.

Paula Quintão

24 de junho de 2017

Author

Paula Quintão é escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU. "De passo em passo eu desvendo um mundo dentro e fora de mim".

  • Herica Ramos

    Um dos textos mais lindo e reflexivo que já li!!!!

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Feliz em saber que ressoou aí, querida Herica.

  • https://www.facebook.com/andreluispio.sa?fref=ts André Luis Pio D’Anunzio

    …lá vou embarcar nesta reflexão que andava evitando fazer, mas que a sua Luz me fez enxergar que agora é o momento de idênticar as “pedras” que preciso descarregar…
    Gratidão!

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      André, toda a luz aí dentro em suas explorações.

  • Douglas

    Sim tem um documentário minimalist que nos mostra o quanto podemos ser felizes com pouco principalmente se descarregamos o peso que vem de dentro

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Sim, exatamente! O essencial.