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Paula Quintão

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“Palavras nos ajudam a sentir e a encontrar sentidos”, escreveu a Auxiliadora Oliveira, Dôra, em forma de comentário em uma das aulas da Oficina de Redação (e Oração). E eu me emociono com sua percepção, porque de fato é o que acontece quando estamos a processar alguma dor, a digerir algo que não caiu muito bem, a entender o que há por trás dos fatos que a vida nos trouxeram, e nos colocamos a escrever.
 
É o que sinto quando a dor é grande e posso pegar meu lápis, minha folha em branco, e abrir em palavras o meu coração. É também o que sinto quando estou a fazer meus planos ou rascunhar meus sonhos noturnos.
 
Parece que essas linhas que formam as letras são também linhas que conectam pontos e entendimentos que dentro de nós, antes, ainda não estavam conectados.
 
Pela escrita, eu me encontro.
Pela escrita, eu encontro sentidos.
Pela escrita, eu encontro caminhos no meu inconsciente que antes eu não tinha sido capaz de trazer para a luz do consciente.
A escrita organiza e traz para a superfície.
 
Talvez a linha que forma as letras, que forma as palavras, que forma as frases, que se junta de vírgula em vírgula, de ponto em ponto, seja a linha que vamos deixando também a marcar o caminho nos labirintos da mente. Algo como tentaram fazer João e Maria para não se perderem no caminho de volta para casa. Ou algo como a corda que desce conosco ao fundo do mar quando fazemos nossos primeiros mergulhos e precisamos de referência de segurança para baixar e baixar, mais e mais, nas profundidades.
 
Hoje somos eu e meu lápis bem apontado. Hoje somos eu e meu caderno de escritos. Juntos a desvendar.
 
Paula Quintão
19 de novembro de 2017

Sigo em momentos de reflexões, me permito esboçar algumas delas aqui. Antes fiz isso em ambiente seguro do Espírito Selvagem, a comunidade de mulheres com quem caminho junto. E agora me permito fazer de forma pública, com respeito a mim e ou outro que também me habita.

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Estou aqui vivendo descobertas profundas e que me trazem também acesso a dores ancestrais, mas também a alívios de tamanhos ancestrais.

Vamos a uma história… vamos à uma reflexão.
sintam em suas peles, um convite especial às mulheres.

Houve um tempo, não muito distante para nossos sangues e nosso DNA, que as mulheres eram menos desejadas ao nascer, eram menos valiosas que os homens. E em muitas famílias elas mereciam a morte, literalmente.

Não só uma, mas muitas meninas, assim que vieram ao mundo, logo perderam suas vidas simplesmente por serem meninas.

Forte assim. Também natural assim para uma época que perpetuou a ideia de que mulheres são menos nobres que os homens. Caminhamos por lugar e essa força de crença circula por nossas veias e imaginário de mulheres.

“Somos menos” e por isso devemos nos comportar bem, dar conta de tudo, ser boa mãe, ser a responsável pela limpeza da casa, cuidado com os filhos, alimentação. “Somos menos” e precisamos estudar mais e mais horas que os homens, ter as melhores notas, a letra mais bonita. “Somos menos” e precisamos perdoar traições, mentiras e sermos gentis com toda as bombas que explodem em nosso quintal, assumindo autoresponsabilidade por elas e não nos fazendo de vítimas ao escolher não perdoar.

Por nos sentirmos tão “menos”, quase estamos a nos fazer de madres teresas de calcutá, de santas canonizadas, de verdadeiras rainhas da doação e do amor incondicional (ao outro, mas não a nós mesmas).

Acontece que não somos menos. Nem somos mais. Somos mulheres. Somos o que somos. Únicas e perfeitas como somos.

Dentro de mim, todos os dias, meu movimento é agora de perceber o quanto eu priorizei amar os homens, me amando menos. O quando eu me bati pelo caminho por culpa por não ter amado tanto os homens a ponto de perdoar seus erros, deslizes, falhas.

Meu movimento interno é de observar cada uma das decisões do meu dia a dia e observar se é o meu masculino ou o meu feminino que está sendo priorizado naquele instante.

Só desse equilíbrio de amor interno pela nossa porção feminina, só desse equilíbrio de amor externo a nós mesmas e aos homens de nossas vidas, só nesse equilíbrio de amor que se estende a outras mulheres e a outros homens, e nesse equilíbrio de amor ao nosso pai e também à nossa mãe é que vamos fechar a conta.

Sinto que a grande chave está em nos amar mais, de verdade, não só no discurso. E para isso o único caminho é a investigação de onde estamos depositando nosso amor.

Com amor a mim mesma e com amor a você,
Paula Quintão. 13.11.2017

Semana passada fui para um retiro de dois dias. De longe foi a experiência mais conclusiva da minha vida: reflexões que cobrem todas as áreas, todas as crenças, todos os padrões e que integra sombras e luzes para viver uma jornada de criatividade ilimitada.

Para esse dia de finados, trago como inspiração a foto da criança maravilhosa que nos acompanhou por lá e na força que há nessa criança que nos habita. Sonhos, brilho nos olhos, desejos, criatividade, liberdade, entusiasmo, confiança, circulação, criação, amor, vida. Pelo caminho muitas dessas partes vão morrendo, vão se apagando, vão ficando para trás. E vamos nos impedindo e limitando de viver todo o nosso poder.

A criança interior precisa ocupar o centro, foi um dos mais belos entendimentos a sentir. E para que isso seja possível é preciso, como diz Clarissa Pínkola, “recolher os ossos”, essas partes que são eternas. Pra hoje, meu movimento é o de olhar não só para as pessoas amadas que se foram para a morte, mas também para as partes de mim que morreram pelo caminho. Tanto pessoas amadas como partes de mim podem ser devolvidas à vida como um estado de presença e espírito. Que seja um belo feriado de reflexões.

.:. Precisando de algo, me escreva. Estou aqui e te auxilio a organizar as ideias. .:.

Final de semana fomos ao Templo Zu Lai. Parecia ser um domingo comum, desinteressado, mas o que encontramos no templo foi uma bela cerimônia que reunia várias religiões pela paz.

Vi monjes, bispos, pais de santo se abraçarem em saudação e honra à paz que nos habita, vi a bela imagem de Nossa Senhora Aparecida, que está em peregrinação por várias cidades, passar entre nós e ser anunciada em língua chinesa ao mesmo tempo em que era aplaudida de pé.

Foi bonito estar ali naquele exato momento, fazendo parte de algo tão bem criado. Andamos pelo Templo, encontramos a fonte de água, também a deusa chinesa da compaixão, e entre os lindos bambus que compunham a paisagem havia uma moça de olhar silencioso praticando seu tai chi chuan.

Observá-la foi meu novo presente de saudação à paz naquela tarde. Ela era presença, ela era paz, ela era consciência, era movimentos intencionados.

Sinto que a paz, e foi a dança do tai chi que me mostrou isso, vem de todo esse pacote que envolve presença, movimentos intencionais, e o alinhamento entre pensamentos, palavras e ações.

Experienciamos a paz em pequenos instantes, sempre que somos capazes de nos alinhar dessa maneira.

Paula Quintão

31 de outubro de 2017

Para esse domingo vou responder ao questionamento enviado por Rico Oliveira usando algumas luzes que partilho no livro “O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar”, minha história de vida e meus passos rumo à Santiago de Compostela.

Rico me pergunta.

“Querida Paula, o que o Caminho lhe revelou sobre saber dizer NÃO? Grato”.

A verdade é que todo o meu Caminho foi permeado de “nãos” e “sims” que eu me ouvia dizer para mim mesma. Paro agora para um café? Sim ou não? Durmo nesse hostel? Sim ou não? Ando mais alguns quilômetros hoje? Sim ou não? Entre meus “sims” e meus “nãos”, eu me percebi muitas vezes dizendo não para mim mesma, não para o cuidado comigo, não para me sentir tranquila, não para uma alimentação mais leve e saudável, não para hábitos que me fariam sentir mais presente.

O que percebi é que quanto mais eu dizia não para mim mesma, mais difícil era dizer não para os outros.

Para ser capaz de dizer, com autenticidade, sim ou não para os outros, nas demandas que criavam, nas sugestões que faziam, nos convites que surgiam, nos pedidos que apareciam, eu precisava estar muito presente a cada SIM e NÃO que eu dizia para mim mesma.

Uma das noites mais difíceis do meu Caminho foi a noite em que dormi num hostel que eu sabia que não queria ficar. Eu sabia que não era para eu ficar lá e mesmo assim eu fiquei. Conto essa história com mais detalhes no meu livro, nos capítulos iniciais. Naquela noite um casal de americanos fez sexo no meio de todos os outros peregrinos, uma sala com umas 50 pessoas dormindo não foi capaz de inibi-los. E eu senti medo, senti mal estar, me senti em risco. Acontece que a minha intuição tinha me guiado e me orientado a não ficar ali, mas por estar com uma amiga, por estar cansada, por não me importar tanto com o não que eu precisava ter dito, tudo aquilo foi como uma lição especial de “quando for preciso dizer não, diga não, suave e profundo, verdadeiro e preciso”.

É desse lugar de “corte cirúrgico” que hoje eu caminho. Sigo a observar e sentir o que meu coração me mostra, quais “sims” e quais “nãos” eu preciso dizer hoje. Às vezes podemos imaginar que o “não” vai nos limitar ou vai chatear as outras pessoas, quando às vezes será a maior de todas as liberações – liberações de nós mesmos e liberação do outro por ele poder enxergar a verdade que ocupa nosso coração.

Paula Quintão

29 de outubro de 2017.