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Paula Quintão

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Nesta segunda, dia 23 de outubro, chega da gráfica, em minhas mãos, meu novo livro materializado pela minha editora Suban A Los Techos. Quanta felicidade quando na última semana meu amigo e editor Cristian Fernandes me enviou uma foto do livro pronto.
 
Escrevi muitas das histórias do livro ainda pelo Caminho, quando ao final dos meus dias de peregrinação eu me sentava com meu caderno de escritos e me colocava a rememorar as ricas histórias e lições que aquele dia tinha trazido para minha jornada.
 
Quando voltei ao Brasil, minha vontade era o quanto antes digitar toda a história que já estava em meu caderno e preencher as lacunas necessárias para que aquelas luzes de 36 dias que contavam muitas histórias sobre minha vida inteira pudessem se transformar em meu novo livro.
E então eu lia, eu relia, eu revisava, eu lia de novo. O livro estava pronto, mas eu não batia o martelo que estava finalizado.
 
Posso dizer que o livro ficou pronto quase um ano antes de eu conseguir, de fato, bater o martelo e dizer “agora sim”.
Lembro de ter essa mesma sensação quando ao final do meu mestrado e do meu doutorado eu sentia que a dissertação ou a tese estavam “quase prontas” e não ficavam prontas nunca. Era como se sempre houvesse algo a mais a acrescentar, era como se sempre houvesse uma revisão a fazer, um item a considerar, um ponto a acrescentar, uma questão a esmiuçar.
 
E a verdade é que sempre haverá uma revisão a fazer, um ajuste a providenciar, um novo parágrafo.
 
Pronto, pronto, pronto um projeto, um livro, um texto nunca está – e mesmo nós nunca estamos.
 
Não fica pronto porque nós também estamos em constante “atualização”, estamos expandindo a consciência e a percepção a cada instante. E isso nos faz ter sempre um nova bagagem a adicionar no que estamos entregando ou fazendo.
 
Eu sabia que meu livro estava pronto, mas ao mesmo tempo a arte de escrever a história do Caminho era tão prazeirosa pra mim que eu não queria que terminasse nunca. E assim eu fui adiando o momento de bater o martelo e enviar meu livro para revisão. Há uma hora, como diz minha orientadora de doutorado, que esse martelo precisa ser batido. “Está pronto mesmo sem estar”, “está pronto e vamos em frente”, “está pronto e vamos ao próximo passo”. E bater o martelo é nos permitir viver as próximas etapas da experiência. Se eu não tivesse batido o martelo que o livro estava “pronto”, a entrega tão incrível do livro impresso não chegaria nunca; o livro não estaria em minhas mãos tão cedo…
 
E foi assim que meu livro seguiu. E é assim o que me traz a esse 23 de outubro numa das entregas mais esperadas da minha vida, a transportadora e meus livros recém chegados da gráfica. Também o dia em que saio em direção aos Correios para postar os livros de todos aqueles que já fizeram seus pedidos durante o período de pré-lançamento no site da editora.
 
Alegria os martelos batidos, alegria os ciclos encerrados, alegria quando as materializações dos plantios chegam até nossas mãos. “O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar”, meu novo livro.
Paula Quintão
22 de outubro de 2017
Selecionei para esse domingo três das tantas questões que recebi por email e por mensagens para responder no texto de hoje. Na próxima semana responderei a algumas outras. São pedidos de luzes que responderei com base nas vivências que tive ao longo do meu Caminho de Santiago e que fazem parte da história do meu novo livro, O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar.

 

sobre ouvir a intuição, uma questão de Rosangela Braga

“Minha pergunta é se em algum momento nesse caminho vc deixou de lado seu planejamento e seguiu sua intuição.. ?!” Rosangela Braga

Pelo Caminho confirmei que a intuição é a maior de todas as nossas inteligências. Ela vê longe, vê além da curva. Vou te contar como eu fazia e no meu livro você poderá ver isso mais profundamente em cada uma das minhas páginas…

O que eu fazia, todas as noites, era me sentar a sós com meu mapa e planejar a caminhada do dia seguinte. Eu sentia um prazer imenso ao olhar aquele mapa e ver os pontos marcos por onde eu passaria no dia seguinte, quantos quilômetros eu poderia percorrer, as paradas para tomar um café ou almoçar. O planejamento sempre me encanta. Acontece que no dia seguinte eu não precisava mais olhar aquele plano, ele era minha referência apenas e eu seguia a observar as pistas, as luzes, as revelações que a vida trazia. Aprendi muito sobre flexibilidade, sobre estar atenta aos sinais e sobre a vida ser essa grande mágica em que as respostas são todas providenciadas pelas sincronicidades. Estar atenta ao que a intuição vai mostrando é a melhor forma de seguirmos em direção à surpresas muito melhores do que aquelas que planejamos.

Percebi também uma grande diferença entre intuição e medo, a intuição expande nosso olhar, nos mostra alguma luz, enquanto o medo nos fecha, nos oprime. Na minha terceira noite de Caminho eu soube que não era para ficar naquele albergue municipal, olhei para ele e minha intuição disse muito simples e sutil “não durma aqui”. Mas eu não obedeci. E vivi uma das noites mais perturbadores de toda a minha peregrinação. Conto essa história nas páginas do meu livro, foi uma noite terrível. Claro, dela eu tive várias lições, mas a principal foi que eu deveria ser totalmente fiel à minha intuição, jamais trair a mim mesma duvidando do que eu senti, dos alertas que tive, das percepções que recebi como aviso.

Você pode também assistir ao vídeo onde respondo à essa pergunta.

sobre a procrastinação, uma questão de Alex Dobroca

“Boa noite Por Paula Quintão. Tenho muito projetos, mas estou sofrendo de procrastinação, estou precisando de um help, obrigado” Alex Dobroca

Eram 800km, ao todo caminhei por 36 dias. E nem todos os dias eu tinha vontade de caminhar, nem todos os dias eu tinha vontade de me colocar a arrumar minha mochila às 6h da manhã, nem todos os dias eu queria sair ainda antes do amanhecer para uma caminhada de horas e horas. E eu sabia que era importante me levantar e me colocar em movimento, eu estava lá só para isso, mas tinha dias que era bem difícil tomar essa decisão e começar meu dia.

Entendi a que a procrastinação é só uma forma de expressão da nossa alma que pede um pouco de atenção. Se sentimos que é preciso fazer algo, se sabemos que algo é importante, e mesmo assim não fazemos, tem uma parte de nós que não quer fazer. Ao invés de forçá-la a fazer, temos que entender a dor que ela carrega, a mensagem que essa parte está tentando nos enviar. Pelo Caminho, e hoje pelo dia a dia, eu converso com meus sentimentos, todos eles, perguntando o que eles estão tentando me contar. E com a procrastinação não é diferente… Mas havia um elemento por lá que percebi ser essencial para que eu conseguisse completar minha jornada… a força do grupo, a força dos peregrinos que todos juntos, cada um no seu tempo, seguiam rumo à Santiago.

Quando estamos na companhia das pessoas certas, temos mais energia, temos mais entusiasmo. Também quando respeitamos nossos tempos e nossos ritmos, sem nos apressar, entendendo que é no tempo da natureza que as coisas acontecem, também ganhamos mais energia para realizar.

Você vai encontrar no meu livro muitas das minhas histórias em que eu amaria ficar na cama mas que de alguma forma uma força me levantou e me trouxe energia para completar minha caminhada naquele dia.

 

sobre os momentos de baixa energia, uma questão de Luciana Maia

“Quando dá um sentimento de baixa, baixa energia, o que fazer?” Luciana Maia

Por muitos dias eu tive vontade de pegar um táxi e acabar logo com aquela caminhada. Por muitos momentos minha vontade era parar em uma cidade grande, encontrar um bom quarto de hotel e por lá ficar pelo resto dos meus dias programados para o Caminho de férias, pernas para o ar, frequentando deliciosos restaurantes espanhóis e comprando delícias diferentes no supermercado. Esses momentos de baixa foram muito comuns em minha jornada de 36 dias e o que mais percebi foi que ao seguir em frente ou mesmo depois de parar um pouco para descansar, esses momentos passam.

Nas páginas do meu livro narro muitos e muitos dias em que eu acordava ótima e plena e de repente eu me sentia péssima, cansada, super de mal humor, super desanimada. Era assim, de repente…

Fui percebendo que a sensação de cansaço, desânimo, irritação, baixa frequência, vontade de largar tudo e voltar para casa é passageira. E para que ela passe, percebi em mim, preciso me colocar à disposição para ouvir minhas próprias queixas, ouvir qual parte minha está reclamando de algo, fazer um balanço sobre o que é possível atender ou não naquele momento, encontrar um meio termo, dar uma pausa, enriquecer o momento com algo que eleve a frequência, no meu caso talvez um pé na grama, uma caminhada pela cidade, um caderno para escrever, uma boa música ou uma conversa descontraída, e me abastecer para então seguir em frente.

Você pode encontrar mais das minhas histórias e lições recebidas pelo Caminho de Santiago nas páginas do livro O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar ou aqui nos meus escritos de domingo. Semana que vem responderei a mais questões que me enviaram usando algumas luzes que recebi no Caminho de Santiago.

 

Paula Quintão

15 de outubro de 2017

Capítulo 32. Livro O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar

O Berro Mais Alto do Mundo

#dia 28. Pieros => Ambamestas (mais ou menos 21km)

Você já deve ter tido um sonho como esses: de repente estamos vivendo uma situação de grande perigo, um ataque, um sufoco dos maiores do mundo, e tudo o que nos resta é gritar bem alto pedindo ajuda. Só que nesse momento, o que acontece? O grito não sai. Você tenta gritar e gritar e o grito não sai. É um grito mudo, um grito preso.

Tive esse sonho muitas vezes na minha vida.

Abafei esse grito dentro de mim anos e anos.

E então, um fato se passou no Caminho. Estava cansada depois de percorrer mais de 20km, minha meta naquele dia era talvez percorrer 24km. Mas ao invés disso andei quase 22km. E tudo bem. O que são 2km dentro de 800km? Nada.

Parei num povoado bem pequeno, não tinha mercado, só um restaurante e um bar, coisa de grande valia e que resolvia a vida. Encontrei meu albergue e estava vazio: somente eu e Linda, uma senhora de seus 60 anos, americana, que caminhava sozinha também desde a França, Saint Jean, mesmo ponto onde comecei. 

Logo nos entrosamos e fomos almoçar juntas. Provavelmente seríamos só nos duas no albergue e isso soava bem. Um almoço mais bonito que gostoso, mesmo assim voltamos felizes para nossos aconchegos. E a tarde se fez noite.

Teríamos duas outras companhias: um homem da Espanha chegou no entardecer e foi logo se deitando; e um outro francês que só falava francês e por isso não tinha com quem se comunicar naquele dia, ficou a mexer em seus mapas e mochila por longas e longas horas.

Tentamos até nos entender, pois ele me perguntou algo sobre um Caminho em Portugal acreditando que meu português era de lá, mas a conversa não rendeu mesmo com as mímicas e monossílabos em línguas desconhecidas que tentamos criar.

Hora de dormir. Tudo em paz. Mesmo que eles roncassem ou que as camas fossem barulhentas, ainda assim estaria tudo bem já que éramos só quatro pessoas.

Esse meu raciocínio de que menos pessoas podem proporcionar uma noite de sono melhor é totalmente sem pé nem cabeça. Há alguns dias essa teoria tinha ido por água abaixo quando naquele albergue Santa Clara eu paguei um euro a mais para ficar num quarto de três pessoas ao invés de dezenas e me dei super mal numa soma de chulé excessivo e roncos dos mais terríveis, o que provou por a + b que essa teoria não valia pra nada.

Aquele era um novo momento, uma nova noite e tudo estava bastante silencioso e bem cheiroso quando eu fui dormir.

Eis que eu durmo e desperto alguns minutos depois. Ouço o francês que não se comunicava com ninguém agora com uma respiração acelerada. Tudo escuro, eu não conseguia enxergar. “O que há com esse francês?“, atenção aos sons.

A única conclusão que aqueles sons puderem me dar é que ele estava se masturbando, um momento de descontração e alegria em sua cama de albergue. Talvez o banheiro fosse um melhor lugar, até porque estava vazio e tranquilo de ser frequentado, mas ele preferiu usar a cama mesmo. “Tudo bem“, eu me concentrei em pensar, “é um menino novo, daqui a pouco ele dorme“. Fechei meus olhos decidida a dormir e não me incomodar. Poucos minutos, abro meu olho e bem diante de mim, quase tocando no meu saco de dormir, lá estava o garoto de pé vindo em direção a minha cama.

“Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhh”, eu berrei!!!

“Are you crazy? What are you doing? Você está louco? O que está fazendo?”, e resolvi xingar em inglês na esperança de ser uma língua universal minimamente compreendida por ele e pelos outros.

Foi o maior berro da minha vida. Foi o maior berro do mundo.

O garoto fez alguns acenos com a mão e saiu às pressas para o banheiro, totalmente acelerado e com medo.

Sim, eu berrei muito alto.

Não sabia que eu conseguia berrar tão alto assim.

Eu mesma fiquei a ouvir meu berro por longo tempo.

“Linda, você está acordada?”, eu perguntei e é claro que ela estava acordada. “Estou com medo desse garoto”.

“Querida, pode ficar tranquila e dormir, ele agora está com mais medo de você do que você dele”.

Pois eu fiquei em alerta toda a noite. Depois pensei que ele poderia me atacar por causa do meu maior berro do mundo. E então eu dormi.

No dia seguinte andei só por 7km, nada mais que isso. Parei numa casa rural às 10h da manhã, exausta da minha noite, chovia um tanto, e foi um alívio ter um quarto só para mim. Tomei um banho de banheira, muita espuma, e deitei sem pijama debaixo das cobertas me sentindo protegida e em paz. E um estado de leveza me invadiu. O berro me fez muito bem.

Eu berrei todos os abusos que me permiti sofrer. Eu berrei o professor de educação física da escola que se deitou sobre mim aos 11 anos de idade e que em 20 anos eu nunca consegui contar a ninguém. Eu berrei minha incapacidade de dizer um não que valesse algo ao meu primeiro namorado na minha primeira vez. Eu berrei tudo o que eu permiti que o pai da minha filha falasse sobre mim nos corredores do colégio quando eu estava grávida. Eu berrei todos os julgamentos sobre a minha sexualidade. Eu berrei todos os toques que eu não quis receber no meu corpo e fui incapaz interromper. Eu berrei o que eu aceitei sem querer aceitar. Eu berrei toda a confusão entre sexo e amor. Eu berrei todas as vezes que os homens só me amaram enquanto eu fiz o que eles queriam. Eu berrei muito alto, da profundeza da minha alma. Foi o maior berro da minha vida. E valeu por toda ela.

 

Demorei a me dar conta disso, levei muitos anos até perceber que eu era aquela que tentava arduamente “andar na linha”. Uma linha imaginária cheia de “pode ou não pode”.  Andar na linha significava fazer o que esperavam de mim. Andar na linha era me comportar bem. Era atender às expectativas das pessoas que me amavam numa busca incessante por continuar sendo amada. Andar na linha era fazer o que “tem que ser feito”, o que é assim e fim de papo, o que não tem outro jeito.

Descobri, nesses processos de imersão às profundezas da alma, que num belo dia uma Paula, em versão criança, traçou uma linha imaginária diante de si, a colocou sob seus pés, uma linha que implorava passos sobre ela num exercí- cio diário e constante de bom comportamento.

Entre muitos “comporte-se bem” e “seja uma boa menina”, como num passe de mágica, a linha se fez presente e ganhou status suficiente para governar minha vida.

“Seu pé não pode pisar fora da linha, Paula, esse é o seu desafio. Agora vá”, um anjo às avessas deve ter me dito algum dia antes de eu pegar no sono.

A linha imaginária foi uma criação baseada em tudo o que me disseram ser certo e errado, feio e bonito, legal ou chato… vozes dos outros que entraram dentro de mim.

É inevitável. Nascemos cristalinos, coração aberto, mas não só de leite materno nos alimentamos, também as vozes de todos aqueles que nos rodeiam, em casa ou pela televisão, na escola ou nas brincadeiras de rua se transformam em programações e modos de enxergar a vida e suas relações.

Das vozes, nasce a Paula que pisa na linha. Nasce a Paula que se dedica a pisar sobre a linha traçada para que nunca, jamais, em toda a vida, alguém pudesse dizer “olha, ela pi- sou fora da linha!”.

Para além da linha imaginária, fiz mais… criei uma plateia imaginária e uma meta grandiosa: permanecer pisando na linha para só receber aplausos e parabéns. E assim ser amada.

Somos mesmo muito audaciosos com nossas metas.

Costumamos ficar doentes quando nos forçamos a seguir uma linha imaginária, descobri.

Trecho retirado do meu novo livro. Esse é o livro sobre as linhas imaginárias que traçamos, sobre as idas e vindas da vida, sobre o passo a passo que leva ao infinito. O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar. Minha peregrinação a Santiago de Compostela, minha peregrinação de vida.

Para Ana Clara, minha amiga-anjo

Estava há mais de 30 dias andando. Caminhava algo como 20 km por dia. Alguns dias menos, 7km. Outros dias mais, 28km. Santiago cada vez mais próxima, mas posso dizer que há dias que eu me esquecia que estava indo a Santiago. Simplesmente arrumava minhas coisas e caminhava, caminhava, caminhava.

Aquela poderia ser uma manhã como outra qualquer: 6h, ainda noite, os peregrinos começam a arrumar suas mochilas no albergue (mesmo sendo noite). 6h30 alguém não resiste e acende a luz. 7h todos já se foram. Menos eu. Ajeitava tudo até às 8h, que era quando começava a amanhecer. E meu dia estava a seguiu mais ou menos esse script.

Mas então, algo novo. Um ônibus parou e desceram muitas, muitas, muitas e muitas pessoas. Depois pararam como mais 5 ônibus, e desceram muitas, muitas, muitas pessoas. Elas tinham algo em comum: todas usavam um lenço amarelo no pescoço e não tinham mochila. Por estarem sem mochila, andavam muito rápido.  E por terem chegado naquele momento, estavam muito animadas tirando fotos e falando entre elas – em alemão.

Era uma excursão. Logo um e outro peregrino que eu já conhecia dos dias anteriores vinha trazendo um comentário, cada um de um jeito:

“São alemães, saíram todos de um ônibus”.

“São alemães, devem ser como mil”.

“São alemães, vão agora caminhar todos os dias até Santiago”.

“São alemães, um bando de turistas”

“São alemães, vieram em um grupo de 400 pessoas”.

“São alemães, e não vai sobrar lugar para a gente dormir no próximo povoado”.

O frisson foi geral entre os peregrinos que estavam a caminhar a mais dias, como se aquela chegada fosse uma verdadeira injustiça. “Como assim esses alemães chegam agora aos 45 do segundo tempo e pensam que são peregrinos?” Há um apelido pejorativo para esse tipo de peregrino: “turisgrino”.

Realmente o grupo dos alemães marcava presença.

Eles lotaram o caminho.

Os bares e restaurantes que geralmente ficam vazios estavam parecendo praça de alimentação do shopping.

Comecei a perceber que eu estava realmente irritada com todo o barulho ao redor, com as cantorias, com as pessoas que paravam bem na minha frente para tirar fotos… Quando me dei conta da minha irritação, percebi que tinha minhas duas escolhas: poderia me irritar muito com todos os barulhos, risos, conversas, lotações máximas do caminho ou poderia usar todos os dias de aprendizado para lidar com aquela situação com neutralidade. “Deve ser um teste para eu aplicar o que tantos dias de caminhada têm me ensinado”.

E assim eu fiz, numa luta interior para aquietar minhas irritações. Mantive meu estado de silêncio, mantive meu estado de calma. Cheguei a acelerar o passo em alguns momentos com medo de ficar sem lugar nos albergues para passar a noite, mas depois descobri que o grupo ficava num lugar só para eles porque estavam realmente com uma agência.

Nesse momento eu entrei num estado de observação e percebi o quanto nós somos capazes de julgar duramente os outros. Peregrinos muito em paz que estavam há dias caminhando comigo começaram a se irritar bastante com a presença dos alemães, começaram a criticar o fato de estarem lá só fazendo 4 dias de caminho sem suas mochilas.

Um senhor brasileiro me disse: “Essa experiência deles não serve de nada, voltam pra casa do mesmo jeito que chegaram. Andar quatro dias não é fazer o caminho”.

E nós sabemos o quanto todas as experiências, sejam elas quais forem, cada uma em sua medida, nos transformam em algo…

E o caminho, como eu já disse outras vezes, nada mais é do que uma metáfora da vida cotidiana, essa nossa vida de todos os dias.

Quantas vezes não olhamos o outro e julgamos suas escolhas?

O outro fez isso ou aquilo… olha que horror. A fulana está agora fazendo isso… olha que horror.  O filho da vizinha agora está aprontando… olha que horror.  Maria Maria vai se separar… olha que horror. 

Acontece que a experiência do outro é a experiência do outro.

Acontece que as escolhas do outro são as escolhas do outro.

Acontece que o modo como o outro faz o caminho dele, a vida dele, é escolha dele, diz respeito a ele, e foi o melhor que ele podia fazer naquele momento. E você jamais terá dimensão da história que o trouxe até aquele momento, só ele sentiu o que sentiu, viveu o que viveu.

Mesmo que diante dos nossos olhos pareça uma grande bobagem, uma grande inutilidade, uma grande futilidade, uma grande perda de tempo, são nossos olhos de julgamento que estão classificando assim, porque a verdade é que o caminho do outro é o que há para o momento de vida dele. E pronto.

Por que precisamos ficar discutindo isso?

Por que precisamos nos sentar em torno da mesa e ficar falando sobre as escolhas que o outro fez?

Por que achamos que nossas escolhas são melhores?

ocaminhodooutro

Deixar que o outro viva o seu caminho, sem julgamentos, não tem a ver com libertar o outro, mas sim libertar você. Quando usamos nosso tempo e nossa energia para julgar o outro, estamos perdendo a oportunidade de viver as nossas próprias experiências por inteiro.

E aqui está um lindo episódio concreto disso, presente do próprio caminho para as minhas reflexões…

Tive, naquele dia, entre os alemães, uma das experiências mais ricas e emocionantes do meu caminho.

Uma das moças do grupo passou por mim e foi logo parando com duas de suas amigas. Acompanhei seu movimento de encontro com as amigas que estavam sentadas descansando, e quando eu olhei para o rosto da segunda moça que estava sentada…. ela era igual (igual!) a uma grande amiga que faleceu há alguns anos, uma amiga das mais queridas, mais felizes, mais doces que se pode ter. Ana Clara.

Aquela mulher era igual à minha amiga, igualzinha. Ela me olhou nos olhos e com toda a delicadeza do olhar, ternura completa, sussurrou “buen camino”.

Era como se a minha amiga estivesse ali, diante de mim, me desejando “um bom caminho”. Era como se ela estivesse ali a me dizer “eu estou bem, siga o seu caminho”.

Como eu chorei… Como eu agradeci aquele momento tão lindo…

Se eu estivesse a viver dentro de mim todos os julgamentos aos alemães, eu talvez não tivesse me dado conta daquele momento, porque os pensamentos teriam me capturado, eu não olharia no rosto deles. E se os alemães não estivessem ali, aquele momento que foi um presente não teria acontecido.

Cada um escolhe seus caminhos.

Cada um está fazendo o melhor que pode. Mesmo que o melhor do outro ainda esteja, segundo o seu olhar, muito horrível, ainda assim é a vida do outro, é o caminho do outro, é o processo dele, é o que há para hoje. Assim como o que você faz hoje é o que há de melhor para você. Não há melhor nem pior, há escolhas, há caminhos, há vidas que seguiram seus rumos e suas possibilidades.

Seguir no nosso caminho, olhando para o que a vida está reservando para nós, é o melhor modo de aproveitarmos ao máximo a nossa viagem, a nossa travessia, colhendo os presentes que nos foram reservados.

 

Paula Quintão

25 de outubro de 2015 (texto repostado do original em 10 de setembro de 2017)