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Paula Quintão

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Essa jornada de autoconhecimento e descobertas das camadas da alma vai trazendo revelações das mais interessantes, muita luz e conexões. E uma das percepções a que cheguei e que hoje mais me encantam é a de que mundo interno e mundo externo são complementares. Move em um, move no outro.

E a vida carrega simbolismos muito fortes e ricos a cada movimento que fazemos. Simbolismo capazes de nos trazer muita consciência sobre o que acontece dentro de nós.

Hoje quero falar sobre um dos grandes temas da minha vida, a sustentabilidade, para usar como um dos exemplos dessa percepção.

Meu doutorado foi em sustentabilidade na Amazônia. Antes disso vivi uma fase intensa de bandeiras e chatices ambientais muito forte. Era bem excessivo, devo admitir. Na época minha vontade de salvar o mundo era tão intensa que eu saía por aí apontando para tudo e todos que não estavam contribuindo de alguma forma para que isso acontecesse.

Tudo teve seu valor e foi, surpreendentemente, durante o próprio doutorado em sustentabilidade, entre tantos professores, colegas e estudos sobre o ambiente, que me veio o entendimento de que não era questão de salvar o mundo muito menos a natureza que estávamos tratando, mas sobre o fato de salvar a nós mesmos e a possibilidade de continuarmos vivos e em condições agradáveis habitando esse planeta. De fato, a natureza se garante sem nossa presença. Ela sente os impactos das atrocidades que fazemos, poluindo tudo e eliminando preciosidades, mas a natureza de fato se recompõe magnificamente se formos retirados da equação.

Na época da infância e adolescência convivi com meus pais prestando, dentro de nossas casas, um serviço que era um tanto fascinante: eles produziam material didático para uma escola. Minha mãe por muitos anos fez serviço de digitação e chegavam manuscritos e mais manuscritos para que ela, em sua antiga máquina de escrever Olivetti, transformasse, quase que por um milagre, aquelas letras tão feias em uma bela orquestra estética. Esse serviço evoluiu para o computador num momento e as impressoras matriciais tomaram conta de um dos quartos da casa… e o som que emitiam tomou conta de tudo. Ainda consigo simular em meu imaginário o vai e vem da impressora e o barulho que o papel contínuo fazia ao ser puxado da caixa.

E uma vez mais o serviço deu um salto quântico quando chegaram as máquinas copiadoras da xerox e da ricoh. Nessa época a coisa estava muito mais intensa e eu e minha irmã quase sempre ajudávamos em alguma das etapas do negócio.

Uma das tarefas que eram necessárias naquela época, porque ainda não tínhamos a maravilhosa e igualmente mágica colecionadora de papéis, era fazer nós mesmos, manualmente, o serviço de colecionar página a página as apostilas que depois seriam entregues aos alunos.

Talvez você consiga visualizar aí. Imagine uma apostila com 20 páginas, e umas 500 cópias de cada uma dessas páginas… Só que cada página é um monte de 500 folhas e precisamos montar uma apostila que tenha a página 1, a 2, a 3, a 4… e por aí vai… até a 20.

Muito simples, meu caro leitor… colocávamos na mesa os montes que cabiam e começávamos um serviço que era… pegar a página 1, depois juntar a página 2, depois a página 3, depois a página 4, depois a 5… e por aí vai até completar da página 1 até a página 20.

Éramos colecionadores. Olhando isso agora senti poesia. E isso, como você também pode imaginar, levava horas e horas e horas e horas de trabalho.

E nessas “horas e horas e horas” conversámos bastante. Era uma boa atividade juntos, ficou registrada assim na minha memória.

Acontece que havia um ponto crucial nessa história, que era o momento de grampear ou de encadernar a tal apostila formada. E eu me preocupava um tanto para não aprontar alguma bobagem naquele momento tão importante, afinal de contas se o chato do grampeador desse aquela clássica engasgada, as folhas iam ficar com aquele furo feio e eu de fato sentia pena do aluno que receberia a sua apostila assim.

Meu pai tinha uma frase clássica para todas as vezes que eu suspirava de irritação com o grampeador falseante… “Não é olho de santo, Paula”.

Os olhos revelam muito sobre nós, sobre o que somos e sentimos. Talvez por medo de nos revelar criamos essa cultura que pouco se olha nos olhos, que não se atreve a parar por minutos em silêncio pousando os olhos sobre os olhos de um outro alguém a não ser que se tenha muita intimidade. Os olhos são janelas da alma. 

Domingo passado fui constelar. Eu sabia que seria um dia inteiro de constelação. Fomos eu e minha amiga Thais. Ela que estava me visitando em Minas me acompanhou e eu seu sabia que amaria ver tudo aquilo acontecer diante dos seus olhos. É uma estudiosa do ser humano, socióloga por nascença.

(E nesse texto não vou explicar o que é a constelação, tenho três entrevistas que fiz com e se quiser saber mais, basta me escrever).

Importante pra mim é que saiba que a constelação revela as dinâmicas e as leis do amor, o amor puro e o amor cego, o amor que diz SIM à vida e o amor que diz NÃO à vida tentando compensar um não ao amor. O amor é a maior força da existência. Na constelação familiar tudo é tecido lindamente, uma sensibilidade sem igual. E de simples, natural como uma dança bem conhecida por nossa alma, a constelação se torna um rito de passagem dos mais poderosos.

O Andrei Moreira, que é o meu constelador, em sua precisão cirúrgica usa cada mínimo detalhe como forma de cura, cada mínima palavra de forma terapêutica e claro, usa cada olhar como um instrumento mágico de conexão e abertura do coração.

A constelação usa o sentir para revelar o amor e todos os outros sentimentos que estão vivos naquele contexto. E os olhos são um grande instrumento. Os movimentos do corpo contam uma história e são os olhos que revelam o que a alma tem para dizer. E eles falam. Falam sem usar palavras. Falam ainda mais quando estão em silêncio. Falam mais que mil frases poderiam dizer. Falam em um lugar da nossa alma que reconhece profundamente essa mensagem.

Somos leitores de olhares. É uma verdade. E nos emocionamos muito com o que encontramos ali.

Um dos pontos marcos do Caminho de Santiago é a Cruz de Ferro. Nela os peregrinos deixam os pesos que não precisam mais carregar,  aliviam a mochila, liberam a carga. Eu amei estar nesse lugar, a atmosfera era das melhores. Emocionante. Amo o símbolo da Cruz de Ferro, o símbolo de aliviar a carga, de deixar o que já não precisamos mais pelo caminho.

Fiquei profundamente sensibilizada enquanto me aproximava, passo a passo, daquele momento em que eu entregaria algumas pedras que eram símbolos do que eu sabia que precisava deixar ir em minha vida naquele momento.

Reuni as pedras que eu carregava, cada uma delas tinha um nome, um motivo. Eu sabia exatamente o que cada uma daquelas pequenas pedras significavam, sobre quais partes da minha vida se relacionavam, sobre quais sentimentos tratavam. E me abaixar na cruz para entregá-las não me arrancou lágrimas e sim me deu uma abertura e um respiro profundo.

Saí dali leve, dançando sozinha a caminhar com minha mochila e a ouvir minhas músicas preferidas.

Algum lugar de nós reconhece essas entregas. Reconhece a liberação do espaço. E isso dá uma sensação de alívio imensa.

Acontece que há momentos em que nossa clareza tem seus limites, momentos em que sequer sabemos quais pedras deixar.

Porque uma coisa é você se deparar com uma Cruz de Ferro e ter muito claro que alguns pontos em sua vida precisam de cura, de cuidado, de carinho, de trabalho, e que alguns desapegos podem acontecer naquele instante. E outra coisa é você se deparar com uma Cruz de Ferro em um momento que está totalmente perdido, em dúvida, sem saber identificar ao certo onde está doendo, o que está incomodando, ou em que ponto o sapato está apertando, como diz o ditado popular.

Ter essa clareza, sinto, é até mais importante que nos depararmos com a nossa Cruz de Ferro. Porque o lugar de entregas só faz sentido e tem valor se já sabemos o que entregar. É ruim quando não temos a clareza sobre o que deixar e é grave quando entregamos antes da hora de entregar. Uma clareza que tem a ver com o “o que” e também com o “quando”. 

Uma clareza que vem de um processo de autoconhecimento, de autoexploração, de vasculhar tudo o mundo interior e suas nuances, de visitar os sentimentos e entender o que se passa.

Sei que vale a pena a exploração interior. Diante daquela Cruz entreguei minhas pedras, deixei minhas dores, ofereci o que foi valioso para mim e não precisava mais estar na minha mochila, abri espaço para o que viria pela frente, e curei tantas e tantas coisas. E isso só foi possível porque fiz a lição de casa, mergulhei profundo em mim mesma.

Há muita beleza em nos olharmos, em nos entenderemos, em buscarmos nossas curas e levezas. Desejo que sua jornada seja de boas explorações internas, belos passeios pelo seu mundo interior, muita clareza sobre quais as pedras que nesse momento você pode entregar na sua Cruz de Ferro e leveza para seguir sua caminhada.

Assim seja, assim é.

Paula Quintão

24 de junho de 2017

Dia dessas uma leitora me escreveu no email, era um comentário ao meu texto sobre os solavancos que a vida traz. Contava dos seus relacionamentos amorosos que chamou de verdadeiras “canoas furadas”. Gostei da expressão que ela escolheu… “canoas furadas”! Esses relacionamentos que parecem promissores à princípio e depois afundam bonito, e dependendo afundamos juntos, damos aquela afogada mesmo em águas rasas.

Trocamos lá nossos olhares e nossas histórias curadas. E na hora em que eu respondia ao email, enquanto ainda rascunhava sobre os meus aprendizados, eu me lembrei da vez que eu mesma estive, literalmente, numa canoa furada.

E só de começar a rememorar o episódio, cai em risadas sozinha. Eu pude rir alto, essas graças que não cabem em silêncio dentro de nós. Era feliz a lembrança, era divertida a história, e agora, depois de 7 anos daquela vivência, quantas nuances a mais eu enxergo.

Eu estava em São Gabriel da Cachoeira, uma viagem que era à trabalho e que era também de exploração constante pra mim.

São Gabriel é um encanto de lugar, fica ao extremo noroeste do Brasil, lá no topo do Amazonas. São Gabriel tem uma paisagem sem igual, nunca estive em terras de beleza e de energia tão linda quanto as que encontrei lá. Eu me sintonizei profundamente, entrei numa frequência muito especial. E aqueles dias de viagem foram um presente pra mim, tudo me encantava. Muitas histórias e muitos aprendizados em uma cidade em que quase toda a sua população é de indígenas.

Aconteceu que no último dia estava marcado um passeio antes de pegarmos nosso voo de volta para Manaus.

O grupo de professores que estava comigo contratou a tal da lancha para navegarmos pelo Rio Negro – uma lancha que definitivamente destoava da paisagem local, que é toda simples, toda artesanal, toda de madeira talhada pelas próprias mãos. E lá estava a lancha… imensa e imponente. Pois bem, vamos de lancha.

Fizemos uns bons passeios. Visitamos algumas comunidades indígenas. Escrevi e escrevi, me encantei e encantei.

Eis que retornando para a cidade, descendo o rio de volta, o combustível da lancha acaba.