Autor

Paula Quintão

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Nem consigo listar quantos foram os programas em toda a minha vida que aceitei porque “é bom que distrai”. Já perdi a conta de quantos eventos, encontros, viagens, shows e almoços participei porque “é bom que distrai”.

Dia desses, num desses momentos “bom que distrai”, bebi, comi, contei uns casos, ouvi outros. De repente, olho em volta e me pergunto: “o que estou fazendo aqui?”. Não é uma pergunta incomum na vida de todos nós, mas esse dia ela caiu em cheio. Resposta: eu estava me distraindo! Céus! Distraindo do quê? Da vida que corria logo ali adiante? Das mil coisas que tenho uma vontade imensa de fazer, mas não faço porque não há tempo para fazer todas elas?

Colocar-me em distração é exatamente encontrar modos de me distanciar da vida que tanto amo e de todas as finas nuances da minha bem elaborada lista de interesses, repleta de atividades que adoro fazer e que ao contrário de me distrair, me mantêm bastante atraída. Não quero ficar distraída! Não quero dormir enquanto minha vida corre solta. Não quero olhar para trás e perceber que tudo o que eu sempre quis fazer não foi feito porque eu estava distraída caminhando por aí. Quero é ser atraída por tudo o que há ao redor, pelos problemas, pela beleza do ambiente, pelas histórias de vida, pelos ensinamentos, pela música, pela arte, pelo ato de compartilhar, pelo que está por ser descoberto. Sim, quero que seja bom porque me atrai e não porque me distrai.

Estar em distração é tirar o foco do que atrai, seja um problema ou você mesmo e sua vida.  Não quero perder o foco ou me entreter para deixar de ver o principal, quero voltar meu foco para o que há ao meu redor e em mim.

 

Seres livres que somos, crescemos para virar poderosas aves, como um falcão que corta o céu com velocidade ou um gavião de inteligência admirável. Somos flechas e saímos pelo mundo rumo ao nosso ser e nosso viver, era o que meu pai anunciava quando ainda não tínhamos saído do ninho.

Quando bem preparados pelas nossas famílias, ganhamos bons instrumentos para voar. E depois que voamos, tudo muda, afinal. As asas nos dão liberdade e nosso ser se enche de entusiasmo e percorre caminhos que tornam nosso vôo um vôo que é a nossa cara, um vôo cheio de piruetas e estripulias.

Somos então transformados pelos novos mundos e a família ganha então um novo papel.

Vamos ao ninho para contar o que experimentamos com os nossos vôos e não vamos mais para aparar nossas asas ou treinar o que aprendemos quando ainda éramos uma criança, vamos para compartilhar em narrativas bem adjetivadas os percursos por onde passamos e o que vimos de bonito enquanto rodávamos pelos quatro cantos do planeta. Compartilhar…

Pelo mundo afora há uma infinidade de coisas que modificam nosso vôo.  Há outras pessoas, há livros, há filósofos, há ciência, há muitas histórias de vida, há viagens, há intensos períodos de introspecção e reflexão, há dificuldades superadas, há filmes, músicas e danças, há poesia, há amor profundo, há crises, há teses, antíteses e sínteses, há relacionamentos, há coração partido, há uma mente pensante que não para, há as próprias dores, há as alegrias infinitas e as vitórias comemoradas, há tudo novo e diferente.

O vôo, tão bem ensinado quando ainda estávamos na pré-escola, foi aprimorado em outras escolas, ganhou mestrado, doutorado e outros títulos dados pela vida.

Lá está a família, feliz por ter nos dado asas, orgulhosa por tudo o que é possível graças a elas, mas ao mesmo tempo, sem perceber, de ombros caídos, desolada por não mais ser possível ensinar a voar.

Sofre por suas técnicas de vôo não serem mais adotadas. Sofre por não haver mais um aprendiz ávido por uma nova lição. Sofre porque o vôo do filho é mais agitado do que o ensinado, mais cheio de rodopios e intempéries, ou mesmo mais mirabolante e bem elaborado. Sofre porque há diferença.

Crescemos juntos, mas num momento tudo mudou. O mundo nos fez voar diferente um do outro porque para cada um de nós tudo foi diferente. Os caminhos não são os mesmos. E assim não há um só modelo de vôo que se ajuste a todos da mesma forma, não há verdade que sirva para todos ao mesmo tempo, não há lógica que caiba nas vidas com a mesma perfeição, não há boa conduta que seja boa para todos na mesma medida.

Que surpresa, portanto! A diferença, uma riqueza que faz de nós os humanos que somos (tão diferentes!) é brindada e celebrada mil vezes, nunca abatida a tiros em plena praça pública. Que preciosidade nos reunirmos para celebrar as diferenças e semelhanças entre um e outro numa troca amorosa que respeita os saberes, as experiências e os diversos modos de voar.

 

Destino: Monte Roraima. Nós, 11 estreantes acompanhados por três guias e uma equipe de indígenas. Programação: 3 dias de longas caminhadas até o topo, 3 dias no topo,  2 dias de volta.

Desconhecidos, nos olhávamos com atenção, ouvíamos nossas histórias tão diferentes e sentíamos as limitações e a força do nosso físico a cada passo, a cada curva, a cada obstáculo. Reunidos, contávamos o que sentíamos, apreciávamos a vista, desabafávamos sobre o cansaço, confessávamos nossa satisfação. Pelo caminho, sorríamos uns para os outros, perguntávamos sobre nossas dores e incômodos, oferecíamos nossa água e ombro, estendiámos a mão quando a subida era dura demais. Unidos, fomos indivíduos integrais, podendo nos mostrar por inteiro; unidos, fomos nós e nos amamos imensamente.

 

A vida simples nos enchia de satisfação. Dormindo em barracas forradas com nossos isolantes térmicos, as dores no corpo eram compartilhadas na manhã seguinte em torno da mesa do café da manhã – mesa que em momentos eram nossos próprios joelhos ou uma pedra bem colocada pela natureza. Comíamos o que nos era carinhosamente oferecido, preparado a muitas mãos pelos indígenas, e apreciávamos o café ralo, o macarrão frio, o arroz agrupado e o bom tempero que deixava tudo perfeito. Como poderia ser melhor?

Fomos questionados por nós mesmo sobre os valores que carregamos. Fomos de um jeito e voltamos de outro. Fomos numa turma de onze e voltamos como “nós. Nós, agora outros, voltamos renovados. Fomos dor e prazer, fomos dúvida e paz, fomos cansaço e contemplação. Fomos para sempre mudados.

Ver o belo, lá de cima, do alto do Monte, em seu cume, onde um mundo de perfeição que mistura o verde, as curvas, o caminho, as nuvens, o brilho do olhar, o abraço da vida, não é só ver o belo. É ver todo o caminho de dificuldade que fizemos até chegar ali, é ver nossa história, é ver integralmente o que somos e o que esperamos da nossa maravilhosa e preciosa vida.

A mudança desce da montanha conosco. Deixamos um pedaço de nós, arrancado à força pelo caminho de muitos quilômetros, e trouxemos outro pedaço, depositado em nosso ser mais íntimo com toda delicadeza pelos ares de infinita beleza, encanto e pureza da montanha.

 

 

Encho a página de dizeres, articulo meu modo de falar, coloco todo o meu pensamento a funcionar quando estou diante daqueles para quem tanto quero me fazer entender. Sinto, penso, compilo, expresso e bem ali, em frente a mim, está quem me ouve, quem me lê, quem me percebe tal qual deseja. Sim, a percepção inegavelmente pertence ao outro.  O que expresso é sempre parte do todo que permeia meu ser. Em mim está plenamente meu sentir – e cada célula, como nos ensina o brilhante físico Fritjof Capra, em “A teia da vida”, faz culminar em nós esse sentir -, está a vivência completa do que penso e todas as reações emocionais que o viver provoca.

Ao expressar, por mais detalhado que o discurso ou as emoções demonstradas possam ser, não levamos ao outro toda a gama de impressões e sensações que há em nós. Levamos parte de nós ao outro. Impossível que seja diferente. E mesmo assim, insistentes que somos, passamos a vida numa luta desenfreada para sermos compreendidos e percebidos integralmente.

Assim o fazemos pelo prazer que é lançar nossas palavras por esse mundo afora, como se abríssemos gaiolas e de lá, pássaros de todos os tipos, tamanhos e cores saíssem a voar pelo céu. Queremos nossas palavras, com o devido crédito a nós – assinatura preciosa que nos leva como marca -, em livros publicados, em posts de um blog, em uma tese de doutorado, em um jornal que circula em nossa cidade, no email do ser amado, no relatório na mão do chefe, na entrevista concedida à rádio, no certificado de participação, na página do perfil do facebook. Ficamos cheios de nós mesmos quando as grades da gaiola já não se fazem presentes. Junto com nossas palavras e expressões percorremos céu e mar, montanha e savana, acreditando que somos e estamos no outro integralmente. Ilusão que nos enche de nós mesmos.