Autor

Paula Quintão

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Como uma das forças mais fortes que move a nossa vida está o MEDO. O medo movimenta a nossa sociedade. Mais até mesmo do que gostaríamos de admitir, o medo permeia as nossas crenças, as nossas ações, as nossas escolhas, o nosso consumo e determina o quão livres somos. E quando nos olhamos a fundo percebemos que nosso caminho vai sendo trilhado não pelo que há de mais essencial em nós, mas principalmente pelos medos que nos cercam, que estão dentro de nós.

Quais são os seus medos? Há medo ao escolhermos uma roupa e os outros acharem esquisita. Há medo ao estacionarmos o carro na rua e para isso pagamos o flanelinha (com medo dele mesmo arranhar nosso carro) e contratamos seguros caríssimos. Há medo ao não contar para a esposa que divide conosco nosso lar e nossa cama que estamos amando outra pessoa.

Há medo ao optar por um produto ecologicamente correto e destruir o mundo, mesmo quando fazemos mil outras coisas que destróem. Há medo ao contratarmos um plano de saúde, medo de ficarmos sem atendimento quando a saúde já não for saúde. Há medo ao seguirmos horários.

 

O medo nos faz agir de um modo e não de outro.  Medo do que os vizinhos vão pensar quando você chegar em casa de madrugada sozinha. Medo de ficar doente. Medo de não fazer certo. Medo de não corresponder. Medo de não conseguir. Medo de se arrepender. Medo de perder. Medo de depois ficar pior que agora. Medo de dar pane. Medo de criticarem você. Medo de assalto. Medo de suas ideias não serem aceitas. Medo de pedir algo e receber um não como resposta. Medo de desagradar. Medo de parecer feio ou estúpido. Medo de não gostarem de você. Medo de falarem mal de você.  Medo de passar vergonha. Medo de sentir-se mal. Medo de escuro. Medo de algo errado acontecer no caminho. Medo do filho seguir por lá e não por aqui. Medo de sentir medo. Medo de não dar conta. Medo de morrer. Medo de ficar doente. Medo de perder o emprego, de não passar no vestibular, de ficar sem dinheiro, de não ter oportunidade, de não corresponder ao que o mercado espera. Medo do futuro. Medo de ficar perdido. Medo do incerto.

O medo nos limita de mil forma e sucumbimos às barreiras. Viramos pássaros presos em gaiolas. E como diz o Rubem Alves, “os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o voo por gaiolas”. Bem isso mesmo… O medo é um reflexo da nossa impossibilidade de ver o que vem depois e da insegurança que isso gera. O medo é um reflexo da nossa tentativa de domar o mundo em nossos padrões e controles quando na verdade não temos como controlar nada.

 

Essa é a estória de uma máquina fotográfica que se apaixonou por uma paisagem. Não foi porque caducou de velhice ou porque uma loucura súbita acometeu sua alma. Não sofria do mal da velhice e suas engrenagens digitais estavam bem em dia. Também não se pode dizer que a máquina caiu em paixão porque a paisagem era tão diferente assim de todas as outras paisagens que conhecia. Não era. Era uma paisagem muito linda, mas vagando pelo mundo com suas lentes a máquina esteve diante de lugares de igual beleza. Estava apaixonada, era o fato.

E a verdade é que para uma máquina fotográfica é um tremendo desafortuno apaixonar-se logo por uma paisagem. Melhor seria entrar em estado de graça por sua dona, ela que é sempre linda e cheirosa, está sempre por perto e a carregando pelos lugares. Ou quem sabe apaixonar-se por uma outra máquina fotográfica bem novinha que está à venda na loja de eletrônicos que fica bem na esquina. Mas por uma paisagem…!? Apaixonar-se por uma paisagem pode ser, definitivamente, uma das maiores tragédias na vida de uma máquina, porque máquina foi feita pra ver o mundo todo com olhos encantados e não entrar em encantamento por um só lugar. Máquina foi feita pra ver os detalhes que há em tudo e trazê-los cheios de beleza para a vida através do clique, eternizando que há ao redor para o sempre. E máquina apaixonada por paisagem só quer saber de eternizar seu ser amado e tudo mais se ofusca, tudo mais se cala.

Pois lá estava ela sem saber o que fazer, sem conseguir ajustar bem os brilhos e os focos e os desfocos quando não diante de sua musa inspiradora. Os tons de sépia e o P&B até caiam bem vez ou outra em sua jornada de mortal, mas quem disse que os ajustes de cor funcionavam direito? E quem disse que o brilho e os tons vivos das fotos eram os mesmos de antes? Sem saber quando estaria de novo frente a frente com sua paisagem, a máquina perdeu contraste, brilho, tom, fash. Entristeceu-se e viraria item de descarte se não fosse o fato de sua dona estar tão assoberbada de trabalho que se quer conseguia planejar a compra de uma nova máquina.

Jogada entre os livros da estante, a máquina olhava o quarto e o mundo desolada, sem esperança, incomodada, cheia de saudade. E então numa tarde de sexta foi inevitável perceber que a movimentação no quarto não era a mesma.

“O que ela faz aqui a essa hora da tarde?”. Olhou a dona ir e vir recolhendo as coisas, remexendo as gavetas, pegando uma sacola ou outra, reunindo as calcinhas limpas em cima da cama e, como num estalo de luzes, viu que ela ia em direção às botas de trilha. E num outro estalo de luzes, viu que ela começou a colocar tudo dentro de sua mochila de montanhista. E o coração da máquina acelerou tanto que era quase possível ouvi-lo a distância. Aquelas botas e aquela mochila percorreram o caminho que a fez apaixonar-se, o caminho para a paisagem que enchia suas lentes de amor e ternura.

Sua dona foi aproximando-se da estante a sua procura e revirando os papéis que hoje formavam pilhas sobre a máquina. Remexia e revirava as bagunças e finalmente estavam frente a frente, e agora podia de novo sentir as mãos macias de sua dona.

– Aí está você! Preparada? Hoje vamos para a Montanha!
Desfaleceu.

 

Se há paz em nós, o mundo corre mais macio.

E se dentro de nós há quietude, o mundo torna-se um só silêncio confortador.

Quando paira dentro de nós um vento de felicidade, o mundo é mais leve e livre.

E se a turbulência está grande no reino dos sentimentos, tudo é mais cinza e irritante pelas ruas afora.

Há dentro de nós uma fábrica de emoções que faz do agora algo bom ou ruim, algo lindo ou feio, algo que nos alegra ou entristece. Há uma fábrica que faz os olhos verem o mundo cada dia de um jeito, ver o mundo como escolhemos ver.

Sorte de quem sabe que é dono da fábrica e não funcionário dela, só assim será possível saber também que não somos o espelho do que há e sim tudo o que há é espelho do que existe dentro de nós.

Atentar para o passar do tempo é uma das ações mais constantes do nosso dia a dia. Olhamos para o relógio e estamos atrasados. Olhamos para o relógio e ainda temos 10 minutos para nos arrumar. Olhamos e ainda está cedo para sair.

O tempo regula nossa rotina, diz quando é hora de partir, hora de chegar. Mestre da nossa vida, o tempo dita a ordem, dita o ritmo. Tem o poder de nos apressar, o poder de nos deixar ansiosos ou de nos fazer suspirar de alívio quando a notícia anunciada pelos números do relógio é a de que podemos ainda dormir mais duas horas inteiras.

Esse tempo, o tempo do relógio, imperou nossa cultura, impregnou nossa vivência, e talvez seja um dos exercícios mais difíceis e mais prazerosos de serem feitos.

Deixo então o relógio guardado quando é final de semana. Esqueço que há hora, que há dia da semana, que há tempo certo ou errado, cedo ou tarde. E então, como um pássaro que saiu da gaiola, eu sinto o vento, sinto a respiração, sinto a sola do pé tocando o chão. Tudo ganha mais movimento, mais cor, brilho, cheiro, tato, porque quando esqueço o passar do tempo, enxergo a vida. Quero ser pássaro sem gaiola todos os dias, para todo o sempre.

 

 

Vez ou outra nos colocamos a pensar no quão corajosos somos.  Talvez a coragem esteja numa fila para a montanha russa, quando nos desafiamos a superar o medo da altura e da velocidade. Talvez a coragem esteja no check-in do aeroporto, quando trabalhamos nosso medo de voar. Talvez esteja no “apertar” da campainha, quando estamos a poucos minutos de nos declararmos para a pessoa amada. Talvez esteja num longo e difícil tratamento de câncer.

A coragem se reveste de mil faces, todas elas dignas de ocuparem as narrações emocionadas de quem a viveu e de quem a presenciou.  A coragem está nos atos de bravura, nas superações incontestáveis, nos grandes feitos, está nos desafios vencidos, nas dificuldades superadas.  A coragem, qualidade dos fortes, não é característica permamente, eterna. Coragem é característica que se renova de ato em ato, de fato em fato, a cada novo desafio, nos obrigando a assumi-la ou não sempre que uma situação nos exige um pouco mais de esforço.

Coragem vem do latim e tem a ver com ações do coração. Coragem quer dizer um agir pelo coração (não é lindo isso?), quer dizer encarar os medos, enfrentar as dificuldades, investir na auto-confiança, trabalhar as incertezas, afastar o perigo.