Autor

Paula Quintão

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Encho a página de dizeres, articulo meu modo de falar, coloco todo o meu pensamento a funcionar quando estou diante daqueles para quem tanto quero me fazer entender. Sinto, penso, compilo, expresso e bem ali, em frente a mim, está quem me ouve, quem me lê, quem me percebe tal qual deseja. Sim, a percepção inegavelmente pertence ao outro.  O que expresso é sempre parte do todo que permeia meu ser. Em mim está plenamente meu sentir – e cada célula, como nos ensina o brilhante físico Fritjof Capra, em “A teia da vida”, faz culminar em nós esse sentir -, está a vivência completa do que penso e todas as reações emocionais que o viver provoca.

Ao expressar, por mais detalhado que o discurso ou as emoções demonstradas possam ser, não levamos ao outro toda a gama de impressões e sensações que há em nós. Levamos parte de nós ao outro. Impossível que seja diferente. E mesmo assim, insistentes que somos, passamos a vida numa luta desenfreada para sermos compreendidos e percebidos integralmente.

Assim o fazemos pelo prazer que é lançar nossas palavras por esse mundo afora, como se abríssemos gaiolas e de lá, pássaros de todos os tipos, tamanhos e cores saíssem a voar pelo céu. Queremos nossas palavras, com o devido crédito a nós – assinatura preciosa que nos leva como marca -, em livros publicados, em posts de um blog, em uma tese de doutorado, em um jornal que circula em nossa cidade, no email do ser amado, no relatório na mão do chefe, na entrevista concedida à rádio, no certificado de participação, na página do perfil do facebook. Ficamos cheios de nós mesmos quando as grades da gaiola já não se fazem presentes. Junto com nossas palavras e expressões percorremos céu e mar, montanha e savana, acreditando que somos e estamos no outro integralmente. Ilusão que nos enche de nós mesmos.