Cortei meu cabelo. Aquele cabelão de anos… cortei.

Ele me olhou, assim que nos encontramos, e tudo o que pode dizer, num profundo sentimento de perda, foi…. “ah… seu cabelo… Quanto tempo vai levar para crescer? Eu não acho mulheres de cabelos curtos femininas”.

Foi como uma faca que corta a alma. Uma faca que cortou minha alma por meses, me fazendo sentir feia, me fazendo sentir mal, me fazendo sentir pouco feminina. Não corta a alma só porque o discurso dele é machista (e é, mesmo sem ele se dar conta), mas porque o machismo já impregnou minhas veias por anos e anos, e aquela frase é como um estopim.

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Ouvir, do meu companheiro daquela época, que sou menos feminina  por causa do meu cabelo curto só corta a alma porque há, dentro de mim naquele instante, uma sensibilidade àquilo que foi dito… uma sensibilidade que não veio daquele instante somente, mas da história que me levou até ali. A mesma história que leva todas nós, mulheres, a uma grande sensibilidade quando vemos uma revista de circulação nacional descrever a mulher ideal como “Bela, Recatada e Do Lar”.

Assim nos ensina uma máxima da sabedoria oriental. “Incomodou, Doeu, Toma que é Seu”. Estamos sensíveis porque a garrafa está para entornar. Estamos sensíveis porque a história que nos trouxe até aqui é de muito discurso machista e portanto aprisionador.

O machismo não vem dos homens. O machismo vem da sociedade. Estamos impregnados até o bico da garrafa com o discurso machista porque ele está presente em todos os lugares. O machismo vem de todos nós enquanto não estivermos em pleno estado de consciência sobre nossas crenças.

A princesa presa no castelo está tão forte no imaginário dos homens quanto o príncipe encantado que chega para nos salvar. A princesa que transforma o sapo em príncipe também. Está fácil constatar que ainda somos capturados por esses padrões quando Cinquenta Tons de Cinza é sucesso disparado nas bilheterias e na venda de livros. (escrevi sobre esses relacionamentos abusivos em outro texto)

É a crença de que nossos papéis são esses… o de ser providas, o de não pagar a conta, o de ficar em casa cuidando dos filhos, o de estar disponível, o de não ter vida própria (afinal fomos salvas), o de transformar em um homem melhor aquele homem que encontramos, o de manter seu cabelo tão grande quanto do da Rapunzel. Se quisermos ser assim, que seja, mas não porque estamos tentando alcançar um ideal… um “seja uma boa moça”. 

Minha amiga Lúcia tinha, há sei lá quantos anos, um Troller. Andava de Troller de um lado para o outro com seus dois filhos a tira-colo. De tudo ela ouvia, e todos os discursos passavam pela loucura que era uma mãe ser assim tão louca e sem responsabilidade. “Uma mãe que anda de Troller, onde já se viu?”, digna de internação ainda na década de 1990. Ela, que se colocava sempre numa posição contrária aos padrões, sofreu e sofreu com muitos e muitos discursos. Porque todos os seus movimentos não se encaixavam no padrão do que era o ideal… Deve também ter ouvido, assim como eu, “quando seu cabelo vai crescer?”.

O mesmo machismo que faz um homem ficar te olhando quando você passa na rua e ser capaz de soltar uma cantada. O mesmo machismo que faz o estupro ser menos condenável porque “ela provocou”. O mesmo machismo que faz todos acharem que você está em perigo quando viaja sozinha. O mesmo machismo que cria padrões, qualquer um, do que é uma mulher ideal.O mesmo machismo que nos faz buscar tanto um padrão de beleza e nos sentir tão mal quando estamos fora dele. O mesmo machismo que impede que as mulheres amamentem seus filhos em público sem que recebam olhares julgadores. 

O problema de criar padrões é que nossas vidas ficam limitadas. Aí está o grande problema do machismo (ou do feminismo)… limitar o potencial da nossa vida de ser livre. Ser livre quer dizer chegar num ponto em que as escolhas não querem dizer nada, são simples escolhas. Nem bela, nem feia. Nem sorte, nem azar. São o que são, e pronto. 

Só somos capazes de perceber o discurso machista porque ele está chegando em seu ponto de saturação, por isso nos incomoda. E que bom que nos incomoda, finalmente.

É muito bom quando acontece de algo nos incomodar. Como incomodou a Revista Veja, como incomodou o discurso “faca na alma” sobre meu cabelo curto. Quando incomoda, podemos olhar em profundidade para onde vem aquela ferida e tratar.

Tomar consciência de todas as crenças e discursos que nos limitam por causa do machismo é o caminho da cura.

Paula Quintão

20 de abril de 2016

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Author

Paula Quintão é escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU. "De passo em passo eu desvendo um mundo dentro e fora de mim".

  • http://naturallus.com/ Fernanda Krassuski

    Muito amor por esse incômodo coletivo. Seus textos como sempre, conectados com o todo. Gratidão querida!!

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Fernanda, é que nossas histórias se conectam em muitos pontos e muitas medidas. Quando você escreveu seu texto sobre o abuso sexual, naquela semana um texto bem longo foi rascunhado na minha mente e eu estava ali, na sua experiência, vivendo uma profunda reflexão sobre a minha. Ainda não consegui colocar no papel, mas graças a você, minha história ganhou rascunho.

  • Heitor Filho

    Minha escritora preferida. Concordo com seu sentimento e sua necessidade de não se sentir presa, ou salva. Só não deixe de incentivar o “cavalheirismo”… mecanismo em extinção nos dias atuais. A linha que faz as divisões entre o cavalheirismo, a educação e o protecionismo é muito fina e oscilante… e o sentimento feminino de emancipação, quando exacerbado, pode contribuir para que o homem, no intuito de agradar, acabe se adaptando à ideia de que não deve mais ser gentil. E convenhamos… a quantidade de mulheres que tem se apaixonado por canalhas tem aumentado bastante 🙁 . Digo sim pela proliferação de homens gentis, educados e cavalheiros… (até porquê não quero ser extinto :D)
    Muitos beijos!

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Sou encantada com cavalheiros libertários =)) aqueles que fazem a gentileza pelo simples fato de serem gentis e não saberem ser de outra forma. Mas que em nenhum momento vão nos dizer “eu fiz tanto por você e agora você vai embora?”. A gentileza só não pode ser moeda de troca, não é? Muito amor por você, Heitor tão querido!!

  • Raisa Arruda

    Paula, amei o texto, mas acredito que o Feminismo é a luta pela não-limitação de todas as ditas minorias e contra todo tipo de opressão, inclusive dos próprios homens pelo machismo, é uma luta pela eqüidade. Não é um esquema feminismo é o machismo invertido… Aí quando a gente coloca “(ou o feminismo…)”, abre espaço para conotações distante do que o feminismo de fato se propõe, e que muita gente prefere não estudar a respeito e se apegar nesse detalhe, pra dizer que não é feminista, é “humanista”, por exemplo. Mas eu entendo também que radicalismo tem em todo lugar, e vai ter mulher feminista defendendo que a mulher não pode querer ser bela, recatada e do lar, mesmo que ela queira, porque vai dizer que é opressão. Ou como tem feminista que afirma de pé junto que não existe desejo materno, mas isso existe, e deve ser debatido pra se acabar com a maternidade compulsória e ser mãe apenas que tem esse desejo… É o que acha conhece por feminismo liberal, que preza pela individualidade acima de todas as coisas, quando o feminismo é a luta do coletivo. Enfim. Sigamos na luta pelo discurso não-limitante de nossas capacidades e escolhas, que nada nos defina, e nem nos prive de ser o que desejamos, e que o desejo não seja uma sentença eterna. 😉 Beijo grande.