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Mudança de Vida

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Era uma manhã de domingo. Acordei com o amanhecer e sentia, para aquele dia, de preparar meus equipamentos, caminhar pela feira, comprar algumas frutas e seguir para debaixo de uma das árvores da Escola Agrotécnica de Barbacena para contar um pouco sobre minha história com os escritos.

Ao invés das frutas, encontrei alguns sucos bem deliciosos e segui caminhando pela sombra, sentindo as palavras e os recortes do meu passado chegarem ao meu coração.

Quando eu me sentei sob a árvore, ambiente dos que me sinto mais em casa, todos os pontos de luz de minha vida com os escritos foram se iluminando em meu imaginário e contar minha história foi um presente pra mim.

Hoje entrego o quarto e último episódio da série Minha Vida de Escritora e celebro cada palavra partilhada, cada instante narrado, cada lembrança revisitada. E sei que ao ouvir minha história, mais do que me enxergar em profundidade – que sim, é possível graças a esses encontros de alma – você é capaz de enxergar a sua própria e se perguntar como foram para você seus anos de colégio, sua relação com a escrita, sua inspiração, sua forma de abastecer sua bagagem de conhecimentos…

Os pontos de luz da minha história são capazes de iluminar pontos de luz da sua própria e para esse vídeo de encerramento da série meu convite é para essa reflexão e esse olhar.

Clique aqui e assista a série completa Minha Vida de Escrita.

05 de março de 2017

Paula Quintão


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Da janela da minha cozinha eu posso avistar e conviver com o pomar do meu vizinho. Não é uma área muito grande, mas é grande o suficiente para ter pés de goiaba, laranja, limão, tem figo, tem chuchu, tem taioba. Há um ano estou a morar nesse endereço e há um ano estou a conviver com os ciclos da natureza que invadem esse pequeno espaço de paraíso.

Agora tem goiaba caindo no chão, tem taioba aos montes, tem laranjas pequenas esperando para amadurecer.

É um espaço da abundância, da vida em sua germinação, dos frutos em sua magia.

Vez ou outra eu me debruço na janela da cozinha só para observar o que se passa por ali. É um espaço tão vivo.

Os passarinhos são os que mais aproveitam tudo por ali. Salpicam de um galho a outro.

Acontece que nesse um ano inteiro, só vi os vizinhos passarem pelo pomar uma única vez. Era até uma moça em seu avental, foi até lá e colheu algumas laranjas. Nenhuma outra vez além dessa.

As frutas por conta própria amadurecem, caem no chão e por assim é.

Há alguns meses, numa conversa dessas que nos esquecemos do tempo com minha amiga Elisa, ela me trouxe uma percepção que foi valiosíssima. Na época estava ela lendo um livro que falava sobre a procrastinação e o autor dizia que deveríamos é agradecer à procrastinação porque ela muitas vezes poderia estar nos salvando de algo.

Entendo o tempo como uma riqueza. E por anos e anos entendi a procrastinação, esse deixar para depois o que se pode fazer hoje, como um grande mal. Também a preguiça, essa sensação de total falta de energia diante do que se há para fazer, como uma peça terrível da engrenagem. E de uns anos para cá essa minha percepção foi se transformando, até que com a deixa da Elisa, meu olhar se expandiu.

Fomos tão treinados pela cultura do fazer e da construção, que o procrastinar pode ter se transformado no mal do século. Lado a lado com a preguiça, que passou a ser entendida como tão vergonhosa que até deixamos de falar sobre ela.

Hoje há por aí um tanto de cursos para deixarmos a procrastinação de lado e nos livrarmos dela de uma vez por todas. Acontece que essa procrastinação, ou essa preguiça, ou essa falta de vontade de fazer aquilo que você sabe ser essencial para você, está tentando te contar uma história.

Os sentimentos, todos eles, estão a nos contar alguma história. Ou pelo menos tentando.

Lá chegamos eu e Clara em Barcelona. Pousamos depois de uma viagem de mais ou menos 15horas. Um tanto cansadas, mas felizes. Eu, Clara, as mochilas e meu papel impresso com o endereço do hotel reservado. No caso, fiz questão de imprimir para a coisa toda ficar bem organizada quando eu chegasse na Espanha e quando tivesse que usar meu “espanholito” no táxi.

O taxista logo olhou o endereço e me disse algo que entendi como “essa sua reserva não é em Barcelona”. Disse de uma forma pausada e calma para não me causar pânico.

“Hum. Não é em Barcelona?!” Levei um tempo para processar. “Tenho aqui outro papel, devo ter te entregado a reserva errada”.

E ele explicou que o papel era aquele mesmo. “Sua reserva é em Sabadell, uma cidade vizinha que tem cerca de 300 mil habitantes e fica a mais ou menos 30 minutos daqui”.

Em 2011 percorri em 11horas de viagem o trecho que me levava de Manaus a Boa Vista. Éramos eu e a Clara, ela, como uma boa adolescente, no limite da falta de paciência com a mãe. Na época a estrada estava tão ruim que não havia mão nem contramão, os buracos tomavam conta da pista e os caminhoneiros faziam greve.

Foi uma viagem épica.

Borracha, o assistente do guia do Monte Roraima, a mais engraçada e querida de todas as criaturas, me recebeu quando finalmente cheguei e rimos muito quando eu contava sobre a estrada em caos em que eu podia parar no meio da pista para tirar quantas fotos eu quisesse.

“Você é muito corajosa, Paula”.

Eu não me achava corajosa. Coragem parecia um desses adjetivos que damos aos heróis depois de conquistarem seus grandes feitos.