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Paula Quintão

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Na época da infância e adolescência convivi com meus pais prestando, dentro de nossas casas, um serviço que era um tanto fascinante: eles produziam material didático para uma escola. Minha mãe por muitos anos fez serviço de digitação e chegavam manuscritos e mais manuscritos para que ela, em sua antiga máquina de escrever Olivetti, transformasse, quase que por um milagre, aquelas letras tão feias em uma bela orquestra estética. Esse serviço evoluiu para o computador num momento e as impressoras matriciais tomaram conta de um dos quartos da casa… e o som que emitiam tomou conta de tudo. Ainda consigo simular em meu imaginário o vai e vem da impressora e o barulho que o papel contínuo fazia ao ser puxado da caixa.

E uma vez mais o serviço deu um salto quântico quando chegaram as máquinas copiadoras da xerox e da ricoh. Nessa época a coisa estava muito mais intensa e eu e minha irmã quase sempre ajudávamos em alguma das etapas do negócio.

Uma das tarefas que eram necessárias naquela época, porque ainda não tínhamos a maravilhosa e igualmente mágica colecionadora de papéis, era fazer nós mesmos, manualmente, o serviço de colecionar página a página as apostilas que depois seriam entregues aos alunos.

Talvez você consiga visualizar aí. Imagine uma apostila com 20 páginas, e umas 500 cópias de cada uma dessas páginas… Só que cada página é um monte de 500 folhas e precisamos montar uma apostila que tenha a página 1, a 2, a 3, a 4… e por aí vai… até a 20.

Muito simples, meu caro leitor… colocávamos na mesa os montes que cabiam e começávamos um serviço que era… pegar a página 1, depois juntar a página 2, depois a página 3, depois a página 4, depois a 5… e por aí vai até completar da página 1 até a página 20.

Éramos colecionadores. Olhando isso agora senti poesia. E isso, como você também pode imaginar, levava horas e horas e horas e horas de trabalho.

E nessas “horas e horas e horas” conversámos bastante. Era uma boa atividade juntos, ficou registrada assim na minha memória.

Acontece que havia um ponto crucial nessa história, que era o momento de grampear ou de encadernar a tal apostila formada. E eu me preocupava um tanto para não aprontar alguma bobagem naquele momento tão importante, afinal de contas se o chato do grampeador desse aquela clássica engasgada, as folhas iam ficar com aquele furo feio e eu de fato sentia pena do aluno que receberia a sua apostila assim.

Meu pai tinha uma frase clássica para todas as vezes que eu suspirava de irritação com o grampeador falseante… “Não é olho de santo, Paula”.

Os olhos revelam muito sobre nós, sobre o que somos e sentimos. Talvez por medo de nos revelar criamos essa cultura que pouco se olha nos olhos, que não se atreve a parar por minutos em silêncio pousando os olhos sobre os olhos de um outro alguém a não ser que se tenha muita intimidade. Os olhos são janelas da alma. 

Domingo passado fui constelar. Eu sabia que seria um dia inteiro de constelação. Fomos eu e minha amiga Thais. Ela que estava me visitando em Minas me acompanhou e eu seu sabia que amaria ver tudo aquilo acontecer diante dos seus olhos. É uma estudiosa do ser humano, socióloga por nascença.

(E nesse texto não vou explicar o que é a constelação, tenho três entrevistas que fiz com e se quiser saber mais, basta me escrever).

Importante pra mim é que saiba que a constelação revela as dinâmicas e as leis do amor, o amor puro e o amor cego, o amor que diz SIM à vida e o amor que diz NÃO à vida tentando compensar um não ao amor. O amor é a maior força da existência. Na constelação familiar tudo é tecido lindamente, uma sensibilidade sem igual. E de simples, natural como uma dança bem conhecida por nossa alma, a constelação se torna um rito de passagem dos mais poderosos.

O Andrei Moreira, que é o meu constelador, em sua precisão cirúrgica usa cada mínimo detalhe como forma de cura, cada mínima palavra de forma terapêutica e claro, usa cada olhar como um instrumento mágico de conexão e abertura do coração.

A constelação usa o sentir para revelar o amor e todos os outros sentimentos que estão vivos naquele contexto. E os olhos são um grande instrumento. Os movimentos do corpo contam uma história e são os olhos que revelam o que a alma tem para dizer. E eles falam. Falam sem usar palavras. Falam ainda mais quando estão em silêncio. Falam mais que mil frases poderiam dizer. Falam em um lugar da nossa alma que reconhece profundamente essa mensagem.

Somos leitores de olhares. É uma verdade. E nos emocionamos muito com o que encontramos ali.

Um dos pontos marcos do Caminho de Santiago é a Cruz de Ferro. Nela os peregrinos deixam os pesos que não precisam mais carregar,  aliviam a mochila, liberam a carga. Eu amei estar nesse lugar, a atmosfera era das melhores. Emocionante. Amo o símbolo da Cruz de Ferro, o símbolo de aliviar a carga, de deixar o que já não precisamos mais pelo caminho.

Fiquei profundamente sensibilizada enquanto me aproximava, passo a passo, daquele momento em que eu entregaria algumas pedras que eram símbolos do que eu sabia que precisava deixar ir em minha vida naquele momento.

Reuni as pedras que eu carregava, cada uma delas tinha um nome, um motivo. Eu sabia exatamente o que cada uma daquelas pequenas pedras significavam, sobre quais partes da minha vida se relacionavam, sobre quais sentimentos tratavam. E me abaixar na cruz para entregá-las não me arrancou lágrimas e sim me deu uma abertura e um respiro profundo.

Saí dali leve, dançando sozinha a caminhar com minha mochila e a ouvir minhas músicas preferidas.

Algum lugar de nós reconhece essas entregas. Reconhece a liberação do espaço. E isso dá uma sensação de alívio imensa.

Acontece que há momentos em que nossa clareza tem seus limites, momentos em que sequer sabemos quais pedras deixar.

Porque uma coisa é você se deparar com uma Cruz de Ferro e ter muito claro que alguns pontos em sua vida precisam de cura, de cuidado, de carinho, de trabalho, e que alguns desapegos podem acontecer naquele instante. E outra coisa é você se deparar com uma Cruz de Ferro em um momento que está totalmente perdido, em dúvida, sem saber identificar ao certo onde está doendo, o que está incomodando, ou em que ponto o sapato está apertando, como diz o ditado popular.

Ter essa clareza, sinto, é até mais importante que nos depararmos com a nossa Cruz de Ferro. Porque o lugar de entregas só faz sentido e tem valor se já sabemos o que entregar. É ruim quando não temos a clareza sobre o que deixar e é grave quando entregamos antes da hora de entregar. Uma clareza que tem a ver com o “o que” e também com o “quando”. 

Uma clareza que vem de um processo de autoconhecimento, de autoexploração, de vasculhar tudo o mundo interior e suas nuances, de visitar os sentimentos e entender o que se passa.

Sei que vale a pena a exploração interior. Diante daquela Cruz entreguei minhas pedras, deixei minhas dores, ofereci o que foi valioso para mim e não precisava mais estar na minha mochila, abri espaço para o que viria pela frente, e curei tantas e tantas coisas. E isso só foi possível porque fiz a lição de casa, mergulhei profundo em mim mesma.

Há muita beleza em nos olharmos, em nos entenderemos, em buscarmos nossas curas e levezas. Desejo que sua jornada seja de boas explorações internas, belos passeios pelo seu mundo interior, muita clareza sobre quais as pedras que nesse momento você pode entregar na sua Cruz de Ferro e leveza para seguir sua caminhada.

Assim seja, assim é.

Paula Quintão

24 de junho de 2017

Quebrei o punho em novembro passado e ao longo desses meses fui brindada com aprendizados profundos sobre como o corpo reage às emoções e os processos internos de cura.

Já há alguns anos que venho estudando sobre formas de cura. Vivi muitos rituais que me aproximam da minha essência e muitos tipos de terapia que não são a medicina convencional e que me trouxeram respostas mais holísticas e integradas. Terapias que às vezes precisam dos remédios da farmácia ou dos médicos caminhando ao seu lado, e às vezes não.

Acontece que há exato um ano, pude começar a viver experiências em meu próprio corpo, curando problemas físicos e entendendo, mais de perto, como os processos emocionais, quando não estão totalmente resolvidos, desaguam em problemas físicos.

De fato o corpo só está tentando ajudar e sempre está buscando a cura, só que nem sempre pelos melhores caminhos, e faz isso vez ou outra de maneira equivocada.

Estou a viver descobertas mais profundas sobre como o corpo manifesta o que as emoções não estão processando muito bem.

Posso dizer que a grande maioria do que ocorre em nosso corpo, se é que não seria 100% dos casos, vem de um plano mais sutil das emoções, sentimentos e crenças enraizadas.

Antes do punho quebrado, vamos a uma história importante. Por mais ou menos 10 anos convivi com uma reação que eu sentia em minha perna todas as vezes que meu emocional estava detonado por causa de algum estresse, se chama eritema nodoso. É uma dessas doenças que a lista de causas é imensa e o que só nos resta, segundo os muitos médicos que me cuidaram nesse período, tratar dos efeitos. Nesse caso, minha única alternativa sempre foi “corticóide”. Que, digamos, em muito me chateava porque o próprio corticóide abria efeitos devastadores em meu corpo.

E pela primeira vez, há um ano, usei a terapia do bodytalk para tratar desses eritemas. Eles que em dez anos nunca haviam cedido se não fosse pelo corticóide, estava a desaparecer diante dos meus olhos com esse novo tipo de tratamento. Fiz uma única sessão de bodytalk, à distância, e assim foi o resultado: meu eritema, pela primeira vez em dez anos, desapareceu sem uso de corticóide.

Mágica? Não, meu leitor. É tratamento de saúde usando métodos mais sutis. Simplesmente algo que nossos olhos não vêm mas toda a química e física do nosso corpo compreendem e respondem.

Há um mundo de descobertas que podemos explorar. Vi nesse um ano muitas doenças e desarranjos em meu corpo ganharem um alinhamento ou pelo menos uma explicação emocional para o que os desencadeia.

Fiz e vivi muitos tipos de processos de cura. Bodytalk, thetahealing, cura prânica, constelação familiar, leitura de aura, reiki, acunpuntura, respiração do renascimento. E meu contínuo processo de autoconhecimento.

Vivi em Manaus por cinco anos. Nada mal para uma mineira acostumada às coisas em seu devido lugar, bem separadas e categorizadas. Preciso admitir que fui à primeira vez em Manaus e me apaixonei pelo caos que meus olhos enxergaram, pelo calor que me fazia quase perder a mim mesma, pelos rios que mais pareciam mar, pelo novo que fazia minha alma vibrar em algum lugar que nunca antes tinha vibrado. Fiz as malas e rumamos, eu e minha filha, ela em seus 11 anos, para a cidade plantada no meio da floresta.

Foram anos de muitos aprendizados, de lá renasci uma nova Paula. A cidade e a Amazônia ao redor me ensinaram lições das mais fortes e valiosas, preencheram minha mochila com preparativos para a vida, para o mundo. A cada passo eu sabia que a vida estava a me fortalecer para os passos seguintes.

Manaus não é uma cidade que nasceu de um bom planejamento. Hoje tem seus 2 milhões de habitantes e ruas estreitas para tantos carros. Há bairros de tantas ruas sem saída, há ocupações em muitos cantos. Espontânea, Manaus.  Há um tom de pessoal nos negócios, nos atendentes, no jeito de se fazer as coisas. Humana, Manaus.

Lembro de nos primeiros dias em visita à cidade achar o máximo entrar em uma loja para comprar bombons de cupuaçu e sair de lá sabendo todos os dramas pessoais da vendedora que acabou de me conhecer. Manaus é esse espontaneidade toda, esse sopro de humanidade na alma, esse caos para a mente cartesiana. E uma das mais preciosas lições que tive, entre tantas, tem a ver com o caos, com a espontaneidade e com as águas, o aprendizado de que mesmo no caos, as coisas fluem.

Fluem porque nossa natureza é mais das águas que qualquer outra coisa. Fluem porque SOMOS água.