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Paula Quintão

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Vez ou outra nos colocamos a pensar no quão corajosos somos.  Talvez a coragem esteja numa fila para a montanha russa, quando nos desafiamos a superar o medo da altura e da velocidade. Talvez a coragem esteja no check-in do aeroporto, quando trabalhamos nosso medo de voar. Talvez esteja no “apertar” da campainha, quando estamos a poucos minutos de nos declararmos para a pessoa amada. Talvez esteja num longo e difícil tratamento de câncer.

A coragem se reveste de mil faces, todas elas dignas de ocuparem as narrações emocionadas de quem a viveu e de quem a presenciou.  A coragem está nos atos de bravura, nas superações incontestáveis, nos grandes feitos, está nos desafios vencidos, nas dificuldades superadas.  A coragem, qualidade dos fortes, não é característica permamente, eterna. Coragem é característica que se renova de ato em ato, de fato em fato, a cada novo desafio, nos obrigando a assumi-la ou não sempre que uma situação nos exige um pouco mais de esforço.

Coragem vem do latim e tem a ver com ações do coração. Coragem quer dizer um agir pelo coração (não é lindo isso?), quer dizer encarar os medos, enfrentar as dificuldades, investir na auto-confiança, trabalhar as incertezas, afastar o perigo.

Carregamos ao longo da vida diversos tesouros, coisas que para nós são importantes, coisas sem as quais acreditamos não poder viver. Vamos caminhando e deixando para trás algumas preciosidades que perderam razão de ser, vamos substituindo peças que já não funcionam bem na engrenagem do dia a dia, vamos coletando uma ou outra nova riqueza para nossa mochila. E seguimos.

Seguimos acreditando que ter coisas é ter tudo, que as riquezas que reunimos são nossos bens: nossa casa, nosso carro, nosso salário de todo mês que se transforma em mais riquezas, nossas bugigangas que enchem a casa e que durante uma mudança lotam caixas, o celular moderno, o notebook com mais gigabytes, ou teras, as mil coisas de marca que prometem durar para sempre e que no próximo verão já não têm tanto brilho em nosso guarda-roupa.

Coisas vem e vão, e elas são capazes de nos trazer satisfações das mais diversas. Um lençol novo numa cama mal feita nos esperando no fim do dia. Uma roupa que nos faz sentir mais lindos. Uma mochila mais confortável para carregar os 10kg  até o topo da montanha. Um carro limpinho esperando na porta do trabalho.

“Definitivamente ela não é bonita”, foi o que meu pensamento formulou. Eu já tinha visto uma ou outra foto dela antes de encontrá-la pessoalmente e pude concluir que minha impressão sobre sua pouca beleza não estava errada. Sua branqueleza, seu cabelo confuso, seu rosto ainda mais confuso que os cabelos, seu sorriso sem cor e seus olhos pouco expressivos faziam dela uma mulher comum, ou para ser menos eufêmica, uma mulher feia.

Logo no primeiro dia que nos encontramos passei pouco tempo em sua companhia.

Talvez vinte ou trinta minutos antes de sair para alguns compromissos. Meus programas para os próximos dias possivelmente coincidiriam sem muita intenção com os dela e minha agenda não programava a presença dela porque apesar de eu estar hospedada em sua casa, era com seus irmãos que eu passaria grande parte do meu tempo.

E então, entre um programa e outro, ela surgia para fazer um chamego em sua família. Entre um programa e outro ela surgia para completar um comentário e fazer uma piada. Entre um programa e outro estávamos sentados à mesa e ela compunha a conversa contando suas aventuras com as amigas e as graças do passado em família. Entre um programa e outro lá estava ela sentada em um banquinho tocando violão e cantando músicas que eu tanto gostava. Entre um novo programa e outro ela mostrava suas pinturas, pendurava um quadro na parede, abria o livro de desenhos na imagem feita a lápis. Eu adorava sua presença e tudo o que ela trazia para mostrar eu adorava ver, a música que tocava eu adorava ouvir, os comentários que fazia eu adorava escutar. E como mágica, seus cabelos confusos ganharam contorno e brilho, seus olhos sem expressão sorriam antes dela sorrir, sua branqueleza era pele alva, lisa e brilhante, seu sorriso sem cor enchia o ambiente de alegria. Ela era linda e sua beleza resplandecia. Ah, os olhos… os olhos, guiados pela emoção, podem enxergar poesia para onde quer que olhe, podem enxergar beleza para quem quer que olhe. Belos olhos esses, olhos que obedecem a alma. Linda alma a nossa, alma que se resplandece através dos olhos.

 

Há entre os indígenas aimarás a crença de que ao nos depararmos com um arco-íris, diante de suas tantas cores e beleza, temos a obrigação de repensar a vida e nossos caminhos. Eis-me aqui aniversariando e eis-me aqui diante desse arco-íris. Arco-íris é tudo o que desejo para mim. “Repensar a vida” é tudo o que desejo para mim, porque assim viverei dias realmente vivos, caminhos que realmente desejei sob meus pés, e olharei para trás sorrindo ao perceber que repensar a vida me trouxe uma vida cheia de recriações que valeu infinitamente a pena.

Os dias seguem um ao outro. Assim como as horas. O tempo, implacável, nos diz vez ou outra “olha para mim, estou em movimento”. E o movimento, sempre a frente, sempre adiante, sem nunca dar sequer um passo atrás ou pestanejar, por incrível que pareça, às vezes passa despercebido bem ao nosso redor, bem sob nossos pés. O tempo não exige nada em troca, não exige nem que pensemos para que ele continue a passar.  O tempo é gratuito. E no mesmo instante é o bem mais precioso que temos.  Não há como comprar mais tempo ou recuperar o tempo perdido. O mesmo tempo que não exige nada é capaz de nos tirar tudo. Findado o tempo, findada a vida.

Por isso o ato de repensar, espontâneo, livre, único, voluntário, é o ato mais precioso que temos para lidar com o tempo.  Talvez o tempo, com toda a sua suavidade transmitida pelos minutos e pela incrível relatividade com a qual se relaciona conosco, nos surpreenda vez ou outra quando nos atentamos para o fato de ele ter se movimentado tanto e nós não termos dado o devido valor para isso.  Mal sabemos que o tempo é especialista nisso: consegue se movimentar com proeza, com sutileza, com nuances tão delicadas próprias de seres especiais.

O tempo passa. Passa, caminha, corre, dança, rodopia, sorri, faz piada sempre dando passos a frente. Sim, o tempo “passa”. Tempo de escolha, tempo de decisão, tempo de saída, tempo de chegada, tempo para ir, tempo para voltar. Que tipo de tempo será somos nós é que vamos dizer. Entre um momento e outro, nenhum intervalo, porque a vida não tem intervalo, não tem tempo extra, não tem pausa. Olhar a vida e olhar o caminho que percorremos é olhar para o tempo vivido para, enfim, admirá-lo.  E então o que veremos? Sorte a nossa se pudermos ver um “arco-íris” e diante dele nos renderemos à tarefa de reavaliar nossos passos, de repensar o caminho, de rever o que estamos fazendo, de reviver momentos bons e ruins, de olhar para dentro de nós mesmos um pouquinho mais e fazermos a pergunta: “eu gosto dos caminhos com que estou preenchendo o meu tempo?”.

Hoje brindo o tempo. Hoje brindo a vida. Que venham mais arco-íris, que dance ao meu redor o misterioso e sublime passar do tempo.

Paula Quintão

08 de novembro de 2011

 

Sei que a saudade, essa saudade que nos assola o ser, pode vir de vários modos. Pode vir silenciosa, de repente, no fim da tarde, e nos fazer parar por poucos segundos e suspirar a ausência sentida.  Pode vir devagarzinho, aumentando mais e mais, até se tornar tão intensa que você sente necessidade de arrancá-la como se arranca uma erva daninha do jardim. Pode vir sorrateira e transformar-se em saudade sólida, dessas que nos acompanham dia e noite, noite e dia, e nos fazem olhar para trás a todo instante. Pode vir em forma de angústia, das que apertam o coração, derrubam lágrimas e nos fazem desesperadamente querer repetir o que já passou e não é mais possível. Pode vir como um vento, uma brisa, que percorre todo nosso ser aconchegando-nos em boas lembranças do passado.

Aprecio a saudade, me entrego por completo e me rendo diante dela. Sou toda rendição porque saudade é a mais pura expressão de que o caminho valeu a pena, de que as pessoas que estavam ao nosso lado fizeram nossos dias melhores. Saudade é a mais plena manifestação de que apreciamos o que vivemos e quem nos acompanhou.  Saudade é sinal de que a vida trouxe passos que valeram a pena.