Categoria

Paula Quintão

Categoria

Destino: Monte Roraima. Nós, 11 estreantes acompanhados por três guias e uma equipe de indígenas. Programação: 3 dias de longas caminhadas até o topo, 3 dias no topo,  2 dias de volta.

Desconhecidos, nos olhávamos com atenção, ouvíamos nossas histórias tão diferentes e sentíamos as limitações e a força do nosso físico a cada passo, a cada curva, a cada obstáculo. Reunidos, contávamos o que sentíamos, apreciávamos a vista, desabafávamos sobre o cansaço, confessávamos nossa satisfação. Pelo caminho, sorríamos uns para os outros, perguntávamos sobre nossas dores e incômodos, oferecíamos nossa água e ombro, estendiámos a mão quando a subida era dura demais. Unidos, fomos indivíduos integrais, podendo nos mostrar por inteiro; unidos, fomos nós e nos amamos imensamente.

 

A vida simples nos enchia de satisfação. Dormindo em barracas forradas com nossos isolantes térmicos, as dores no corpo eram compartilhadas na manhã seguinte em torno da mesa do café da manhã – mesa que em momentos eram nossos próprios joelhos ou uma pedra bem colocada pela natureza. Comíamos o que nos era carinhosamente oferecido, preparado a muitas mãos pelos indígenas, e apreciávamos o café ralo, o macarrão frio, o arroz agrupado e o bom tempero que deixava tudo perfeito. Como poderia ser melhor?

Fomos questionados por nós mesmo sobre os valores que carregamos. Fomos de um jeito e voltamos de outro. Fomos numa turma de onze e voltamos como “nós. Nós, agora outros, voltamos renovados. Fomos dor e prazer, fomos dúvida e paz, fomos cansaço e contemplação. Fomos para sempre mudados.

Ver o belo, lá de cima, do alto do Monte, em seu cume, onde um mundo de perfeição que mistura o verde, as curvas, o caminho, as nuvens, o brilho do olhar, o abraço da vida, não é só ver o belo. É ver todo o caminho de dificuldade que fizemos até chegar ali, é ver nossa história, é ver integralmente o que somos e o que esperamos da nossa maravilhosa e preciosa vida.

A mudança desce da montanha conosco. Deixamos um pedaço de nós, arrancado à força pelo caminho de muitos quilômetros, e trouxemos outro pedaço, depositado em nosso ser mais íntimo com toda delicadeza pelos ares de infinita beleza, encanto e pureza da montanha.

 

 

Encho a página de dizeres, articulo meu modo de falar, coloco todo o meu pensamento a funcionar quando estou diante daqueles para quem tanto quero me fazer entender. Sinto, penso, compilo, expresso e bem ali, em frente a mim, está quem me ouve, quem me lê, quem me percebe tal qual deseja. Sim, a percepção inegavelmente pertence ao outro.  O que expresso é sempre parte do todo que permeia meu ser. Em mim está plenamente meu sentir – e cada célula, como nos ensina o brilhante físico Fritjof Capra, em “A teia da vida”, faz culminar em nós esse sentir -, está a vivência completa do que penso e todas as reações emocionais que o viver provoca.

Ao expressar, por mais detalhado que o discurso ou as emoções demonstradas possam ser, não levamos ao outro toda a gama de impressões e sensações que há em nós. Levamos parte de nós ao outro. Impossível que seja diferente. E mesmo assim, insistentes que somos, passamos a vida numa luta desenfreada para sermos compreendidos e percebidos integralmente.

Assim o fazemos pelo prazer que é lançar nossas palavras por esse mundo afora, como se abríssemos gaiolas e de lá, pássaros de todos os tipos, tamanhos e cores saíssem a voar pelo céu. Queremos nossas palavras, com o devido crédito a nós – assinatura preciosa que nos leva como marca -, em livros publicados, em posts de um blog, em uma tese de doutorado, em um jornal que circula em nossa cidade, no email do ser amado, no relatório na mão do chefe, na entrevista concedida à rádio, no certificado de participação, na página do perfil do facebook. Ficamos cheios de nós mesmos quando as grades da gaiola já não se fazem presentes. Junto com nossas palavras e expressões percorremos céu e mar, montanha e savana, acreditando que somos e estamos no outro integralmente. Ilusão que nos enche de nós mesmos.