Era criança, talvez com meus 9 ou 10 anos, e para as férias era certo: juntávamos as bagagens, uma pilha sem fim de coisas, e de Brasília branca seguíamos viagem até o sítio dos meus avós. 

Era uma viagem épica.  Um trajeto pelas estradas mineiras marcado por risos com minha irmã, quebra-molas esquecidos pelo meu pai, quitutes preparados pela minha mãe. E um tanto tensa, pois nunca havia espaço suficiente para a bagagem, meu pai sempre ficava bravo, minha mãe nos apressava, eu e minha irmã encontrávamos algum motivo para brigar. Essas coisas de família que torna tudo inesquecível.

Acontece que nessas mais ou menos 3 horas de viagem, minha mente se ocupava em preparar conversas interessantes com meus primos, com meus tios. O que eu iria dizer para os outros prestarem atenção? O que eu falaria na mesa cheia? O que eu contaria para não ser invisível durante o período das férias? Eu tentava relembrar coisas interessantes que vivi, histórias engraçadas, casos de mistérios desvendados e aventuras vividas. 

Quando havia mesa cheia, mesmo tendo treinado, minha voz era sempre baixa e nenhuma das minhas frases era ouvida do início ao fim. E minha timidez não me permitia insistir. Mesmo selecionando os melhores contos do semestre, ainda assim não eram tão atrativos a ponto de gerar curiosidade. Ou eu não sentia que eram atrativos e acabava escolhendo ficar quieta mesmo. 

Queria tanto falar. Queria tanto que as palavras saíssem de mim com naturalidade. 

Mas naquele momento, não era possível. 

E não foi possível por muito tempo. Por muitos anos. 

Entregar minha verdade, deixar transparecer o que realmente sentia na essência mais profunda, foi durante minha vida um desafio grande. Um incômodo profundo. 

Quantos SIMs ao invés de NÃO. Quantos “tudo bem” quando nada estava bem. 

E ao longo da vida fui tendo novas oportunidades de fazer o que eu queria fazer.

De dizer o que eu sentia de fato.

De deixar transparecer minha verdade mais profunda. 

Foi preciso deixar ir muita coisa. Largar muitos medos e inseguranças. Calar muitas vozes que diziam que eu não era boa o bastante. Deixar aflorar a percepção de que sou um ser único, singular. Foi preciso ver beleza no outro e ver que há outras belezas em mim. Foi preciso valorizar o espaço do silêncio e celebrar a possibilidade de dar voz ao sentimento.

Foi um longo caminho até chegar aqui. Até conseguir reunir força, limpar as amarras, aquietar as inseguranças, domar o medo de dizer NÃO quando eu sentia de dizer NÃO, de dizer SIM quando eu sentia que era um SIM.

Um longo caminho para conseguir ouvir e identificar o que se passava dentro e um outro longo caminho para conseguir criar uma comunicação que revelasse o que de fato eu sentia.

Hoje, mesmo sabendo que sempre há como avançar mais e mais em clareza, minha busca constante e diária é por ser fiel ao que se passa dentro de mim quando estou expressando aos outros o que sinto, criando essa ponte entre o que sinto, penso, vivo por dentro  com o mundo exterior. 

Vez ou outra erro na dose, coloco ênfase demais onde poderia ser mais sutil, ou sou radical demais quando poderia ser menos. Mas ainda assim sinto fluindo de mim a expressão mais essencial do que sou, do que sinto, do que quero exatamente comunicar e fazer chegar aos outros. Um longo caminho até aqui, desses que cada passo merece ser valorizado, um caminho que por nada nesse mundo eu o trocaria. Ser capaz de dar vida e voz ao que sou é ser capaz de criar no mundo uma extensão de mim mesma, permitindo que o que se passa dentro se estenda para além de mim mesma, tocando outras pessoas, alcançando outras vidas. 

Paula Quintão

26 de junho de 2016

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Author

Paula Quintão é escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU. "De passo em passo eu desvendo um mundo dentro e fora de mim".

  • vanessa

    Emoção é algo que transborda em mim ao ler seus textos de domingo… até hj escolher os SIMs é um desafio ,pq reunir essa coragem não é tarefa fácil ,mas hj poder identificar cada Não e SIM que deixer de dar e pq é um exercício que me move para uma grande mudança e autoconhecimento.Grata por suas palavras sempre …

  • Auxiliadora Sales Oliveira

    Oi, Paula! Seu texto traduziu exatamente o momento que estou vivenciado. “Ser capaz de dar vida e voz ao que sou”. Espero conseguir. Obrigada por compartilhar isso e traduzir algo tão semelhante ao que estou experimentando. Parabéns!

  • https://www.facebook.com/andreluispio.sa?fref=ts André Luis Pio D’Anunzio

    GRATIDÃO minha iluminada Amiga&Gurua, por mais uma vez fazer luz sobre questões fundamentais para chegar ao meu essencial…
    Uma jornada que comecei a trilhar há 4 anos na minha 2a. 1/2 de século com a sua ajuda, e que está “me re-ligando com Eu mesmo”.
    Seu inspirador texto evidencia minha maior dificuldade no momento – que é colocar em Ação o que verdadeiramente penso e sinto, vencer a inércia que se instalou em minh’Alma por me distanciar de que Sou realmente, e que dificulta colocar em prática a minha essência, o que realmente acredito e o que eu quero para a minha jornada nesta Vida!
    Sinto que estou conseguindo, ainda que não na velocidade que gostaria, mas no tempo em que posso fazer neste momento, e a sua Luz tem sido fundamental para eu alcançar o meu essencial.