Nem consigo listar quantos foram os programas em toda a minha vida que aceitei porque “é bom que distrai”. Já perdi a conta de quantos eventos, encontros, viagens, shows e almoços participei porque “é bom que distrai”.

Dia desses, num desses momentos “bom que distrai”, bebi, comi, contei uns casos, ouvi outros. De repente, olho em volta e me pergunto: “o que estou fazendo aqui?”. Não é uma pergunta incomum na vida de todos nós, mas esse dia ela caiu em cheio. Resposta: eu estava me distraindo! Céus! Distraindo do quê? Da vida que corria logo ali adiante? Das mil coisas que tenho uma vontade imensa de fazer, mas não faço porque não há tempo para fazer todas elas?

Colocar-me em distração é exatamente encontrar modos de me distanciar da vida que tanto amo e de todas as finas nuances da minha bem elaborada lista de interesses, repleta de atividades que adoro fazer e que ao contrário de me distrair, me mantêm bastante atraída. Não quero ficar distraída! Não quero dormir enquanto minha vida corre solta. Não quero olhar para trás e perceber que tudo o que eu sempre quis fazer não foi feito porque eu estava distraída caminhando por aí. Quero é ser atraída por tudo o que há ao redor, pelos problemas, pela beleza do ambiente, pelas histórias de vida, pelos ensinamentos, pela música, pela arte, pelo ato de compartilhar, pelo que está por ser descoberto. Sim, quero que seja bom porque me atrai e não porque me distrai.

Estar em distração é tirar o foco do que atrai, seja um problema ou você mesmo e sua vida.  Não quero perder o foco ou me entreter para deixar de ver o principal, quero voltar meu foco para o que há ao meu redor e em mim.

 

Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br

  • =] Dessa eu lembro bem!

    A distração é uma forma de negar a vida, realmente uma filosofia completamente diferente da sua. Quem se distrai está fugindo de uma realidade sofrida, desagradável. Ou então alguma realidade que não se queira aceitar. Mas, como você mesma disse, pra que procurar coisas que nos distraem? Podemos fazer isso por conta própria, pois acontece espontaneamente. Quando paro quieto, por exemplo, começo a viajar e vou tão longe que perco a noção de onde estou.

    Na realidade, pensei nisso quando estava pensando em leitura. Certa vez tomei um livro best seller chamado o caçador de pipas e o li inteiro numa manhã. Não foi assim tão ruim, embora eu tenha suspeitado de um merchandising a favor dos EUA. Mas eu passei todo o livro completamente distraído. Mais ou menos na mesma época eu li aforismos para sabedoria de vida, de Schopenhauer. O livro era menor, me tomou mais tempo pra ler e foi sensacional. me atraiu, me trouxe epifanias. Era empolgação pra cada novo parágrafo! As vezes conversas também são assim. Você começa a falar com uma pessoa e percebe que o assunto, assim como a própria pessoa, são distração. Falar do tempo, por exemplo, ou até da vida dos outros (essa é uma atividade enfadonha a não ser que falemos de alguém que amamos, mas as pessoas parecem se interessar absurdamente por isso). Há conversas, no entanto, que são bem diferentes. Você começa a discutir um assunto, consumido por ele, e nem percebe quando ele toma uma curva, segue uma tangente. É como quando você começa falando de economia a acaba falando sobre amor(sim, isso me aconteceu. Se me lembro bem, caiu-se em marxismo, depois família, daí finalmente amor). No final, a conversa simplesmente foi deliciosa, embora não se tenha chegado a lugar algum. Eu poderia ficar falando sobre todas as coisas que fazemos, que podem ser distração ou atração, mas você melhor do que ninguém entende isso. Afinal, eu só cheguei a pensar essas coisas por sua causa!

    Mas essa reflexão já fazia parte de mim, pois acabei ganhando o costume de não me envolver em relações de “distração”, que são as mais comuns. Acho que isso torna a vida, as relações, mais intensas. Ir na direção da dor, do prazer, de tudo, e mergulhar de cabeça. Não tenho paciência pra essas distrações que servem apenas pra socialização.

    No entanto, contrariando o que eu disse, há ocasiões em que não damos conta da quantidade de emoções, da intensidade, e precisamos de um momento de distração pra não perder o controle. Mas isso não é bem se distrair, como ver TV, mas sim se desligar de tudo, meditar. Pra isso, É claro, nada externo é necessário.

  • Vlad S Junior

    Oi Paula. Acho legal poder distrair as vezes, não no sentido de largar nossos sonhos, de ser uma fuga para os fracassos, mas de encarar o novo, o inusitado. O fugir da rotina e fazer coisas fora do contexto pode ser muito bom, já experimentou subir uma montanha por exemplo? Ficar longe do celular, da internet, com pessoas que voce nunca viu? Estar imerso no novo e desconhecido? Próximo do perigo, pra sentir a importância da segurança? Distrair sim, sem esquecer de que a distração deve ser passageira, enquanto a vida só segue pra frente!

    Um abraço do Vlad

    • Querido Vlad, está mais do que certo, só estamos dando nomes diferentes a coisas iguais. Distrair é entreter, é tirar o foco de algo. Atrair é voltar a atenção para algo. Veja nossa maravilhosa ida à montanha: ao contrário de nos distrair, a todo momento estivemos atraídos por tudo o que estava ao nosso redor: as histórias de cada um, os obstáculos, as dores no corpo, o suor que escorria, as belezas da natureza. Até os pequenos animais e plantas nos atraiam a atenção. Até ir ao banheiro atraía nossa atenção! Quer dizer: vivemos com intensidade aqueles momentos. Fazer atividades para atrair nossa atenção e nos interessarmos por coisas diversas é o melhor que podemos fazer, o contrário de nos anestesiarmos para evitar de encarar a realidade que nos rodeia em atividades que nos distraem.