Abri meu email e lá estava a mensagem do meu amigo Renato Hofer, uma amizade mágica que o Monte Roraima trouxe para minha vida. Em anexo, uma imagem com a frase do J. R.R. Tolkien “Not all those who wander are lost. Nem todos que estão vagando estão perdidos”.

Enquanto tomava meu café da manhã, deixei a frase fixa na tela do meu computador. Olhava para aquelas palavras buscando sentir cada uma delas na minha vida. Não foi naquela manhã de 2012, ainda em Manaus, que o presente do Renato faria sentido. Foi em Paris. Quase em exatos 3 anos depois.

Manhã em Paris. Ainda bem cedo, antes mesmo que o mercado estivesse funcionando, eu vagava por Montmartre em busca de um ar que entrasse mais profundamente no meu peito. Tinha perdido o fio da meada. Nessas horas, o ar se perde no emaranhado de linhas.

Talvez fosse Paris e seu inevitável chamado para a introspecção, talvez fosse o frio, talvez fosse o casamento quase por terminar, talvez a chuva fina que insistia em cair. Entrei no Café Deux Moulins.


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Eu, os olhos caídos, a meada de fios embolados que carregava, meu caderno de escritos, o crème brûlée e o espírito “Amelie Poulain” que rondava o ambiente dizendo “quem perde o fio da meada não está no Café Deux Moulins”.

Escrevi por horas. Escrever me faz criar conexões, me faz enxergar com mais profundidade meu momento. É como me deparar com um lago turvo pela chuva que caiu e pouco a pouco ir acalmando essa água, afastando as turbulências. Algo dentro de mim não encontrava conexão entre os episódios da minha vida, entre o que eu sentia e o que queria viver.

“Nem todos que estão vagando estão perdidos”. A citação me veio em mente. E enquanto as músicas lindamente selecionadas tocavam no Café Deux Moulins, minhas linhas iam se compondo no papel, respostas que eu precisava, sentimentos que se acalmavam.

Pude entender naquele instante, com muita paz em meu coração e um tanto de clareza, que não é porque perdemos o fio da meada que estamos perdidos. Entender que vez ou outra é preciso mesmo soltar a linha, deixar ir, se perder para se encontrar, vagar como se estivéssemos sem rumo a fim de criar novos caminhos sob nossos pés.

E naquele momento de 2015, naquela Paris de 2015, eu estava diante de um momento de transição. Vagava de rua em rua parisiense com o coração na mão, olhando o chão se desfazer sob meus pés e buscando, como aquela Paula paraquedista que saia apavorada pela porta do avião durante meu curso de paraquedismo, uma plataforma sólida que me desse segurança.

Momentos de transição são mesmo assim. Sentimos falta do que nos é familiar, do chão sob nossos pés, do fio da meada que nos mostra o caminho por onde estamos seguindo. Ficamos com aquela sensação terrível de que estamos perdidos e, portanto, em risco. Sentir que estamos perdidos ou sem chão nos faz sentir muito medo, medo como aquele de estar em queda livre e não ter um paraquedas. A mudança faz isso com nosso coração, por isso nos parece mais simples ficar com o que nos é familiar, mesmo infelizes, do que viver a sensação de vazio, de água turva, de frio na barriga, de aperto no coração, de faltar chão sob os nossos pés, que a transição nos proporciona.

“Você não perdeu o fio da meada, Paula, você está em transição”, escrevi no meu caderno algo que talvez Amelie Poulain tenha me soprado aos ouvidos. Acalmei meu coração. Terminei de comer meu créme brûlèe. Paguei minha conta. E sai a vagar pelas ruas de Paris.

Paula Quintão

28 de fevereiro de 2016

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Author

Paula Quintão é escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU. "De passo em passo eu desvendo um mundo dentro e fora de mim".

  • Catherine Milanez

    Paris é, certamente, um ótimo lugar para refletir e acalmar o coração.

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Amei ler seu texto sobre a França, Catherine, emocionante!

  • Rico Oliveira

    Sempre um texto leve, lindo e solto!!! Consigo imaginar a cena com todas as nuances e entender os sentimentos envolvidos. Esta tal transição é um momento dominador que chega sem pedir licença. Não adianta fugirmos dele…mas buscar entender sua chegada e sua despedida. Entre um momento e outro, cabe a nós colocarmos nossos pés no chão e, de preferência, virados para o rumo certo. Daí, em diante, passo a passo, seguirmos o novo caminho rumo à FELICIDADE! Gratidão, Querida Paula.

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Gratidão é minha pela sua presença e suas partilhas sempre, Rico! Por mais momentos em que sabemos encerrar ciclos para começar novos, mesmo com todos os desafios, todas as dores, todas as dificuldades. Celebremos!

  • Verena Kacinskis

    Lindo, Paula!

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Bela vida pra nós, Verena.

  • Elisa Rodrigues

    LIndo texto, Paula! Era isso que eu quis dizer quando disse que me sentia no limbo, em uma fase de chiadeira entre uma estação e outra da minha vida. Gratidão!

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      É isso mesmo… é estar no limbo, na corda bamba, a um passo depois da porta do avião em salto de paraquedas. =)) Muitos beijos e luz em nossos caminhos.

      • Elisa Rodrigues

        Sim, que sigamos caminhando em beleza!
        Beijo enorme!

  • http://elaescolheuserfeliz.com.br/ Isabella Mogiz

    Ai Paula querida, mais uma vez chegando em boa hora. Me encontro exatamente nesse momento em minha vida, tudo estranho, suspenso, me sentindo perdida, com lágrimas nos olhos e lutando a todo o custo contra essa vontade tão sadia de me lançar no olho do furacão, me perder de corpo e alma, mas agora com a certeza de que estar “perdida” é o primeiro passo para me encontrar. Grande abraço e um beijo no coração!

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      E que assim seja, Isa. Um caminho de luz, de despertares… de encontrar outro fio da meada que leva a outros lugares mágicos em sua vida. Muitos beijos!

  • Paloma Oliveira

    Amelie Poulain <3

    Em 2015 me senti envolvida por ela..suas canções adentravam minha alma em minhas aulas de teatro, meu corpo e minha alma clamavam por este estado de autoconhecimento, e isso só ocorria aos domingos! Por que só aos domingos?Porque era quando eu me sentia livre em estado de mais completo encontro com o fio da miada e o meu momento de transição. Paula querida ,obrigada por esse texto maravilhoso, agora tudo faz sentido. Beijos Paloma =))

  • Carlos Cerioni

    Excelente texto, Paula! Reflexão pura! Os caminhos tortuosos muitas vezes nos ensinam que a nossa vida precisa da participação ativa dos acasos. E que melhor maneira de dar espaço para estas casualidades acontecerem do que se perdendo um pouco? Permitir errar. Permitir divagar. A própria história é repleta disso, casualidades que nada mais eram do que sucessos camuflados. Há quem diga que a descoberta do nosso próprio continente foi vítima de um acaso, não é mesmo? O que precisamos é confiar um pouco mais que os ventos serão favoráveis para guiar nossa pequena embarcação chamada “Vida” até o nosso destino. Fique em paz, Paula! E continue o excelente trabalho que desenvolve!

  • http://caminhosparavenus.blogspot.com.br/ Nádia Bouzas

    Adoro Amelie Poulain, adorei o texto e ainda preciso conhecer você e Paris! kkkkk Excelente texto!

  • Andréa Thomé Netto

    Amei! Então não estou perdida! Que alívio saber. 🙂

  • Ricardo Basilio

    Um brilhante texto. Somos seres em constante transição, não é mesmo, querida Paula! 🙂 Você é uma inspiração e uma certeza de que nossos questionamentos durante a jornada são jóias preciosas que mostram a cada instante, o valor que possuímos no mundo em que vivemos. Parabéns e sucesso sempre! Felicidade para nós! 🙂