As manifestações tomaram a rua. Um a um com suas faixas, suas bandeiras, suas buzinas. Uns até com serpentina e confete pensavam ser carnaval. Mas havia uma beleza naquele ritual todo, de tudo se via um pouco.

Enquanto a massa entoava seus cantos, hinos e xingamentos, do outro lado da rua a menina que acompanhava seus pais encontrou um graveto e começou a cavar um cocô de cachorro que estava adormecido na calçada. Era sua grande oportunidade de explorar.

Ela pequena, tinha os braços macios, desses que dá vontade de apertar. Os cabelos bem lisos e pretinhos, iam pouco acima dos ombros.

O carro de som estava ainda mais alto que antes, no microfone mais cantos, hinos e xingamentos. A menina, imersa em seu próprio mundo, cavava o coco do cachorro e vez ou outra espiava para acompanhar a posição dos seus pais. Os pais continuavam ali ao seu lado, tinham bandeiras personalizadas com alguns dizeres sobre salvar o país.

Ela se mantinha em sua exploração, eis que um outro cachorro, provavelmente não o dono do cocô, passa cheirando a calçada. Cheira o graveto, cheira o coco despedaçado, cheira a menina. Era muita emoção para um só dia. Ela fica imóvel, paradinha. Olhos arregalados. Coração acelerado. O cachorro começa a balançar o rabo e como numa língua universal, eles se entendem. Ela afaga sua cabeça, ele cheira e cheira a pequena exploradora.

A manifestação continua a todo clamor. Incrementaram os hinos com fogos de artifício, não desses que fazem desenhos no céu, mas desses que fazem um “bum” e só.

Entre um “bum” e outro, o cachorro se assusta e foge. Foge levando o graveto. A menina nem teve tempo de se despedir. E agora não tem mais sua ferramenta de exploração. Ombrinhos caídos, olha ao redor. 

Só vê faixas, carro de som, bandeiras, pernas a se misturar.

E nenhum cachorro. E nenhum graveto.

Pega uma garrafa solta no chão, com ela pode amassar o objeto de exploração.

A mãe olha a menina por um instante e fica muito feliz por a filha ter encontrado uma brincadeira que a fizesse feliz. A filha olha seus pais se se sente feliz por estarem tão cheios de vida gritando e gritando, erguendo as mãos e cantando num só coro.

Olhos arregalados. Corações acelerados.

Mais um “bum”, mais um hino, mais um canto, mais uns bons xingamentos. Entre a esperança de salvar o país e a esperança de encontrar um tesouro no coco do cachorro, a família volta para casa sentindo-se feliz, cada um vivendo o que tinha para viver, cada um fazendo suas escolhas para aquele momento,  aquela sensação de missão cumprida.  

E lá almoçam em família no domingo. Acordam bem cedo na segunda. Pagam as contas na terça. Visitam a vovó na quarta. Lavam as louças juntos na quinta. Dormem bem tarde na sexta. Assistem a um filme no sábado. E domingo que vem, sabe-se lá o que os aguarda. Talvez uma nova manifestação, talvez um país se reconstituindo, talvez novos momentos de exploração, talvez a companhia de um cachorro amigo, talvez um dia comum que só quer correr manso.

……………

Escolhi a foto de arco-íris para ilustrar o texto desse domingo pois quando fui à montanha pela primeira vez aprendi com meu guia uma sabedoria indígena sobre todas as vezes que vemos um arco-íris nos perguntarmos se realmente estamos fazendo nosso melhor, se somos nossa melhor versão, se nossas ações estão conectadas à direção onde desejamos seguir. Nunca na posição de vítima, mas na de agentes de transformação da nossa própria realidade… Hoje é um dia forte para o Brasil, um dia da esperança, mas também um dia de olharmos o arco-íris diante de nós.

Dias melhores virão. Mas haja o que houver, ainda assim somos nós e o hoje, somos nós tão humanos quanto sempre, somos nós e a vontade de estar perto de quem amamos, somos nós e a alegria de explorar novas possibilidades, somos nós e a sensação mágica de esperança que nos move para o amanhã, somos nós e a constante necessidade de mudar a nós mesmos para ser possível mudar o mundo.

Haja o que houver, ainda somos nós e a mesma oportunidade de fazer escolhas mais conscientes, de aprender com as experiências, de fazer nossa parte antes de cobrar a parte do outro, de viver uma vida mais conectada e cheia de sabedoria. Nós e a mesma oportunidade de honrar o hoje, onde mora a chance de fazer diferente. 

Você é o seu mundo; assim, se você muda, o mundo muda; se você não muda, pode ficar mudando o mundo inteiro, mas nada muda; você insistirá em criar repetidamente o mesmo mundo“. Osho.

Paula Quintão

17 de abril de 2016

assine_newsletterb banner_novoeu

Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br