Muitas memórias nos habitam. A vida vai se compondo, os dias vão se seguindo e dentro de nós uma infinidade de memórias e lembranças vão contando a história. Sou encantada com o que as memórias produzem em nós, têm a capacidade de nos contar histórias sobre nós mesmos e o que vivemos. Há um lado muito bonito nisso. E há também um outro lado: o lado em que as memórias não nos permitem viver inteiramente o presente. Ou, mais especificamente, não nos permitir ver e estar no agora com os olhos neutros, com os olhos que percebem de fato o que está se passando. 

As memórias são capazes de interferir na forma como enxergamos o mundo, as pessoas e as situações. Seja positiva ou negativamente, sempre com base no que já vivemos e agora, em forma de crença, nos habita. 

As memórias vivas dentro de nós ficam pedindo atenção, como se pedindo para ser revisitadas, lembradas, acessadas, consideradas no presente. E isso, aprendi com o Osho ainda pelo Caminho de Santiago, nos tira da vivência plena do agora, nos impede de estar presente, nos impede de viver as situações sem repetir padrões, sem reagir do mesmo jeito, mantendo as mesmas crenças. Memórias são capazes de transformar vivências simples em vivências de dor ou vivências de intensa alegria. Memórias são capazes de cambiar as emoções, interferir nas escolhas. 

O Osho me ensinou que todas as noites seria muito especial retornar às memórias e encerrá-las, finalizá-las. Dar a algumas memórias que ficaram incompletas, ou situações de vida que não foram vividas como gostaríamos, encerramento. De um jeito que nos sentimos mais satisfeitos com o desfecho. É um lindo exercício, é como um mergulho. Como uma rememoração que nós podemos modificar aquela história para que fique do jeito que gostaríamos, extravasando nossa energia que pode ter ficado estocada e aprisionada naquele momento da nossa história. 

Vou te contar como pode ser…

É só pedir, que uma memória nos chega. E a primeira que vier é a que trabalharemos. Pode ser uma memória de felicidade ou de tristeza, dor ou alegria. A que vier, você irá extravasar ao máximo sua emoção naquela história do passado que continua viva dentro de nós. 

Há uma cena que retorna muito pra mim. Eu era criança, lá pelos meus 10 ou 11 anos, e fazia parte do time de basquete da escola. Acontece que o jogo daquela manhã de sábado tinha sido um pouco desastroso. Placar: 4 a 2. Se estivéssemos falando de futebol, tudo bem. Mas, no caso, estamos falando de basquete. Ou seja, desastroso. Eu era do time que tinha feito 2 pontos. Dá para perceber que a manhã estava um tanto ruim.  

O meu combinado com meus pais era ligar do orelhão em frente ao estádio assim que o jogo terminasse. E assim eu fiz: liguei. Só que estava ocupado. Liguei duas, três, quatro vezes. Ainda ocupado. Era fácil deduzir, em épocas de telefone de gancho, que o telefone estava mal encaixado, daquele jeito que ninguém perceberia. O que eu fiz foi decidir voltar sozinha para casa. Daria como 40 minutos de caminhada, em cidade pequena, tarde de sol. Nenhum perigo eminente. 

Acontece que por ser sábado, tarde de sol, cidade pequena, pelo caminho havia esses homens que resolvem tomar sua cerveja num bar ou na beirada do passeio e por pura graça de viver resolvem mexer com as meninas que passam. “Princesa”…. “Coisa linda”…. qualquer coisa assim me diziam. Foram muitas vezes naquele dia. E era horrível. Era péssimo. Era aterrorizante. Cheguei em casa e pude cair no choro. Meus pais entenderam, minha irmã também. Mas essa memória ficou presa aqui dentro. Ficou presa, como se eu ficasse congelada no passado. E sempre tenho a sensação, quando ando pela rua, que algum homem vai mexer comigo. É só eu ver um homem parado na calçado ou andando na minha direção, que dentro de mim começa a se revirar uma raiva. E essa raiva não tem a ver com os homens do agora, tem a ver com os homens daquela tarde de sábado da minha infância.  

Encerrar essas memórias do passado é uma forma de curar o presente. É dar a elas a oportunidade para que se concluam. 

A coisa é simples. Basta visualizar o desfecho que você gostaria. 

Nessa memória que te contei, cada vez eu encerro a cena de um jeito diferente. Às vezes é mais light: assim que eles dizem “Princesa”, eu digo “Não fala assim comigo”, curta e grossa. Em outras vezes, eu sou mais raivosa, quebro as garrafas e dou uma boa surra de socos e chutes neles. Preciso admitir, é uma delícia. Daqui a pouco, essa energia e essas emoções todas já estarão liberadas e quando eu voltar a essa memória, vou me sentir neutra, como se um filme passasse pelos meus olhos. Não estarei mais identificada com essas emoções. 

É que, ao encerrar as memórias, não tem certo ou errado, bonito ou feio, tem a minha emoção sendo expressada por inteiro, por completo, autenticamente, sem filtros. A memória pede encerramento, pede desfecho. E enquanto não damos o desfecho que mais vai fazer nossas emoções serem liberadas, qualquer que seja a forma, as situações de dia a dia continuarão acessando as emoções provocadas por aquele momento de história que se congelou dentro de nós. 

Podemos ir a qualquer memória. Momentos de dor na infância, uma briga na adolescência, uma discussão no fim de um relacionamento, um desentendimento com uma amiga, um ressentimento com nossos pais… Ou a momentos também de alegria, como um dia no parque, uma manhã abraçada com o seu amado, uma viagem tão querida. Sobre as lembranças de alegria, podemos voltar até elas, acessar nossas emoções e revivê-las por inteiro, dando ainda mais saltos de alegria e felicidade, expressando ainda mais o quanto aquele momento foi especial para nós. Sobre as lembranças de dor, extravase. Eu libero com tudo as emoções que me habitam e isso é muito bom, é uma sensação maravilhosa.

Antes eu até ficava com receio de voltar para o presente mais agressiva, mais raivosa, mais irritada, mais maldosa, mas o próprio Osho me tranquilizou sobre isso. Não vai acontecer, você volta mais leve, mais presente, mais por inteiro. É o contrário, você libera e liberta a raiva, a irritação, a agressividade, a maldade.

Hoje, enquanto lia o novo livro de Albert Espinosa, olha que presente de citação chegou pra mim, bem em manhã que eu estava para escrever sobre as memórias…

“Se você me chamar eu largo tudo, mas por favor me chame”, ele dizia em uma de suas citações sobre a memória. 

“O melhor das lembranças é que se pode voltar a elas quando se quer. Ninguém pode roubar isso de você nem impedi-lo. 

Talvez o que mais me cause impacto é que, sempre que você volta, a lembrança é diferente. 

E, se a lembrança é diferente, acabamos sendo também, porque em nós estão suas raízes, e, se as raízes mudam, o tronco também mudará…”

É bem isso. E é bem lindo podermos rememorar, voltar às lembranças, acessá-las e dar o desfecho que gostaríamos. Liberamos assim energias, liberamos crenças, liberamos emoções. Depois, como num piscar de olhos, estamos de volta ao agora, mais leves, mais limpos, mais presentes. 

Eu selecionei uma meditação guiada que faz parte do meu curso online Espírito Selvagem 2. Dar Vida e Voz à Essência, um curso para mulheres, que te guia nesse exercício de cura e encerramento das memórias. Essa é uma meditação que pode ser feita por homens e mulheres, pode ser feita quantas vezes desejar. Seguindo os ensinamentos do Osho, poderíamos fazer todas as noites antes de dormir. Aqui está, nesse link, o acesso à meditação. Clique para acessar. 

Uma bela semana para nós. 

Paula Quintão

30 de outubro de 2016

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Author

Paula Quintão é escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU. "De passo em passo eu desvendo um mundo dentro e fora de mim".

  • Rico Oliveira

    Grato por mais uma partilha de conteúdo na veia. Que a morada de nossas memóriaa nos receba pra um café, um chá. ..quem sabe com biscoitos 😊☺ …E que voltemos de lá mais leves e felizes. Uma ótima semana a todos.

  • Suzy Lapa

    Quanto amor nessas suas palavras Paula. Eu precisava ler isso. Eu e um montão de gente, mas eu acredito nas sincronicidades da vida e sei que esse texto tem muito pra mim. Gratidão.

  • https://www.facebook.com/andreluispio.sa?fref=ts André Luis Pio D’Anunzio

    Estou exatamente NESTE MOMENTO, querida Paula!
    – GRATIDÃO mais uma vez, por sua iluminadas dicas…
    Só agora percebi o quanto preciso curar minhas memórias, para dar meus próximos passos.
    Você já havia me falado sobre o assunto há tempos atrás, mas só agora percebi o quanto isto é fundamental para o meu essencial – estou neste caminho há alguns dias, desde que Vc me recomendou o workshop da Ariane…fiz contato com algumas memórias muito fortes que me provocaram até dor física, ma persisisti, olhando-as de frente e me harmonizando intimamente… os resultados começaram a aparecer no mesmo dia!
    Não consegui concluir este workshop pois saiu do ar, mas seu texto e suas dicas me ajudarão a concluir este processo, para dar os passos seguintes da minha “próxima 1/2 de século”!

  • Anielly Rosa

    Que texto maravilhoso Paula, simples, leve e expressa muito amor e entrega.Gratidão por compartilhar, vou levar este exercício para minha vida <3