Na época da infância e adolescência convivi com meus pais prestando, dentro de nossas casas, um serviço que era um tanto fascinante: eles produziam material didático para uma escola. Minha mãe por muitos anos fez serviço de digitação e chegavam manuscritos e mais manuscritos para que ela, em sua antiga máquina de escrever Olivetti, transformasse, quase que por um milagre, aquelas letras tão feias em uma bela orquestra estética. Esse serviço evoluiu para o computador num momento e as impressoras matriciais tomaram conta de um dos quartos da casa… e o som que emitiam tomou conta de tudo. Ainda consigo simular em meu imaginário o vai e vem da impressora e o barulho que o papel contínuo fazia ao ser puxado da caixa.

E uma vez mais o serviço deu um salto quântico quando chegaram as máquinas copiadoras da xerox e da ricoh. Nessa época a coisa estava muito mais intensa e eu e minha irmã quase sempre ajudávamos em alguma das etapas do negócio.

Uma das tarefas que eram necessárias naquela época, porque ainda não tínhamos a maravilhosa e igualmente mágica colecionadora de papéis, era fazer nós mesmos, manualmente, o serviço de colecionar página a página as apostilas que depois seriam entregues aos alunos.

Talvez você consiga visualizar aí. Imagine uma apostila com 20 páginas, e umas 500 cópias de cada uma dessas páginas… Só que cada página é um monte de 500 folhas e precisamos montar uma apostila que tenha a página 1, a 2, a 3, a 4… e por aí vai… até a 20.

Muito simples, meu caro leitor… colocávamos na mesa os montes que cabiam e começávamos um serviço que era… pegar a página 1, depois juntar a página 2, depois a página 3, depois a página 4, depois a 5… e por aí vai até completar da página 1 até a página 20.

Éramos colecionadores. Olhando isso agora senti poesia. E isso, como você também pode imaginar, levava horas e horas e horas e horas de trabalho.

E nessas “horas e horas e horas” conversámos bastante. Era uma boa atividade juntos, ficou registrada assim na minha memória.

Acontece que havia um ponto crucial nessa história, que era o momento de grampear ou de encadernar a tal apostila formada. E eu me preocupava um tanto para não aprontar alguma bobagem naquele momento tão importante, afinal de contas se o chato do grampeador desse aquela clássica engasgada, as folhas iam ficar com aquele furo feio e eu de fato sentia pena do aluno que receberia a sua apostila assim.

Meu pai tinha uma frase clássica para todas as vezes que eu suspirava de irritação com o grampeador falseante… “Não é olho de santo, Paula”.

Aquela fala dava um alívio. E eu seguia para a próxima apostila. E para a próxima, e para a próxima, e para a próxima.

Aquela expressão, dita tantas e tantas vezes pelo meu pai, foi muito libertadora. E levei tempo até perceber conscientemente que todos os dias, em quase tudo o que eu faço, eu repito para mim mesma “Não é olho de santo, Paula”. Ainda mais no meu negócio.

Você bem sabe, meu leitor, que quando começamos a cuidar de qualquer coisa que seja importante para nós, podemos ficar ali horas, dias, meses, séculos e milênios… a coisa pode sempre ficar melhor, sempre ganhar um brilho a mais, um aperfeiçoamento aqui ou acolá. Cada um dos meus textos, cada um dos meus cursos, cada um dos meus atendimentos, cada uma das minhas linhas de dissertação ou de tese, cada um dos meus passos… a coisa sempre pode ficar mais impecável.

Acontece que não dá. Uma hora temos que bater o martelo e dizer a nós mesmos “Não é olho de santo” e seguir em frente aceitando as imperfeições, relevando o que não ficou tão bom assim, aceitando que há um limite entre fazer o nosso melhor e fazer o nosso possível. Assim as coisas podem fluir mais, porque não ficamos ali presos na tensão de deixar perfeito, não ficamos ali presos no martírio de querer estar 100% pronto antes de entregar ao mundo, não ficamos encurralados em nossa própria mente receosa de receber uma crítica por todas as imperfeições que existem.

“Não é olho de santo”, hoje te digo eu. As imperfeições são um caráter da existência, está tudo perfeito assim mesmo. Podemos então respirar fundo, trocar o grampo, grampear de novo e seguir para a próxima. Eis aí uma bela sabedoria.

Paula Quintão

09 de julho de 2017

Author

Paula Quintão é escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU. "De passo em passo eu desvendo um mundo dentro e fora de mim".

  • Rafaela S.

    Paula, querida… cada célula minha celebra nesse momento essa sua sábia partilha de hoje!

    Creio ser esse um exercício dos mais necessários ao trilharmos nossas jornadas, desapegar das pressões que vamos impondo a nós próprios permite expressar melhor nossos talentos e habilidades inclusive. E, assim, fluir com mais leveza e confiança.

    Gratidão por dividir seus aprendizados e inspirar os domingos com tanta delicadeza!

    Boa semana! 🙏🏻✨💐

  • Rosimeire Lima

    Linda lição! Aqui em casa sofro muito com isto!
    Sem críticas, mas marido quer fazer tudo com a exatidão de um relojoeiro, e eu não tenho tanto tempo a esperar o perfeito. Sou multi e faço tudo junto e misturado, e fica tudo perfeitinho. É a prática!
    Com este texto me lembrei de um dos meu primeiros empregos em uma multinacional, cuidava de todos os materiais para treinamento, e montava apostilas assim como você. O grampeador que eu usava era bem robusto, e dava para grampear muitas páginas. Ia para a sala de treinamento e me esparramava em cima das mesas.Às vezes passava uma manhã toda fazendo isto!