Há alguns meses, numa conversa dessas que nos esquecemos do tempo com minha amiga Elisa, ela me trouxe uma percepção que foi valiosíssima. Na época estava ela lendo um livro que falava sobre a procrastinação e o autor dizia que deveríamos é agradecer à procrastinação porque ela muitas vezes poderia estar nos salvando de algo.

Entendo o tempo como uma riqueza. E por anos e anos entendi a procrastinação, esse deixar para depois o que se pode fazer hoje, como um grande mal. Também a preguiça, essa sensação de total falta de energia diante do que se há para fazer, como uma peça terrível da engrenagem. E de uns anos para cá essa minha percepção foi se transformando, até que com a deixa da Elisa, meu olhar se expandiu.

Fomos tão treinados pela cultura do fazer e da construção, que o procrastinar pode ter se transformado no mal do século. Lado a lado com a preguiça, que passou a ser entendida como tão vergonhosa que até deixamos de falar sobre ela.

Hoje há por aí um tanto de cursos para deixarmos a procrastinação de lado e nos livrarmos dela de uma vez por todas. Acontece que essa procrastinação, ou essa preguiça, ou essa falta de vontade de fazer aquilo que você sabe ser essencial para você, está tentando te contar uma história.

Os sentimentos, todos eles, estão a nos contar alguma história. Ou pelo menos tentando.

Se vamos ouvir ou não, aí é o outro lado da moeda.

Se nos dermos a oportunidade de ouvir do que se trata, temos aí uma linda e poderosa ferramenta de autoconhecimento e transformação à nossa disposição. Hoje sei que os sentimentos são os principais canais para que eu experimente a realidade e para que eu me conheça em profundidade. Porque se sinto uma alegria, há por trás alguma história que eu me conto que me fez sentir felicidade. E se sinto raiva, há por trás dela alguma memória ativa que me fez entender os elementos daquele contexto como um motivo para ter raiva. E assim para cada emoção experimentada, há uma parte de mim a aplaudir e dizer “é isso aí!” ou outra parte a dizer “não, não, isso não posso aceitar”. Partes que às vezes falam ao mesmo tempo, inclusive. Como quando você está no sofá, bem entregue an netflix com um belo projeto te esperando na mesa de trabalho a ser desenvolvido, e uma parte diz “é isso aí, se permita, você merece esse descanso” e outra diz “não, não, assim você não sai do lugar, vai lá fazer seu trabalho”. E por trás desses “se permita” e “vai lá”, há um mundo a ser explorado, uma exploração que só pode ser feita por nós mesmos, quando assim o desejarmos.

Enquanto isso, as emoções continuam a bater na nossa porta até que seja possível ouvir. E enquanto não é, as mesmas situações precisam se repetir para que as mesmas emoções sejam ativadas. Ou seja, você está imerso em um círculo de padrões repetitivos, que tem como o único objetivo te fazer, uma hora ou outra, quando você preferir, parar para ouvir a história que aquelas emoções desejam tanto te contar.

Ao parar para ouvir, estamos honrando as emoções e os fatos que as trouxeram. Só assim podemos viver profundas transformações…. primeiro de nós mesmos, depois das emoções e depois das situações vividas. E a mágica acontece bem diante dos nossos olhos.

E ouvir a história por trás da emoção pode ser muito simples, bem mais simples do que pensamos. Daqui eu me vejo com meu lápis e caderno nas mãos a perguntar “o que há aí por trás, emoção?”, e escrevo, escrevo, escrevo e escrevo. Descubro um mundo. Ou poderia ser gravando um áudio nesses nossos aparelhos de celular que fazem isso. Ou poderia ser gravando um vídeo. Ou poderia ser numa conversa em voz alta, eu e a minha procrastinação. Quão libertador é esse momento.

Se eu nego a procrastinação, ela precisa de mais força ou de outros instrumentos mais fortes ainda ainda para que eu finalmente ouça a história que ela tem para me contar. Histórias que são partes de nós e que ao serem ouvidas nos liberam para estar cada vez mais presentes no aqui e no agora, vivendo o que há para viver no presente, a coisa pela coisa, enfim. E por trás de todas as histórias, às vezes tão evitadas por nós mesmos por puro medo de nos olhar e descobrir o que nos aguarda nas profundidades do nosso ser, está o amor, como lindamente me ensinou a constelação familiar.

Daqui sigo a explorar. Olhando cada procrastinação como um instrumento para descobrir mais sobre mim, cada preguiça, cada raiva, cada irritação, cada ansiedade, cada medo… sentimentos valiosos e cheios de vida cheios de amor a querer me contar alguma história sobre mim mesma.

Nesse caminho, me descubro, me transformo e me ilumino.

Paula Quintão

29 de janeiro de 2017

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Autor

Paula Quintão é escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU. "De passo em passo eu desvendo um mundo dentro e fora de mim".

  • Rico Oliveira

    Esse olhar quase cirúrgico da Paula pelas entranhas da alma me encanta!
    Se você não é uma máquina, PERMITA-SE procrastinar. Aproveite estas dicas valiosas, pare de se cobrar e siga FELIZ.

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Permitir-se é a chave para transformarmos muitas coisas em nós. A chave para os sentimentos serem ouvidos e, como bem merecem, sentidos.

  • Fernanda Fonseca

    Ótimo texto! Sempre nossa verdade interior que quer nos mostrar algo! Gratidão!

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Sempre! E quando insistimos em ignorar, ela vai tentando deixar mais e mais claro. Tudo bem didático pra que avancemos a lição.