Quando estive pela primeira vez em Londres, na saída de um dos metrôs, tive a alegria de ter minha atenção capturada por uma cena… uma mãe estava com suas duas filhas, pequenas elas. As duas tinham um patinete, pelo jeito voltavam da escola. E uma das meninas tirou o sapato e colocava no pé da outra. Elas riam entre elas trocando os sapatos bem no meio da logística de volta à casa. Definitivamente não era o melhor momento para fazerem a brincadeira, bem no meio do trajeto de volta pra casa e bem em frente à saída do metrô.

Mas aquela mãe estava tão calma. Ela observava a brincadeira, tranquilamente esperava que terminassem, dava tempo às meninas, e, como mágica as pequenas se resolveram com os sapatos trocados e seguiram as três, mãe e filhotinhas, seu caminho.

Aquela cena me tocou tanto porque como mãe eu teria apressado a Clara, como Paula eu teria apressado a mim mesma se estivesse em logística para algum lugar. Aquela mãe se tornou uma inspiração pra mim, ela virou um ponto iluminado em minha memória e me ajuda ainda hoje tantas e tantas vezes a acalmar meu ritmo.

Acontece que por causa dessa cena e de outras que fui recortando em Londres pelos seus parques, pelos seus cafés, pelos restaurantes, pelo tempo que lá estive, a cidade ganhou pra mim o título de calma e tranquila. Ou seja, por onde eu ia eu contava que Londres era uma cidade de pessoas muito em paz, super calma.

Quando fui ao Caminho de Santiago poucos meses depois dessa primeira ida a Londres, num dos jantares eu estava na mesa com uma londrina que se tornou uma amiga querida e não resisti de contar a ela que eu tinha achado a cidade tranquila, uma magia e coisa e tal.

Ela me olhou com uma cara de “como assim, Paula?!”. Rimos um tanto e o veredicto dela é que eu estava em outra cidade que não era Londres.

Não… eu estava mesmo em Londres. Na Londres que meus olhos e minha experiência recortaram.

Há muitas cidades dentro de uma cidade, há muitas situações e lados dentro de uma mesma situação.

E assim para tudo na vida.

Há sempre vários lados e o lado que você está enxergando é o lado que seus olhos foram capazes de ver, que seus olhos selecionaram para ver.

Num mesmo contexto, podemos enxergar por mais de um lado, sempre.

E que quisermos enxergar de outra forma, é como cambiar as lentes, trocar os óculos, e selecionar outras formas de entender e olhar aquela realidade.

Quando estive outras vezes em Londres eu fui capaz de perceber a Londres agitada que minha amiga de Caminho de Santiago me disse existir, e continuei também a perceber a Londres de calmarias, de trocar o sapatos numa brincadeira sem pressa no meio da rua, de parques cheios em uma manhã ensolarada de quarta. Eu recorto a realidade. E quando a narro para mim ou para o outro, é sempre de um lugar de recorte que estou falando.

Assim é a coisa, somos equipados com lentes autoajustáveis permitindo manejar o que há fora de nós com base naquilo que sentimos dentro. Um aparato genial de recortar a realidade.

Paula Quintão

30 de abril de 2017

Author

Paula Quintão é escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU. "De passo em passo eu desvendo um mundo dentro e fora de mim".