“Mas a esperança é sempre mais teimosa do que eu”. Fabrício Carpinejar

Tocaram o interfone, era o moço da entrega. “Dona Paula, é seu forno”. Precisaram usar a escada, não cabia no elevador. O forno industrial ocupava metade da cozinha do apartamento diminuto que eu e a Clara morávamos em Manaus. Era como um lembrete, como essas fitas vermelhas que amarramos no dedo, para a minha urgência em “dar um jeito” na minha vida profissional. 

Basicamente eu estava em sofrimento. Pode parecer um exagero olhando de fora, mas era sofrimento pra mim. Dos piores. De segunda à sexta eu oscilava em emoções que iam do desespero e angústia total da segunda de manhã, esperança reinante da quarta e estado de felicidade plena desde o amanhecer da sexta. 

Domingo meu martírio começava logo pelo meio-dia. Uma dor no coração, um aperto no peito, uma vontade de deitar no sofá e as horas durarem uma eternidade. “Descanse em paz”, uma voz meio mórbida dizia dentro de mim assim que eu almoçava e deitava no sofá desejando a eternidade. 

Havia algo errado com minha carreira, eu sabia disso. O cenário não era de guerra e eu buscava dentro de mim as respostas para me sentir tão mal, tão mal, tão mal com meu trabalho. 

Levei cerca de um ano e meio, quase dois anos, entre planos de fuga e criação de mirabolantes estratégias de alternativas desejando criar caminhos para gerar a renda que eu precisava e a rotina que eu sonhava. Eu suspirava todas as vezes que ouvia uma história inspiradora, suspirava profundamente e desejava, do fundo do meu coração, que algo assim pudesse se realizar na minha vida. 

papoulices

E entre os planos mirabolantes, estava ele: o forno industrial. Decidi criar a “Papoulices, Delícias Artesanais”, o nome era ótimo, as delícias nem tanto. Tinha logomarca, etiqueta e cartão de visita. E para além do forno, tinha uma dezena de formas e algumas milhares de embalagens. Comprei logo um monte, tinha esperança plena de que pelos meus doces (um tanto açucarados) eu poderia também ter uma vida mais adocicada nas segundas de manhã tanto quanto nas sextas. 

Fui pra feira, coloquei a banca, virei feirante em Manaus por alguns dias. Meu pai pelo telefone me perguntava “Minha filha, essa linha do Equador só pode ter feito mal para o seu cérebro”. E eu só queria ser livre, eu só queria um domingo sem angústias. Será que era pedir muito?

E como eu disse, pode parecer exagero para quem olha de fora, mas é realmente muito difícil, muito pesado, muito dramático viver uma insatisfação profissional. Ou uma insatisfação profunda em qualquer que seja a área da nossa vida. Nossa natureza não é o sofrimento, não é a angústia. “Tem que existir solução para isso”, eu pedia aos céus uma notícia. Trabalho e felicidade eram duas categorias inconciliáveis para mim. 

Naquele momento eu apostava na feira. “Vai dar certo!”. Mas foram necessários poucos dias para eu descobrir que não seria aquele o caminho. Eu até superaria o fato de meus bolos e biscoitos não serem tão gostosos assim, ficariam melhores com o tempo, mas descobri que substituiria uma angústia por outra: eu não me sentia bem concorrendo com a Dona Maria que vinha de longe, muito longe, dessas estradas, rios e igarapés do interior do Amazonas. Ela e seus bolos e doces, tão mais ou menos quanto os meus, levavam muito tempo até chegar na banca e eu sabia que quem comprasse bolo de mim não compraria dela. Não naquela semana. 

“Paula, vivemos no capitalismo, não é bem o que eu queria, mas as coisas são assim”, dizia meu amigo Eron. “Tem que existir uma solução”, eu continuava pedindo resposta aos céus.  Havia dor nas burocracias do trabalho, e da mesma forma havia dor ao me imaginar concorrendo com a Dona Maria. Ainda não era isso. 

Levei todos os bolos e doces, as centenas, de volta pra casa ainda na caixa imensa que aprontei. Olhei o forno. As embalagens em milheiro. Deitei na minha cama e me afoguei em lágrimas e lágrimas. Vivi 24 horas de “bad total”, usando a gíria que hoje usa minha filha. “Bad total” por não encontrar saída, por não encontrar alternativa, por ter que me render a uma vida e uma rotina que eu não queria, por parecer longe demais o sonho de ter um dia a dia mais liberto com os horários, com a agenda, com o ritmo, com o tipo de obrigação, com o tipo de burocracia, com a força criativa que usava…. eu estava exausta. 

A “bad” durou 24 horas. E para além dela, permaneci por mais um ano nesse mesmo trabalho. O forno industrial, imenso daquele jeito, permaneceu por mais um ano na minha cozinha também. Continuou, por todo esse tempo, me lembrando que eu buscava algo além. E eu não esquecia.

Nesses 365 dias, por 52 vezes, a cada segunda, eu fui pura angústia. E eu fui sofrimento por saber que não estava onde eu precisava estar. 

Hoje, alguns quase 5 anos após minha experiência na feira, eu celebro minha vida profissional e todas as nuances que foram preenchidas em minha vida graças a esse período de sofrimentos, de dores, de busca por soluções, de angústias enfrentadas passo a passo. Celebro o fato de ter encontrado minhas saídas, criado minhas próprias alternativas, confiado nesse caminho e estar hoje imersa numa outra realidade. 

Sempre há um caminho, sei disso. Sempre há um caminho para vivermos uma vida de mais conexão, de mais satisfação e realização, de segundas que não afligem a alma. Desafios eu tenho hoje sim no meu negócio, no meu trabalho, claro. Desafios, horas de cansaço, enfrentamentos, turbulências, claro que tenho, esse é o caráter da própria vida, mas em todos esses anos, não houve uma segunda-feira sequer que sofri por ter que iniciar um trabalho, não houve um domingo sequer que eu me escondi do mundo desejando que as horas durassem para todo o sempre, não houve uma sexta sequer que eu me senti experimentando liberdade condicional. Eu estou livre de segunda a segunda. Hoje e amanhã. E isso vale um mundo, vale uma vida inteira. 

Paula Quintão

11 de setembro de 2016

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Um CONVITE. No dia 01 de outubro, em Belo Horizonte, duas mulheres que admiro super, Alinne Ferreira e Andrea Aguiar, são anfitriãs do evento ESCAPE, um conjunto de palestras e partilhas para mostrar que há sim alternativas para criarmos um caminho profissional feliz de segunda a segunda. E o melhor, o custo de investimento nesse evento é justíssimo. Hoje, ainda pela manhã, gravei um vídeo no quarto do hotel te contando um pouco mais sobre esse evento. Vamos?!

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Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br

  • di monte

    Estou “me lendo” em seu texto e ansiosa pelo momento “livre de segunda a segunda”- dirci

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      E que a vida venha com muita luz para esse momento se concretizar, Dirci.

  • Alinne Ferreira

    Quanta partilha, quanto aprendizado! Realmente o trabalho é dos pilares mais importantes da vida. Ele tem a função de testar nossos talentos, habilidades e pontos fortes. Ele exige que atualizemos nossos traços de personalidade para podermos crescer, nos desenvolver e seguir. Gratidão amada Paula <3

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Semana que vem estamos juntas, Alinne, no palco do seu maravilhoso Escape.

  • Valério Alex Oliveira

    Me vi nesse seu texto… e não é de hoje!

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Que a vida venha com muita luz para seus próximos passos, Valério.

  • Rico Oliveira

    Não é a primeira vez que leio esta história de parte importante da sua bela vida, Paula. E mais uma vez me emociono e me inspiro. Parabéns pela garra e perseverança. É uma honra desfrutar de seus textos e gravitar em torno de seus ensinamentos. Grande abraço. Rico Oliveira.

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Gratidão é minha por sua presença, Rico.