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Caminho de Santiago

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Algumas cenas da minha vida são tão nítidas na minha memória que é como se eu tivesse feito um filme delas. Hoje sinto de escrever sobre um momento que passou pelos meus olhos em meu Caminho de Santiago e que faz parte do meu livro O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017), em breve em lançamento.

Quero contar de uma lembrança e de como a minha alma foi capaz de fotografar aquele momento, absorver por completo cada pedacinho do que eu vivia.

Eu já estava me aproximando do final da minha peregrinação. Ainda não sabia que no dia seguinte eu estaria em Santiago de Compostela. E sob o sol que apareceu depois da chuva, aquele homem cuidava do seu cavalo,  amaciava seu pelo, brincava em chamegos, passava a escova nos pelos com suavidade e se fundiam um ao outro.

Assim que meus olhos viram aquela cena eu parei. Diminui meus passos até que parei completamente pelo Caminho. Como havia beleza, como havia amor, como havia sensibilidade…

Caminhava há 10 dias e meu corpo seguia bem. Quando comecei o Caminho de Santiago, mesmo sabendo que diante de mim estavam 800km a percorrer (ou quase 900km, caso eu resolvesse ir até Finesterre), toda essa distância não me deixava preocupada. Aprendi que a vida é mesmo esse um passo depois do outro.

Fui bem consciente de que com o passar dos dias meu corpo se sentiria ainda mais habituado a caminhar, caminhar e caminhar.

“É lá pelo décimo dia que seu corpo entra num estado de aceitação e tudo fica melhor”, um amigo me falou antes mesmo da minha partida.

Acontece que exatamente no décimo dia, uma dor terrível se instalou na minha perna. Talvez por causa da mochila pesada demais, talvez por causa da noite mal dormida… não sei o que houve. Mas de um minuto para o outro eu perdi o movimento de uma das pernas. Dor, dor, dor. Comecei a andar quase me arrastando.

Meu plano ainda era caminhar mais 12km aquele dia. O que se tornou impossível. Completei os 2km que me distanciavam do próximo lugarejo com muita dificuldade, andando muito lentamente, até que finalmente cheguei.

 

Quando desci a montanha enxergando Santiago de Compostela em meu horizonte meus olhos mal podiam acreditar no que estava bem diante de mim. “Eu estou aqui, não acredito!”. A história toda merece um livro. As últimas 24 horas merecem uma crônica especial e nos próximos dias escreverei e escreverei.

Mas hoje, enquanto todas as emoções vão encontrando espaço e um canto dentro de mim, quero falar sobre nossa caminhada de vida. O Caminho de Santiago nada mais é que uma grande metáfora de nossas vidas cotidianas. Somos todos peregrinos. Cada um com suas escolhas, fazendo o seu melhor a cada dia, na medida do que é possível para nós.

Um caminho que não tem certo ou errado, que não tem bom ou ruim, que não tem bonito ou feio. O que há é um constante escolher e seguir, seguir e escolher, escolher e seguir, seguir e escolher. Assim é a vida.

Centenas e centenas de quilômetros, dezenas de dias, horas e horas sob o sol e sob a chuva, noites bem dormidas e noites muito mal dormidas, banhos frios e banhos quentes, comidas acolhedoras, muita água e um passo após o outro.

Eu estava em Santiago. E então estava em Finesterre. E então estou aqui. A jornada não tem fim. Tudo é passagem. Escolhemos um marco ou outro sobre onde queremos estar, e quando estamos lá podemos nos sentar por um instante, respirar fundo, mas só nos resta seguir. A vida é um constante seguir. Os topos da vida, aqueles pontos de conquista, não são moradas para permanecermos neles. Assim como os grandes momentos de fundo do poço são só de passagem. Tudo é passagem.

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O caminho não é feito de quantos passos damos. Ou de quantos quilômetros percorremos. Ou de quanto tempo levamos para chegar. O caminho não é feito pela nossa idade, pelos nossos anos vividos, por quanto temos, por quanto gastamos, por quanto ganhamos.

O caminho é feito pelas experiências, pelos encontros e aprendizados, pelas trocas e partilhas, pelo que acumulamos internamente, pelas memórias e lembranças que cultivamos, pelo que deixamos para trás, pelo que colhemos e nos transformou.

O caminho de Santiago, assim como o caminho da vida, é um seguir em frente constante, é um refazer as malas todos os dias, é estar só com o que é essencial e deixar para trás o que não precisamos mais, é um estar aqui e agora, é encontrar pessoas lindas, únicas e especiais, viver com elas o mais profundo encontro de almas e nos despedirmos sem sequer saber o nome. Nessas horas em que as pessoas seguem seus caminhos, coração aperta, mas lembramos que a vida é um deixar ir.

Hoje sou só emoção. Mas uma emoção não por ter chegado em Santiago apenas, não só por ter concluído essa jornada. É um belo momento e daqui, por dentro, estou em celebração. Mas minha emoção e meu profundo estado de sensibilidade é pela beleza que é essa nossa existência humana, tão finita que é, tão passageira que é… a beleza de cada dia que temos para viver exatamente como queremos, para sermos nossa verdade, para fazermos nossas escolhas e para termos a oportunidade de partilhar com um e outro pequenos momentos.

Seguimos.

Paula Quintão.

18 de outubro de 2015

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