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Viagens de Transformação

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Para hoje, me permito trazer como texto de domingo escritos que publiquei há alguns meses no correio para meus leitores e no meu facebook. É um texto pelo qual tenho muito carinho. Naquele momento eu estava seguindo rumo a Santiago de Compostela, a caminhar meus 800km em 36 dias. Foi uma longa jornada e por lá eu descobri que o Caminho de Santiago nada mais é do que uma grande metáfora da vida real: nós com nossas metas (nossos muitos Santiagos), nossos passos dados, nossa intuição, nossa vontade de seguir em frente quando o destino ainda está iluminado.

O que nos faz continuar seguindo rumo a nossos sonhos?

Aprendi muito sobre persistência. Aprendi principalmente que persistir não tem a ver com ir em frente custe o que custar, mas sim ir em frente rumo ao que está iluminado para nós. E que quando essa luz se apaga, por que ficamos insistindo em seguir naquele rumo?! Mudar de rumos não tem a ver com desistir, a vida me ensinou e graças a isso tirou quilos e quilos de peso das minhas costas.

Vamos ao meu texto de 07 de outubro desse 2015.

Caminhava há 10 dias e meu corpo seguia bem. Quando comecei o Caminho de Santiago, mesmo sabendo que diante de mim estavam 800km a percorrer (ou quase 900km, caso eu resolvesse ir até Finesterre), toda essa distância não me deixava preocupada. Aprendi que a vida é mesmo esse um passo depois do outro.

Fui bem consciente de que com o passar dos dias meu corpo se sentiria ainda mais habituado a caminhar, caminhar e caminhar.

“É lá pelo décimo dia que seu corpo entra num estado de aceitação e tudo fica melhor”, um amigo me falou antes mesmo da minha partida.

Acontece que exatamente no décimo dia, uma dor terrível se instalou na minha perna. Talvez por causa da mochila pesada demais, talvez por causa da noite mal dormida… não sei o que houve. Mas de um minuto para o outro eu perdi o movimento de uma das pernas. Dor, dor, dor. Comecei a andar quase me arrastando.

Meu plano ainda era caminhar mais 12km aquele dia. O que se tornou impossível. Completei os 2km que me distanciavam do próximo lugarejo com muita dificuldade, andando muito lentamente, até que finalmente cheguei.

 

Quando desci a montanha enxergando Santiago de Compostela em meu horizonte meus olhos mal podiam acreditar no que estava bem diante de mim. “Eu estou aqui, não acredito!”. A história toda merece um livro. As últimas 24 horas merecem uma crônica especial e nos próximos dias escreverei e escreverei.

Mas hoje, enquanto todas as emoções vão encontrando espaço e um canto dentro de mim, quero falar sobre nossa caminhada de vida. O Caminho de Santiago nada mais é que uma grande metáfora de nossas vidas cotidianas. Somos todos peregrinos. Cada um com suas escolhas, fazendo o seu melhor a cada dia, na medida do que é possível para nós.

Um caminho que não tem certo ou errado, que não tem bom ou ruim, que não tem bonito ou feio. O que há é um constante escolher e seguir, seguir e escolher, escolher e seguir, seguir e escolher. Assim é a vida.

Centenas e centenas de quilômetros, dezenas de dias, horas e horas sob o sol e sob a chuva, noites bem dormidas e noites muito mal dormidas, banhos frios e banhos quentes, comidas acolhedoras, muita água e um passo após o outro.

Eu estava em Santiago. E então estava em Finesterre. E então estou aqui. A jornada não tem fim. Tudo é passagem. Escolhemos um marco ou outro sobre onde queremos estar, e quando estamos lá podemos nos sentar por um instante, respirar fundo, mas só nos resta seguir. A vida é um constante seguir. Os topos da vida, aqueles pontos de conquista, não são moradas para permanecermos neles. Assim como os grandes momentos de fundo do poço são só de passagem. Tudo é passagem.

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O caminho não é feito de quantos passos damos. Ou de quantos quilômetros percorremos. Ou de quanto tempo levamos para chegar. O caminho não é feito pela nossa idade, pelos nossos anos vividos, por quanto temos, por quanto gastamos, por quanto ganhamos.

O caminho é feito pelas experiências, pelos encontros e aprendizados, pelas trocas e partilhas, pelo que acumulamos internamente, pelas memórias e lembranças que cultivamos, pelo que deixamos para trás, pelo que colhemos e nos transformou.

O caminho de Santiago, assim como o caminho da vida, é um seguir em frente constante, é um refazer as malas todos os dias, é estar só com o que é essencial e deixar para trás o que não precisamos mais, é um estar aqui e agora, é encontrar pessoas lindas, únicas e especiais, viver com elas o mais profundo encontro de almas e nos despedirmos sem sequer saber o nome. Nessas horas em que as pessoas seguem seus caminhos, coração aperta, mas lembramos que a vida é um deixar ir.

Hoje sou só emoção. Mas uma emoção não por ter chegado em Santiago apenas, não só por ter concluído essa jornada. É um belo momento e daqui, por dentro, estou em celebração. Mas minha emoção e meu profundo estado de sensibilidade é pela beleza que é essa nossa existência humana, tão finita que é, tão passageira que é… a beleza de cada dia que temos para viver exatamente como queremos, para sermos nossa verdade, para fazermos nossas escolhas e para termos a oportunidade de partilhar com um e outro pequenos momentos.

Seguimos.

Paula Quintão.

18 de outubro de 2015

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Independente de qual seja a nossa crença, algo é certo: somos seres finitos a percorrer essa vida, tal como ela é, por um breve intervalo no tempo. Um intervalo que começa no momento em que nascemos e termina ao nos despedirmos dessa existência

Seguir a vida é transcorrer viagem. A transcorrer viagem vamos aprendendo com cada experiência, despertando com cada desafio, modificando o que sentimos e descobrindo a essência de quem somos. As viagens e peregrinações nada mais são do que uma grande metáfora da vida.

As vivências vão se tornando aprendizados que carregamos na mochila. Por aqui, dentro da minha mochila, tenho minha filha e todos os crescimentos que vieram da maternidade, tenho minhas andanças pelo mundo, tenho os anos que vivi em Manaus, tenho meus dois casamentos, cada qual com suas belezas, com seus inícios, meios e fins, tenho meus passos pelas trilhas, tenho as linhas que escrevo, tenho o mestrado e o doutorado, tenho as pessoas que passam para deixar algo e para me entregar algo também. A vida é um eterno encher e esvaziar a mochila.

Cada experiência vai trazendo um novo aprendizado para ser guardado por nós. A mochila que se enche de experiências e aprendizados não pesa. Pelo contrário. A medida que enche, mais leve fica, porque quanto mais aprendemos, mais nos conhecemos, mais nos transformamos, mais nos curamos e mais nos libertamos do ter para o ser.

E pelos próximos 40 dias vou acrescentar à minha mochila cada um dos meus passos pelos 900km do Caminho de Santiago de Compostela, saindo da França e chegando a Finesterre, onde a Espanha vira mar. Se o divino permitir, assim será. Aprendizados que viram partilhas nessa minha jornada de entregas.

Paula Quintão. Barbacena, 01 de setembro de 2015.

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Domingo é dia de feira. Faça chuva ou faça sol, lá estão os produtores montando suas bancas de bananas, tomates, cebolas e abobrinhas.

Começam bem cedinho e vêm dos mais arredores da cidade. Alguns vêm de kombi, outros de caminhonete, todos com suas caixas cheias.

Ir à feira é viver uma verdadeira aventura de exploração da existência humana. Uma riqueza de experiências e detalhes dignos dos melhores filmes de cinema.

E tem a senhora que foi acompanhada com seu cachorrinho, ela só com uma sacola, mais interessada em olhar os preços do que comprar, ele com seu focinho farejador, mais interessado em explorar do que em seguir com a dona.

O senhor que prepara os churrasquinhos fazendo o cheiro de carne espalhar pelo ar, tipo nos desenhos do Tom e Jerry, e hipnotiza homens e mulheres que fazem fila às 8h da manhã.

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Tem as filosofias sobre relacionamento e sobre as mulheres… sobre ser um homem casado “direito” que fica em casa bebendo cachaça tranquilo, tranquilo… “melhor assim, sô, que não dá problema com a patroa”.

O senhor que vai de mãos dadas com o seu netinho, ele com seus 8 anos ainda não tem dimensão do que é uma feira, mas acompanha com seus olhos atentos cada movimento e cada instrução do seu avô, que conta as pratinhas e entrega na mão do neto para ele pagar o que compraram.

A comadre encontra a comadre, abraços abraços, e tricotam sobre os filhos, os maridos e os trabalhos de casa.