Celebrando o outono que chega. 

 

Eram 6 horas da manhã em Piracanga. Amanhecia. O sol ainda mostrava seus primeiros contornos no céu. Caminhei para a beira do rio, onde eu podia olhar a calmaria de suas águas e ouvir o mar que estava bem ao outro lado da margem, atrás dos bancos de areia.

Não estava em um momento fácil da minha vida. Vivia minha segunda separação e eu poderia chorar rios. Dor, dor, dor. As dores conseguem vir de muitos lugares em situações de dificuldade. Conseguem vir do que foi dito e feriu. Do que não foi dito e ficou aprisionado. Do que foi feito, do que não foi feito. A dor consegue vir de muitas fontes e o coração é capaz de sentir cada uma delas.

Sentei na beira do rio diante do sol que surgia, diante das águas que corriam, diante do mar que ia e vinha, diante dos pássaros que celebravam o amanhecer. Mas eu não estava ali. Eu estava nas dores. Estava no que pedia ajuda dentro de mim. Chorar o que se passa para limpar a alma é uma forma de levar ajuda nesses momentos. E era tudo o que eu podia fazer.

Durante todo aquele dia, durante todos os estudos espirituais que eu fazia, diante de todas as aulas que recebia sobre espiritualidade e vida consciente, eu encontrava dentro de mim um caminho para ressignificar uma dor, para olhar com outro olhar para alguma das experiências que ainda eram como lanças, para transformar o que eu sentia.

Transformar o que sentimos é muito diferente de enfiar toda a sujeira debaixo do tapete. É muito diferente de ignorar a história toda e colocá-lo num lixo portátil que a faça desaparecer. É muito diferente de negar e virar as costas. Transformar o que sentimos é integrar em nós o que vivemos como parte do caminho, preenchendo a escuridão com luz, cuidando das feridas para curar. Só aí nos liberamos para seguir…

Foi um dia que com muito amor e um entendimento profundo das dinâmicas energéticas que me levaram até aquele momento, eu pude deixar ir dores muito profundas.

No dia seguinte, o mesmo despertador das 6 horas me acordou. E eu segui para a beira do rio. E novamente estávamos eu, o rio e suas águas, o mar e seu vai e vem, os pássaros e suas cantorias, o som em contorno macio. Mas foi tão diferente, como se eu estivesse naquele lugar pela primeira vez, como se eu nunca tivesse olhado realmente aquele rio, ouvido aquele mar, sentido aquela areia tocando meus pés, aquele vento contornando meus braços, ou aqueles pássaros em festa no amanhecer.

Respirei fundo. Profundamente. Podia sentir o ar finalmente preencher todo o meu pulmão. Meu peito há muitos meses não se preenchia tão profundamente assim. E eu me inundei de uma sincera felicidade.

Aquelas 24 horas foram muito valiosas para mim. Não foram necessárias só 24 horas para completar meu processo de cura e levar minhas dores… também fiz isso dedicadamente ao longo do meu Caminho de Santiago, alguns meses depois daquela experiência em Piracanga. Vivi e ainda vivo cuidando de feridas que foram surgindo ao longo da minha vida. Mas naquele dia compreendi, num lugar de muita consciência, a importância do transmutar, do ressignificar, do olhar em profundidade e deixar ir a dor até que a experiência pudesse se transformar num verdadeiro agradecimento pela experiência vivida.

Só assim eu encontraria caminho para viver o presente, que é o único que há.

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A felicidade não é um baú que encontramos no final do arco-íris. A felicidade está no tempo presente. Nem no futuro. Nem no passado. É um estar aqui-e-agora sentindo o ar que entra em nós e nos mantém vivos, ouvir o som que nos rodeia, estar em profunda consciência da mágica que é o que somos e vivemos no agora.

Não há felicidade no amanhã. Há felicidade no agora.

E para a felicidade do agora se revelar, para seguir com leveza… só mesmo deixando o que nos aprisiona no passado ir, só mesmo deixando as expectativas do futuro irem também. Integrando as sombras em forma de luz, curando as feridas, transformando os pensamentos e os olhares, só assim, somos capazes de deixar ir o que dói, o que feriu, o que nos impede de viver imersos no presente.

É tempo de deixar ir.

 

Paula Quintão

20 de março de 2016

 

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Author

Paula Quintão é escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU. "De passo em passo eu desvendo um mundo dentro e fora de mim".

  • http://caminhosparavenus.blogspot.com.br/ Nádia Bouzas

    Estou neste tempo de deixar ir… e é uma dor profunda quando se trata de vício em relacionamento tóxico….o tratamento para a cirurgia da alma é demorado e devemos ser pacientes para que a cura aconteça na sua integralidade. Paciência é o que mais atormenta quanto vivemos em nossos pensamentos passados ou sonhos que não serão mais concretizados, e trazer a consciência para o presente é resgatar a si mesmo de um lugar que não existe, apenas ilude. Obrigada pelas suas palavras. Sempre me dão força e sensação que não estou sozinha neste mundão.

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Muita força hoje e sempre em nossos caminhos, Nádia, em nossos processos de cura, de paciência, de amor próprio.

  • Andréa Thomé Netto

    Lindo demais! Também estou num momento de deixar ir… Você sempre maravilhosa para colocar em palavras os sentimentos. Parabéns!
    Só um detalhe: 20 de outubro de 2016. O que será que vai acontecer nesse dia? 😉

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      Andréa, que a vida nos abençoe sempre nos processos de deixar ir. E sim…. acho que eu ainda estava no outono do Caminho de Santiago e tinha certeza que era outubro. =))

  • Fábia Cascone

    Todos os dias temos que avisar o ego que ele precisa largar algo, deixar ir o que dói e não acrescenta, pra sobrar espaço para o que aquece nossa alma… gratidão por seu texto que veio fazendo cócegas no coração!

    • http://www.paulaquintao.com.br/ Paula Quintão

      “Fazendo cócegas no coração”, que coisa mais linda de saber, Fábia! Uma boa semana para nós.

  • Elisa Rodrigues

    Lindo texto, Paula.
    Muito importante integrar o que não é tão bonito, agradável, energizante… Essa negação que gera as nossas sombras, que no fundo só querem ser aceitas como parte nossa da mesma forma que aceitamos nossas qualidades.
    Um beijo enorme!