Dedico à minha mãe

Na viagem ao Atacama eu programei alguns dias para estar no Salar de Uyuni,  um lugar novo pra mim e eu seguia com o coração receptivo às experiências que a Bolívia traria.

A agência de turismo avisou que me buscaria no hotel às 7h e de lá seguiríamos à Bolívia. O guia explicou que tudo na Bolívia seria muito simples e que não encontraríamos nenhum tipo de luxo, mas que seríamos muito bem cuidados pelos motoristas dos 4×4 que fariam o roteiro pelo Salar.

“Eles têm vocação para o serviço”. E era verdade.

O motorista-guia se chamava Valério. E não havia como não se emocionar com aquele boliviano.

Com sutileza ele servia as refeições, nos avisava sobre os tempos dos percursos, checava com delicadeza se estávamos bem, se precisávamos de algo. Não de uma maneira insistente nem de uma maneira treinada, mas de uma maneira dedicada, cheia de cuidado. Ele cuidava porque queria cuidar. Ele servia porque servir é sua forma de vida.

E isso me lembra minha mãe. Eu convivo com seu dom de se doar, de ser gentil, de dar atenção.

Minha mãe é aquela que quando todos estamos, enfim, diante da televisão para assistirmos a um filme juntos, vai até o quarto trazer um travesseiro ou um edredon para que todos se sintam mais confortáveis. É aquela que sempre oferece algo que pode nos facilitar a vida. E ela serve. Serve porque ama servir. Serve porque o seu coração é imenso e ela cuida, se dedica, se doa.

Ontem minha mãe me dizia que ouviu do Mario Sergio Cortella que felicidade é sentir que aquele momento está vibrando em vida e você deseja que aquele instante se eternize para sempre. E me contava que quando ela está na cozinha, preparando algo gostoso para levar à mesa, ela sente toda a felicidade do mundo. E aí está muita beleza. Sim, a beleza da felicidade. Mas além disso, a beleza da felicidade por trás do servir.  Do servir desinteressado, o servir pelo amor ao servir, o fazer a coisa pela coisa. E graças a isso, você estar presente naquele exato instante, naquele exato momento. Nada além do AGORA. Só você e o cuidar, só você o servir, só você e a felicidade.

Sempre ouvi do Prem Baba que se tivéssemos uma hora disponível em nosso dia, melhor seria que essa uma hora fosse para o serviço voluntário do que para a meditação. E hoje consigo completar essa equação graças ao que senti no Salar de Uyuni e ao que meus olhos despertaram sobre a minha mãe.

É no servir que nos encontramos. É no amor ao servir que despertamos o amor por nós e pelo outro. É no servir desinteressado que enfim conseguimos estar presentes, fazendo a coisa pela coisa.

Depois de experimentar esse estado, fica mais fácil estender para tudo na nossa vida. Para o tempo em família, para as atividades profissionais, para os percursos no trânsito, para os momentos com nossos filhos, para o instante em que seus pais contam sobre suas histórias de infância. A coisa pela coisa. O momento pelo momento.

E acontece que todos nós podemos servir de alguma forma, no aqui e no agora.

O servir abre nosso coração. E o nosso coração pode ser mais percebido pelo outro quando servimos.

Não porque queremos que o coração se abra. Ou que o coração seja percebido.

O servir pelo servir, assim, a coisa pela coisa, é capaz de criar suas mágicas por si só.

Paula Quintão
22 de janeiro de 2017

Author

Paula Quintão é escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU. "De passo em passo eu desvendo um mundo dentro e fora de mim".