“Cai”, foi o que disse tranquilamente à minha filha Clara depois que me vi no chão tentando perceber onde estavam meus focos de dor. Minha mão totalmente fora do lugar, doendo, triste de ver. “Clara, quebrei a mão”, ainda calma. Segurei firme como eu pude o punho, reiki e ho’oponopono eu fazia. “Esquenta água pra mim, Clara, faz ho’oponopono, vou precisar ir para o hospital”.

Deitada no chão, eu sentia a dor e tentava organizar um plano de movimento por Barcelona, calculando as providências que precisaria tomar. “Fica calma, está tudo bem, você se senta no sofá e liga para o seguro, pega as orientações e vamos ao hospital”, eu dizia a mim mesma. Um estado de tranquilidade me invadia. Consigo me manter muito calma em situações emergenciais, foi assim também quando capotamos o carro em 2012 ou quando nosso apartamento foi assaltado em 2011. Uma paz me invade e eu me seguro nela com todas as forças pois sei que a paz nos ajuda com a clareza para as providências nesses momentos.

Sentada no sofá, eu só não conseguia olhar minha mão. Estava horrível totalmente fora do lugar. A Clara estava preocupada e fazia também tudo prestativamente. Recebi as orientações sobre o hospital, a Vanessa minha amiga chegou e seguimos de táxi.

E foi nesse ponto em que eu comecei a sentir medo. Medo de que no hospital, sabe-se lá os métodos espanhóis, o procedimento pra colocar minha mão no lugar fosse de muita dor. Náuseas só de imaginar… “Paula, fica no presente, você está no táxi e não tem nada de ruim acontecendo agora”. A dor estava num nível suportável. O taxista percebe meu medo sobre o que me aguardava no hospital. “Diga que você é brasileira, por aqui entre nós espanhóis esse tipo de lesão é resolvida se cortando o braço fora”, rimos todas e logo estávamos lá. 

No hospital, meu nome já estava na recepção da urgência, esperei menos de 5 minutos até que me chamassem. “Pode vir comigo, Paula”, me chamou a enfermeira. Sala 7. “Gosto do 7, me parece boa coisa estar aqui, vai dar tudo certo”, conversei comigo mesma.

E veio a médica. Ela ouviu toda a história sobre o tombo. Com toda delicadeza desamarrou a faixa estampada de cadeirinhas que a Clara amarrou no meu braço. “Hummmm… sim, sim, muito mal”. Fui ao raio x. A mocinha da sala tocava com tanto cuidado no meu punho, mesmo assim eu ainda estava bastante ansiosa sobre como seria colocar aquele punho no lugar. A conversa dentro de mim começou a ficar mais agitada nesse momento… “Vou desmaiar.. ou vou vomitar… não sei… estou mal… ou vomitar ou desmaiar… respira Paula, agora está tudo bem, não antecipa etapa… mas é que vai doer muito, vou desmaiar… talvez desmaiar seja bom, assim eu posso não participar desse momento de excesso de dor”.  

E a mocinha do raio x me chamou umas três vezes até que eu respondesse. “Vamos até a sala”. Chegou a médica, ela e meu raio x. Ela e suas explicações sobre como colocaríamos meu punho no lugar. “Sim, vamos fazer uma anestesia local, você sentiria muita dor.”

Um anjo, pronto, eu estava agora em êxtase de alegria. Levaríamos umas duas horas nesses procedimentos, chamaram a Clara e a Vanessa e combinamos delas darem uma volta pelas redondezas e quando eu terminasse ligaria pra avisar.

Dali em diante eu só senti felicidade. É incrível como e meio a situações caóticas ou que poderíamos chamar de ruins podem haver sentimentos tão lindos de tanta felicidade.

A médica, Anna ela se chama, com toda delicadeza do mundo foi colocando meu punho no lugar, foi me contando sobre como serem as semanas com gesso, foi falando sobre a recuperação. Eu estava totalmente emocionada, muito sensibilizada com tanto afeto e com aquele momento de cuidados. Tirei mais um raio x, dessa vez a mocinha da sala estava sem as tranças, o cabelo solto. 

“Tão bonito seu cabelo”, eu disse.

“Agora você está bem melhor que na primeira vez que viemos, pensei que você fosse desmaiar aquela hora”.

“Eu também”.

A fratura ainda não estava totalmente no lugar. “Vamos à segunda tentativa”, a médica me disse em seu espanhol catalão bem devagar para que eu pudesse compreender o que se passava.

Dessa vez um enfermeiro, tão doce quanto tudo que havia naquele ambiente, veio para ajudar a puxar meus dedos enquanto ela moldava meu punho.

E então, prontinho, meus ossos estavam no lugar.

E eu sentia felicidade.

Enquanto a médica colocava o gesso no meu braço, ela me perguntava de novo como eu tinha me machucado. “Não era para estar arrumando a casa se é seu período de férias”, e eu sorri. Como foi especial tudo aquilo. Logo nos despedimos. Tenho 6 semanas de gesso e sinto por tudo uma sensação das mais deliciosas de felicidade. Experimentei tantas emoções e sentimentos em um espaço tão curto de tempo, uma riqueza para a alma. E de todas as emoções me encanta sentir felicidade em meio ao que poderíamos dizer ser algo “ruim”. Sinto que uma das grande belezas da vida tem a ver com experienciar as emoções que nos habitam, saudando cada uma delas num lugar de presença. O medo, a paz, a tranquilidade, a gratidão, a felicidade. E perceber que em meio ao imprevisto, à dor, ao medo, habita também nuances encantadoras de felicidade.

Felicidade por ficar em paz no caos, felicidade por estar em outro país e tudo correr tão bem no hospital, felicidade pela médica do plantão e por cada uma das doces pessoas que me receberam naquela urgência, felicidade por haver anestesia, por meus amigos que me escreveram com tantos carinhos e cuidados, pela companhia maravilhosa da minha filha e pela amizade da Vanessa em Barcelona, felicidade ganhar banho da minha mãe no retorno ao Brasil, felicidade por haver tanto importar, tanto cuidar, tanto afeto em meio a uma situação que poderia ser considerada ruim e se tornou rica e linda. Maravilhosas nuances de emoções, maravilhosa quanta humanidade pode haver. 

Paula Quintão

27 de novembro de 2016

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Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br

  • Rico Oliveira

    Acho que todos nós, “Pauletes”, por mais que já entendamos sua doçura e espírito leve que habita este seu lindo corpo, Ainda conseguimos nos surpreender com seus atos, querida. Paula Quintão . Que possamos nos surpreender mais e mais. Bjus😍😍😍😍😍

  • Carla Sabrina Melo

    Que a paz esteja sempre repleta também na sua recuperação. Bela experiência, muita gratidão mesmo!!

  • Renato Simão Bessa

    Paula, que cada vez mais consigamos ouvir e discernir o que o nosso Mestre Interior tem a nos mostrar com cada circunstância que nos chega. Desejo muita força e coragem na realização de seus sonhos. Melhoras e que sua recuperação seja breve. Agradeço por já ter me ajudado tanto, mesmo sem saber. Namastê!