Há um ditado oriental que tem os dizeres “incomodou, doeu, toma que é seu”. E basicamente ele quer nos dizer que quando algo mexe com nossas emoções, podemos iniciar uma investigação da alma porque alguma coisa daquela situação está presente em nossa história e em processos que precisamos trabalhar internamente. 

E na última semana vivi um desses momentos “incomodou, doeu, toma que é seu”.  E foi sobre a história do tal desafio misterioso que apareceu no facebook, uma campanha auto-intitulada sigilosa sobre o câncer de mama. 

Vamos ao contexto. 

Tudo começa na minha linha do tempo do facebook. Percebo que algumas mulheres estão postando fotos e na legenda somente havia “Desafio Aceito”. As fotos eram de temáticas variadas, poderiam estar num banco da praça ou somente sorrindo para a câmera, tentei e não encontrei uma linha de raciocínio. Também comecei a ver postagens com a variável Desafio Não Aceito, essas não tinham foto, mas também não diziam do que se tratava. 

Simplesmente não entendi que desafio era aquele e então postei uma pergunta na minha própria linha do tempo sobre o que era, afinal, o tal do desafio.  

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Foi então que começaram, pouco a pouco, a me revelar do que se tratava. Tudo com muito dedo, claro, pois se tratava de uma campanha sigilosa. Uma amiga até enviou por mensagem privada a explicação porque não era permitido sair espalhando a notícia por aí. Se tratava, afinal, de um desafio de “engajamento das mulheres contra o câncer de mama”. E ele se baseava no seguinte. 

Captura de tela 2016-08-28 09.18.00

E essa será a forma de mulheres se sentirem engajadas na luta contra o câncer de mama: uma foto que não fala de câncer de mama, uma legenda que não cita câncer de mama, uma comunicação que não esclarece nada sobre câncer de mama, uns elementos que não têm nada a ver um com o outro, e uma mensagem que só pode ser enviada por inbox contando que é uma campanha sigilosa só para aquelas que se envolvem com a publicação sem lógica. 

Em caixa alta: COMO ASSIM? pois naquele instante uma intensa onda de emoções começou a passar por mim. 

E me incomodou muito a tal história do desafio. E me incomodou pelo fato de eu saber que existe uma dor muito grande, muito grande, na nossa capacidade de comunicação. 

Há uma incapacidade imensa de comunicação em nós. E essa incapacidade provoca muitos tipos de dores e de dificuldades. De dizer o que sentimos. De expressar o que desejamos. De sermos diretos quando queremos tratar algo. De discutir a fundo algo trazendo para a superfície e não empurrando tudo para debaixo do tapete. 

A comunicação, o dizer exatamente o que sentimos, a expressão da nossa verdade, a reivindicação dos nossos direitos, as discussões sobre nossos pontos de vista ainda são pontos muito fracos em nossa relação com o outro. 

Já vivi relacionamentos de muito amor que se esgotaram completamente porque nada era trazido à superfície, tudo ia para debaixo do tapete e lá se acumulava um tanto de demandas não tratadas. E isso é muito triste. Muito triste. 

O própria hábito que percebo em tantas pessoas  de terem que falar mal uns dos outros pelas costas, é a mesma coisa: dificuldade de comunicar diretamente para o outro o que se deseja e, ao invés disso, desenvolver o hábito de saçaricar por aí falando mal de fulano ou de beltrano. A fofoca é uma demanda de comunicação, e já que não há capacidade desenvolvida de ir até o outro e dizer exatamente o que precisa ser dito, com firmeza, gentileza, escolha das palavras com propriedade, cria-se o hábito de “falar mal pelas costas acontece”. 

Muita energia é despendida assim. Tanto ao jogarmos coisas para debaixo do tapete, como na fofoca de cada dia, como no calar e silenciar. Triste. 

Também é muito triste ver um assunto como o câncer de mama, tão importante, tão forte, tão fundamental para ser trazido à superfície, ainda ser tratado como “campanha sigilosa”. E haver energia depositada para que continue sendo sigilosa. 

Se há algo que jamais poderia ser sigiloso é a discussão de uma doença que se manifesta silenciosamente. E uma doença sobretudo da mulher, essa que foi colocada no segundo plano por toda uma história da sociedade. 

É a própria contradição. 

Se é uma doença silenciosa, ela tem que ganhar palco, ganhar outdoor, ganhar capa de revista, ganhar o centro da arena. Mas não ser tratada como campanha sigilosa em que eu tenho que ir perguntar do que se trata para receber alguma resposta. 

E a mulher mais uma vez se comportar como instrumento e meio para que algo essencial em sua vida fique por trás dos cortinas, nos bastidores, nas mensagens privadas, é perpetuar um modelo social em que nossa voz foi retirada, foi suprimida, que foi colocada em segundo plano. 

A coisa só acontece assim ainda porque não descobrimos nosso poder de comunicação, não desenvolvemos capacidade para lidar com todos os meios que nos foram dados para expressar, cada vez com mais firmeza e gentileza, nossa própria voz e nossa própria essência. Somos essa ave de asas imensas que não sabe voar por puro medo de sua própria força. 

Uma campanha de fotos preto e branco em favor do câncer de mama poderia sim ser muito linda. Feita por mulheres como eu e você que querem se expressar, dizendo exatamente o quanto nos mobilizamos para a cura. Mas não uma campanha que se esconde nas mensagens privadas. Não mais uma forma de nos colocarmos nos bastidores. 

Na história da humanidade sofremos todos os tipos de censura. Censura pesada, de haver mortes, prisões, torturas, tudo para que o que precisava ser dito não fosse dito. E na história da mulher, nem se fala, tivemos todos os direitos vetados e foi preciso muita luta, muita fogueira no centro da praça, muita morte e tortura, até que conseguíssemos avançar para os direitos que hoje nos foram concedidos. 

E nada pode ser mais valioso do que honrar os espaços que nos foram liberados, os espaços que precisaram ser conquistados, os espaços que hoje temos. Temos o espaço da expressão, da liberdade de dizer exatamente o que queremos para que todos possam ouvir. 

Acontece que temos os espaços, mas até hoje sofremos o impacto dessas censuras. Temos mil meios de comunicação, temos o facebook nos perguntando o que estamos “O que você gostaria de escrever agora?. Temos espaços gratuitos para publicar artigos, criar nosso próprio blog em 10 minutos. Temos tantas redes sociais, tantos grupos de discussão, toda a parafernália de whatsapp e afins. 

Mas ainda somos muito fraquinhos quando precisamos comunicar algo por inteiro, com profundidade, tocando nos pontos que realmente são sensíveis dentro daquele assunto. 

É facil?! Não, não é fácil. Somos filhos dessa história de censuras e repressões. Somos ainda muito inseguros e despreparados para dizer exatamente o que estamos sentindo e pensando. Estamos ainda desenvolvendo nossa capacidade de expressar, com amor e gentileza, aquilo que se passa pela alma. 

Mas só será possível atravessar essa ponte e mudar essa história quando deixarmos de adotar o comportamento “por debaixo dos panos”, por trás das costas, ou a simples varredura para debaixo do tapete. 

Se é para discutir algo, se é para fazer uma campanha, se é para reivindicar um direito, se é para expressar um sentimento, é tempo de trazer para a superfície, trazer para campo aberto. Chega de varrer tudo para debaixo do tapete. Só assim o outro vai te alcançar, só assim você vai alcançar o outro. É tempo de haver mais pontos e menos espaços do obscuro, da escuridão, do sigilo.  

Paula Quintão

28 de agosto de 2016

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Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br

  • Rico Oliveira

    Excelente texto e análise, Paula! É realmente imprescindível abordar assuntos desta magnitude com coragem e PUBLICIDADE. Não se pode esconder do mundo qualquer discussão que envolva possíveis soluções ou meios e alternativas para se viver melhor. Parabéns por ter mergulhado fundo nesta história. Abraços. Rico.

  • Suzy Lapa

    Paula, você realmente inspira pela análise tão pontual e com tanto coração quanto essa que você fez. Acredito que a campanha no facebook, muitas vezes, perde a real importância, porque as pessoas estão mais preocupadas com as “modinhas” ali lançadas. Muitas pessoas sequer se preocuparam em entender essa campanha “sigilosa”…
    Acredito também que, quando se trata de algo importante, como uma doença que pode afetar tantas mulheres, precisa mesmo que se grite, que haja uma comunicação mais eficaz, mais entendimento sobre ela para que não pareça apenas que, basta colocar uma foto bonitinha em preto e branco e sem explicação, para que haja uma mobilização. No meu ver, falta mais seriedade para algumas coisas (e para muitas pessoas), pois no fim, essa campanha não mobilizou nada.
    Obrigada pelo texto.