Seres livres que somos, crescemos para virar poderosas aves, como um falcão que corta o céu com velocidade ou um gavião de inteligência admirável. Somos flechas e saímos pelo mundo rumo ao nosso ser e nosso viver, era o que meu pai anunciava quando ainda não tínhamos saído do ninho.

Quando bem preparados pelas nossas famílias, ganhamos bons instrumentos para voar. E depois que voamos, tudo muda, afinal. As asas nos dão liberdade e nosso ser se enche de entusiasmo e percorre caminhos que tornam nosso vôo um vôo que é a nossa cara, um vôo cheio de piruetas e estripulias.

Somos então transformados pelos novos mundos e a família ganha então um novo papel.

Vamos ao ninho para contar o que experimentamos com os nossos vôos e não vamos mais para aparar nossas asas ou treinar o que aprendemos quando ainda éramos uma criança, vamos para compartilhar em narrativas bem adjetivadas os percursos por onde passamos e o que vimos de bonito enquanto rodávamos pelos quatro cantos do planeta. Compartilhar…

Pelo mundo afora há uma infinidade de coisas que modificam nosso vôo.  Há outras pessoas, há livros, há filósofos, há ciência, há muitas histórias de vida, há viagens, há intensos períodos de introspecção e reflexão, há dificuldades superadas, há filmes, músicas e danças, há poesia, há amor profundo, há crises, há teses, antíteses e sínteses, há relacionamentos, há coração partido, há uma mente pensante que não para, há as próprias dores, há as alegrias infinitas e as vitórias comemoradas, há tudo novo e diferente.

O vôo, tão bem ensinado quando ainda estávamos na pré-escola, foi aprimorado em outras escolas, ganhou mestrado, doutorado e outros títulos dados pela vida.

Lá está a família, feliz por ter nos dado asas, orgulhosa por tudo o que é possível graças a elas, mas ao mesmo tempo, sem perceber, de ombros caídos, desolada por não mais ser possível ensinar a voar.

Sofre por suas técnicas de vôo não serem mais adotadas. Sofre por não haver mais um aprendiz ávido por uma nova lição. Sofre porque o vôo do filho é mais agitado do que o ensinado, mais cheio de rodopios e intempéries, ou mesmo mais mirabolante e bem elaborado. Sofre porque há diferença.

Crescemos juntos, mas num momento tudo mudou. O mundo nos fez voar diferente um do outro porque para cada um de nós tudo foi diferente. Os caminhos não são os mesmos. E assim não há um só modelo de vôo que se ajuste a todos da mesma forma, não há verdade que sirva para todos ao mesmo tempo, não há lógica que caiba nas vidas com a mesma perfeição, não há boa conduta que seja boa para todos na mesma medida.

Que surpresa, portanto! A diferença, uma riqueza que faz de nós os humanos que somos (tão diferentes!) é brindada e celebrada mil vezes, nunca abatida a tiros em plena praça pública. Que preciosidade nos reunirmos para celebrar as diferenças e semelhanças entre um e outro numa troca amorosa que respeita os saberes, as experiências e os diversos modos de voar.

 

Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br

  • As vezes a nossa forma de voar nos leva para longe de outras pessoas. Mas, se ela são próximas o bastante, seu aroma permanece. Que é pra quando os ventos mudarem de direção e os dois se reencontrarem, se reconheçam…

    • Querido Silas, que os encontros sejam lembrados para sempre por nós. Ás vezes nos afastamos de pessoas, mas não em nosso interior, não em nossa essência. Os melhores vôos podem ser marcados por essas pessoas que se quer estão ao nosso redor.