Esse texto faz parte do meu novo livro “Caminhos Que As Estrelas Me Viram Cruzar”,
sobre a bela jornada pela vida e pelo Caminho de Santiago.
Lançamento previsto para setembro de 2016. 

O casal de suíços, dias e dias sem vê-los, e sempre que os reencontrava era uma festa. Os dois eram típicos hippies, ela com seu cabelão imenso e lindo, ele com sua estrutura alongada e fina. Os dois eram peregrinos de roupas coloridas. Devem ter como 50 anos e todas as vezes que nos vemos, celebramos, uma festa! “Paula!!”, ele exclama, e nos abraçamos todos e felizes. Contamos as novidades dos últimos dias de caminhada e como estamos nos sentindo.

Foi na primeira noite de Caminho, primeiro dia de caminhada, que nos encontramos pela primeira vez. Ou seja, há entre nós a cumplicidade de termos iniciado juntos e por isso uma atmosfera de cuidados e carinho mútuo. E houve algo tão curioso naquela primeira noite de Kayola, ainda nas montanhas francesas… Eu estava na mesa da cozinha escrevendo sobre meu dia, muito concentrada em escrever e escrever, eles se sentaram na mesma mesa que eu, abriram seu kit de comidas, e fizeram um jantar bem ali ao meu lado. Trocamos um oi mas em nenhum momento me ofereçam nada. Nem um biscoito. Nem um pedacinho de pão.

Eu me lembro de ter, ao mesmo tempo, dois pensamentos, vieram quase simultâneos. Um de que não eram simpáticos. E logo ao mesmo tempo um outro pensamento de que aquela era a cultura deles. E entre esses dois pensamentos, foi uma escolha enxergar aquele movimento como um movimento cultural, não de falta de simpatia ou qualquer outra coisa negativa. Pensamentos são uma escolha.

Ter escolhido aquela visão mudou completamente minha relação com o casal mais querido e mais lindo com quem pude conviver por todo o meu Caminho. Aquela visão que escolhi não criou bloqueios, não criou julgamentos, não criou separação. Pelo contrário. Fomos, desde lá, só alegria por nos reencontrarmos vez após vez. Sempre um momento de risadas.

“Estou comendo tanto que acho que vou chegar a Santiago mais gordo”. Ele, magro que era, me dizia e eu ria tanto.

“Finalmente encontrei alguém que se sente como eu! Nessa Espanha se come muito mesmo… Céus! Já estava me sentindo mal por só as minhas calças não estarem caindo como a de todos os outros. hahaha”.

Dias depois, na entrada do albergue, lá os dois de novo.

“Caminho de Santiago não é para lua de mel. Nem pensar! Aqui é como estar no trabalho, todo dia tudo sempre igual. Trabalha! Trabalha! Caminha, Caminha!”

E então nos despedíamos com o coração feliz, sabendo que logo ali pela frente, mesmo caminhando em nossos ritmos e nossos tempos, voltaríamos a nos ver. Eu tinha por eles um intenso sentimento de amor e carinho. E isso me alegrava muito.

E assim o Caminho vai cuidando dos encontros e despedidas, vivências e aprendizados.

O movimento de encontro e despedidas pelo Caminho é uma amostra muito linda do que nos acontece na vida. Eu me encantava. Não era preciso combinar nada, marcar um horário, pegar os contatos, gravar o nome na agenda. Nada disso. A vida cuidava de nos fazer reencontrar quando era hora de reencontrar.

Cheguei a Santiago sozinha na tarde de 11 de outubro. Eu e os 40km que andei naquele dia. Eu e meu pé anestesiado. Eu e minha mochila, meu cajado. Eu e meu coração agradecido. Era noite quando finalmente me deitei na cama exausta e feliz.

Na manhã do dia 12 meu único compromisso era a missa de meio dia. Dia festivo na Espanha, dia da padroeira, sabia que a missa seria linda. Chovia fino e eu vagava pelas ruas de Santiago de Compostela muito emocionada, olhos marejados, tão feliz.

Eis que quando viro a esquina da Oficina de Peregrinos, bem na lateral da igreja, eu literalmente trombo com o meu querido e amado casal de suíços. Dali para frente iniciei um choro que não parou mais, durou toda a manhã e foi até o final da missa.

“Paula!!!”, exclamaram os dois. Ficamos a nos abraçar, abraçar, abraçar. “Buen camino en la vida”. Chorei rios, chorei oceanos. E para lembrança, uma foto. Para lembrança de que a vida é mesmo mágica, e cuida, com perfeição, dos encontros, das despedidas, de quem chega, de quem vai, de quem passa, de quem fica. Vida mágica, eu te agradeço. 


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Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br

  • Elair Floriano

    Lindeza de texto escrito no idioma da alma. Gratidão, amada. 💝🙏

  • Elaine Neves

    Lindo texto Paula!

  • Rico Oliveira

    Mais que emocionar, Paula, a pureza e singularidade de seus texto nos fazem saltar do singular momento de concentração na leitura para a vontade irresistível de se por naquele momento narrado. Você tem a dádiva de tocar os corações alheios. Obrigado, querida pelos momentos de pura ALEGRIA.

  • Gabriela Jordão Moya

    linda!!!!

  • Nádia Bouças

    Meu, to achando que vou ter que ir pra lá….kkkkk….acho que vou por na lista de metas ou ações!😂