2015 é o ano em que tiro minha filha da escola. Não para sempre, por um ano.

Essa decisão não veio de repente, veio de um processo que dura há anos. Culminou nessa ideia em setembro de 2014.

Vamos ao que houve e ao que vamos fazer nos próximos meses…

Desde que mudei para Manaus, em 2010, a Clara estudou numa escola mais típica da socialização do que do estudo dos livros. E tudo bem sobre isso, acho que há mesmo inteligências múltiplas para desenvolvermos. Socializar me parecia melhor que se debruçar por horas e horas sobre livros naquele momento.

Foram quatro anos nesse ritmo.

Notas razoáveis. Amigos que visitavam nossa casa. Nenhum problema grave diante dos meus olhos.

Mas o ensino fundamental terminou e de alguma forma eu analisei que seria melhor que a Clara fosse para uma escola com mais método, mais disciplina, mais organização de horários e didáticas. Afinal, ensino médio exige mais e o vestibular está batendo à porta – digamos que é uma ditadura da inclusão e eu não gostaria que a minha filha ficasse fora da roda.

Na busca por escolas em Manaus, algumas eu nem visitei. Já sabia de suas famas incrivelmente rigorosas e conteudistas. Passei direto pela porta sem entrar. Até que visitei uma escola que ganhou nossos corações, ou melhor, me seduziu intelectualmente. Tudo tão novo. Tudo tão organizado. Pessoas tão gentis. Apresentação tão bem feita da escola e seus métodos. Tantas respostas na ponta da língua. Pronto! Me convenceram. E daí iniciamos, eu e a Clara, o movimento para a mudança de escola.

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O ano começou com uniforme novo, horário novo, empolgação nova, mensalidade nova.

R$889 com desconto. R$1200 para depois do vencimento.

6h40 era o horário de entrada.

Passa fevereiro. Passa março.

Vejo boas notas no colégio. Não vejo amigos lá em casa. Não vejo nem minha filha lá em casa, que agora fica só no quarto com seu celular.

Passa abril. Passa maio.

E aí a Clara resolve fazer mechas loiras no cabelos. E um piercing pequeno no nariz, desses que ficam na lateral.

Por mim tudo bem. Permissão concedida sem problemas. Minha filha adolescente finalmente saiu do quarto e pensou em interagir com o mundo, se recriar, usar a arte para se expressar de alguma forma.

Mas para o colégio não estava nada bem.

Ela teve que voltar para casa. Repintar o cabelo de alguma cor que significasse “não pintura”. Tampou o piercing com um band-aid cor da pele. Teve que tirar o piercing, porque abaixo do band-aid havia um piercing proibido.

Repintou o cabelo. Tirou o piercing.

Nessa época tive um sentimento terrível de repressão. Conversava horas com meu marido tentando, de alguma forma, assimilar o que estava acontecendo. Se nem eu mesma havia proibido a Clara de pintar o cabelo e fazer o piercing, que mal havia ir para o colégio assim? E que mal havia em manter o piercing até que cicatrizasse embaixo do band-aid? Queria ser uma mãe dessas que batem na mesa e dizem “isso é absurdo, não pode ser assim, que disciplina toda é essa?”. Para mim estava rígido demais, repressor demais, limitador demais.

Tentar fazer as pessoas “normais” é só uma tentativa frustrada de estabelecer um padrão. Por trás da padronização há sempre um sentimento muito forte de “não enquadramento”, de se sentir “um peixe fora d’água”, de perceber suas próprias imperfeições. Resultado? Autoestima lá embaixo. Pessoas reprimidas e artificiais, que fingem ser uma coisa enquanto são outras.

Quis com todas as forças lutar contra a força da escola. Chegamos a visitar outros colégios, mas em pleno meio de ano era difícil conciliar as notas, e os livros, e as datas, e as faltas… tanta coisa feita exatamente para aprisionar que preferi encarar o restante do ano na escola limitadora.

Passa junho. Passa julho.

A Clara só fica no quarto. Notas dez na escola. Amizades zero.

 

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Passa agosto. Passa setembro.

E era hora de comprar um novo tênis para a escola. All star clássico. Tem melhor? Mas naquela escola All Star não pode, “porque o bico branco chama muita atenção”. E os alunos que chegavam com sapatos de outras cores que não fossem preto eram obrigadas a voltar para suas casas, mesmo que tivessem enfrentado chuva padrão amazônico, ônibus padrão Manaus, trânsito padrão metrópole.

Se pudesse haver uma piada sobre cúmulos da repressão escolar eu poderia fazer essa…. “Qual é o cúmulo da repressão escola? Proibir que o aluno use All Star porque o bico branco chama muita atenção”.

Ah! Educação Escolar… quanto precisamos avançar….

Adolescente quer mesmo chamar atenção. Quer se expressar. Quer mostrar que existe. Quer ver sua arte valorizada. Quer se sentir vivo.

Quando isso não acontece por bem, acontece por mal e a energia fica mal direcionada. Vira pixação, vira vandalismo, vira depressão. Para a Clara, virou um silêncio sem fim, ansiedade altíssima e uma sensação constante de baixa autoestima.

E no caso do All Star, venhamos e convenhamos, é básico demais aquele tênis.  Nem chamar atenção aquele tênis chama.

Uma amiga que o mundo virtual me trouxe me escreveu dia desses me contando sobre quando era criança e no caminho para a escola molhou o único tênis preto que tinha. Morava no orfanato e era impossível substituir o tênis por outro. Era o único tênis e ponto. Mas a escola não aceitou que ela entrasse com o sapato, nem com a sandália. Ficou uma semana sem ir à escola, perdeu aula, perdeu provas. Só porque não tinha o tênis preto. E ela terminou o e-mail dizendo que agora até entendia porque todo ano pede calçados de natal. Naquele final de ano ela pediu para o seu papai noel dois tênis pretos, assim não ficaria sem escola no ano seguinte.

Uma história dessas seria suficiente para criar uma revolução.

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Passa outubro.

E me chamam para conversar. “O que está acontecendo com a Clara? Ela está muito revoltada porque o professor de física foi mandado embora. Não pode ficar revoltada, é a escola que sabe o que é melhor ou pior”. Sem diálogos. Sem avisos prévios. Sem direito a questionamentos. Sem argumentações. A escola sabe e ponto.

Passa novembro. Passa dezembro.

Terminamos o ano. Clara passou em todas as disciplinas. Foi bem em todas as matérias. Saldo positivo de muitos dez no boletim e uma paixão pela sociologia e pela filosofias, esse sim um saldo positivo que fez valer o ano inteiro.

Saldo emocional. Zero. Autoestima péssima.

Pior que eu sei que essa é uma realidade comum a tantos e tantos adolescentes do Brasil. E eu poderia muito bem me contentar e dizer “as coisas são como são”. Dessa conclusão, seguir em frente com as vendas nos olhos.

Mas um ano escolar assim é realmente digno de ser repetido na vida da minha filha?

Eu quero isso para a vida dela?

Não. Eu não quero.

E não posso me fazer de cega diante de algo que me incomoda tanto.

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Há um estudo que diz que as crianças de 5 anos têm um grau elevadíssimo de genialidade, uma genialidade de quase 100%. Você entrega um simples clipes de papel para uma criança de 5 anos e ela é capaz de pensar em 1.000 coisas para fazer com ele. Entrega o mesmo clipes para uma criança de 10 anos, e ela não chega a pensar em 1.000 coisas, talvez em 500. Entrega para um adolescente de 15 anos, e não mais que 50 alternativas vão surgir. Entregue para um adulto e você está diante de um clipes de papel.

Nosso nível de genialidade diminuiu ao longo do tempo graças a toda a repressão que sofremos, limitações impostas, crenças negativas absorvidas. E os principais vilões dessa história são as escolas e as famílias. O processo de educar é um processo de repressão e diminuição da livre expressão. Definitivamente não é o que quero para minha filha.

O processo de educação é para ser um processo de libertação, de partilha, de crescimento. Um processo de emoções que integram, que fazem a autoestima crescer, que faz enxergar potencialidades únicas e singularidades. Muito diferente de silenciar, padronizar, reprimir.

Na mesma época eu estava terminando meu doutorado. Doutorado em Sustentabilidade na Universidade Federal do Amazonas. Um estudo silenciado entre as paredes das salas de aula e as árvores da universidade. Talvez as árvores saibam mais sobre meus estudos do que as próprias pessoas. Mais afastamento. Mais separação. Mais silêncios repressores. Mais burocracias.

O que vemos no sistema escolar do ensino médio, vemos nos sistema escola da universidade, dos mestrados, dos doutorados, vemos nas escolas infantis. A educação está em crise. Não estimula a criatividade. Não acompanhou o passar dos tempos.

Um show de horrores dos mais nobres, desses que merecem holofotes. Literalmente.

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O filho do meu marido tem 6 anos e se formou no pré-escolar. O mesmo pré-escolar que fizemos e completamos com 5 ou 6 anos. Ele aprendeu a ler e escrever. Aprendeu também a usar os números romanos, esses que ele deve ver na prática quando tiver seus 20 anos e se deparar com o título de um capítulo de livro de antigamente. Claro que merece todos os nossos elogios e aplausos por ter aprendido o que a escola ensinou. O estímulo é um dos bons modos que o adulto pode desenvolver. Mas daí fazer uma festa num salão nobre, tal qual formatura de encerramento de faculdade, com convidados de terno e gravata, buffet e lustres de cristal? Afetação social. Afetação da escola.

Não quero essa desconexão para a vida da minha filha. Não quero que os números romanos venham antes da brincadeira. Não quero que as notas dez venham antes que os amigos estejam em nossa casa. Não quero celebrar o aprendizado, que é parte natural da vida, com festas caras. Não quero que a vergonha de chamar atenção venha antes que ela se descubra única no mundo. Não quero que a padronização seja um imperativo silenciador de sua personalidade.

Quero que ela percorra estradas, veja caminhos, saia do quarto e pare um pouco de mexer no celular, voe de um lugar e pouse em outro. Quero que use o que sabe de melhor para se comunicar com pessoas que nunca viu na vida e nunca verá novamente. Quero que nesse movimento ela perceba que o mundo não é hostil, que as pessoas são mais generosas do que nos contam os livros de história e geografia, que o mundo é uma escola.

O mundo é uma escola muito menos repressora que a escola.

Meu projeto é o seguinte: vendi meu carro e comprei passagem de ida e volta para a Europa.

Eu poderia escolher qualquer destino. Todos os destinos são igualmente valiosos quando estamos dispostos a olhar o mundo como uma grande sala de aula, mas na Europa a Clara vai se sentir bem: há o urbano, há as conexões, há pessoas de todo o mundo, há muitas línguas. O mesmo espírito humano e lições valiosas que encontraremos na Europa, encontraríamos em qualquer lugar do mundo. Mas é preciso escolher um, e eu escolhi lá.

Vamos passar cinco meses viajando, indo de país em país, de cidade em cidade, tempo esse que é adaptável, podemos inclusive retornar antes. Vamos nos hospedar em hotéis, em pousadas, em hostels, em casas de família.

Farei isso, todo o tempo, trabalhando. Eu e meu computador, eu e a internet, eu e meu empreendedorismo digital, eu e meus leitores fiéis.

E a Clara vai desbravar a Europa aprendendo a sociologia que ama, a filosofia que ama, aprendendo as pessoas, aprendendo as culturas, aprendendo outros ritmos, aprendendo outras arquiteturas, aprendendo outros modos de vida.

Se vai ser fácil? Não, não vai ser fácil. Ficarei fora de casa meses, e mesmo amando viajar, eu amo estar em casa com as minhas coisas. Ficarei longe do meu marido por meses, mesmo sabendo que ele vai encontrar comigo na Europa por um período, ainda sentiremos saudades um do outro. Ficaremos constantemente em logística, e isso uma hora cansa bastante. Também terei que fazer um controle razoável das minhas finanças, para que nada fuja do controle. Mas vai ser incrível.

O mundo será, literalmente, uma escola.

O mundo será um outro mundo para a Clara.

E eu sentirei, plenamente, que fiz a minha parte. Que cumpri meu papel de mãe. Que fiz a diferença na vida da minha filha. Que entreguei a ela poderosas lições. Que deixei algum recado sobre a educação das escolas.

Amo o aprender. Amo o ensinar. E sei que dessa forma poderei plenamente celebrar as várias formas de aprender e ensinar que essa vida pode nos oferecer.

Hoje inauguro aqui com você o projeto #1ano365oportunidades. Esse não é um projeto só sobre os aprendizados da Europa, é um projeto sobre os aprendizados de um ano inteiro bem vivido, desperto. E eu lhe convido a fazer parte. A fazer também seu ano se realizar com 365 oportunidades de transformação, de crescimento, de aprendizado, de ensinamento.

2015 não será um ano qualquer. Não será para nenhum de nós, desde que estejamos determinados a viver o ano com esse espírito.

Vou publicar cada uma das 365 oportunidades pelo meu instagram @paula_quintao e pela fanpage da Equipar. Farei aqui no blog posts semanais com o resumo da ópera.

Há muita música nessa dança. Há muita dança nessa vida.

#1ano365oportunidades. O ANO EM QUE TIREI MINHA FILHA DA ESCOLA.

Paula Quintão. 2015

 

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Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br