Hoje fui visitar à Escola da Ponte, em Porto, Portugal.

Conheci as iniciativas da escola por algum documentário no Brasil há alguns anos e desde lá ela sempre surgia diante de mim em alguma citação. A Escola é uma referência em ensino diferenciado, desses em que o conhecimento e o amor são as grandes estrelas do processo – e não o processo em si.

Especialmente depois de todo o processo desgastante e desgostoso que vivi com o sistema educacional nos últimos anos, vendo, a olhos nus, o que faziam com a minha filha – repreendendo, minando sua autoestima, desperdiçando seu potencial, excluindo, e burocratizando todos os processos – sentia no meu coração que deveria conhecer a Escola. O mesmo que senti durante o processo do meu doutorado: isolacionismo, egocentrismo de professores que são capazes de dar uma aula expositiva de 3 horas sem fazer sequer uma pergunta para os alunos e muita burocracia. Por isso, esse é o ano em que tirei a minha filha da escola.

E estando em Portugal, me pareceu uma boa oportunidade fazer a visita e ver a iniciativa de perto.

Ainda em Lisboa escrevi para a Escola para saber se poderia fazer a visita. Menos de 3 horas depois eu já tinha a resposta ao meu e-mail. “Sim, a visitação ocorre todos os dias às 9h ou às 11h. Escolha o dia, escolha o horário e nos avise para sabermos se está tudo bem para sua vinda”. E assim eu fiz. Escolhi segunda, dia 23 de fevereiro, às 11h.

Rumamos para Porto ainda no sábado e o maior objetivo de estar na cidade era mesmo visitar a escola. E a segunda chegou. Chegou como uma manhã dessas de chuva fina intermináveis.

Acordei bem cedo, tomei meu banho, meu suco e trabalhei um pouco. Arrumamos as bagagens, pois no mesmo dia seguiríamos para Coimbra, e me programei para sairmos 30 minutos antes das 11h. Não sei bem porque eu programei sair com meia hora de antecedência, mas na minha mente estava tudo bem sair 10h30 e só me interessei por conferir o caminho até a escola às 10h27.

Eis que o google maps me faz a previsão de que até a escola seriam 40 minutos de percurso. Naquele instante iniciou-se uma correria louca que poderia ter sido poupada com minha simples organização prévia.

Claro que nesse caminho fui um tanto acelerada seguindo, como podia, as coordenadas do GPS. Enquanto tentava acertar as direitas e as esquerdas, fiz meus mil questionamentos para mim mesma sobre o que me fez não programar o percurso e o horário de saída com antecedência.

No caminho lá vou eu apressada passar pelo pedágio e passo pelas catracas de quem tem chip cadastrado. Era só eu ter escolhido o guichê de pegar o ticket, mas eu fiz questão de mirar em cheio no guichê que não seria pra mim. “Paulaaaa! Presta atenção, era só ter escolhido o guichê do ticket, você agora além de ser atrasada ainda vai levar uma multa”, disse para mim mesma.

Cheguei à escola com 20 minutos de atraso. Tinha uma vaga para o carro bem em frente. Caminhei com os passos acelerados e o ombro caído até entrar pelo portão, já imaginando que não haveria mais visita para mim. E como não havia placas eu ainda estava em dúvida se aquela era mesmo a escola, suspeitei porque tinham outros carros e por causa de um mural colorido que ilustrava uma parte do prédio.

Um senhor estava na portaria.

“Eu estou procurando a escola da ponte…. será que é aqui?”

Ele sorriu. E só com aquele sorriso meus ombros voltaram para o lugar.

“Você está um pouco perdida?” (leia em sotaque de português de Portugal, faz toda diferença)

“É, estou”.

“Pois está no lugar certo, é aqui a Escola da Ponte”.

“É que eu tenho uma visita marcada para 11h, mas como eu me atrasei tanto nem sei se vou conseguir participar da visita mais.”

“Claro que vai fazer sua visita. Vou te levar até seus guias.”. Meus ombros voltaram totalmente para a posição e meus passos se acalmaram.

Subi aquela rampa que levava até o interior da escola sem acreditar que minha visita realmente aconteceria. Respirei fundo e fui observando os prédios. Tinham dois ou três andares, tons de cinza e branco, tudo bem limpo. E a sala que me colocaram a esperar era como um salão espaçoso com algumas mesas circulares, cadeiras e um grande livro aberto com alguns dizeres. Silêncio. E uma sensação de acolhimento.

Enquanto estava ali sentada esperando que me recebessem foi onde tirei a única foto da minha visita. Até então eu não sabia que não era permitido, então estou perdoada.

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Uma professora veio até mim e explicou que quem me guiaria pela escola eram dois alunos.. o Tiago e a Cristiane, aquelas duas crianças que estavam bem ao lado dela. Sorrimos uns para os outros e eu ainda quis perguntar à professora, de tão acostumada que sou de receber orientações de adultos, se era permitido tirar fotos. Ela, já seguindo seu caminho, sorriu para mim e disse… “Eles vão te orientar”.

E lá estávamos nós três.

Primeiro me levaram até um mural onde estavam os direitos e os deveres do visitante. Entre os deveres havia “não fotografar ou filmar”.

“Então não posso fotografar…”

“É, não pode”. Disseram olhando para os meus olhos.

E ali começou, oficialmente, a nossa visita.

O objetivo era percorrer um pedaço da escola, visitar algumas salas, observar algumas atividades e não interromper nada.

A primeira sala que visitamos era de crianças de 6 anos. E ninguém ali usava uniforme, cada um tinha sua própria cor, seu próprio tipo de sapato, de calça, de blusa, de cabelo.

As salas têm mesas circulares e sempre há grupos reunidos. Naquela, em especial, havia três mesas. Numa delas umas quatro crianças mexiam com massa de modelar junto com uma professora. Cada uma com sua criação. Numa outra, mais cheia, umas 6 ou 7 crianças usavam suas tesouras e recortavam algumas revistas. E numa outra mesa, sozinhas, 3 crianças usavam potes enormes de tintura para fazer algumas artes.

Logo que entrei nessa sala com o Tiago e a Cristiane a professora se levantou, foi até uma das crianças que fazia recortes e disse “Maria, temos visita”. A Maria fez logo uma cara ruim, dizendo… “Mas eu estou recortando”. Baixinho, a professora estimulou… “Vamos, Maria, temos visita”. E a Maria veio.

Chegou próximo de onde eu estava, olhou para mim e começou a explicar o que a turma estava fazendo naquele momento, o que estava nas paredes, o que eram aqueles desenhos todos nos painéis… Começou um pouco sem vontade e depois foi se entusiasmando e falando mais e mais e mais.

Nessa hora eu nem consegui prestar tanta atenção no que ela dizia, eu só prestava atenção em como ela dizia. Era linda. Ela falava sem a menor ordem, falava como queria, ia olhando a sala ao redor, apontando para cada coisa e contando o que era.

Sem eu perceber como, veio uma outra aluna daquela sala acompanhar a Maria na explicação. E elas formavam uma dupla encantadora. Maria era lourinha, usava um casaquinho cor de rosa salmão, cabelinhos todos soltos e bem amarelos. E a sua colega, Lia, tinha os cabelos pretos ainda mais lisinhos, uma bochecha linda e elas falavam sem parar sobre o que eram aqueles desenhos e trabalhos que fizeram.

Falavam pra mim e falavam entre elas. Falavam livremente e isso me encantava. E falavam olhando nos meus olhos.

As duas seguiram comigo para o canto da sala onde havia um armário aberto. Pegaram um trabalho lindo, estilo criança de 6 anos, que fizeram sobre o mel, uma colmeia de papelão colorida com algumas abelhas dentro. E começaram a pegar vários potes com misturas… água com café, água com terra, água com óleo, água com farinha… Potes pequenos com uma fita adesiva que identificava o que havia na mistura.

Elas balançavam os potes e iam me mostrando, explicando como queriam a forma como aconteceu o experimento.

“E essa aqui é só água”, disse a Maria.

“Não, não é só água…”, disse a Lia já lendo os papéis colados na embalagem que diziam “sal” e “açúcar”.

“Não, tem sal e açucar”, consertou a Maria.

E pegou uma espiga de milho.

E umas castanhas.

E umas folhas.

“Isso nós achamos lá fora.”

“E isso nós ganhamos quando ainda estava verde”

E das espigas começaram a voar alguns mosquitinhos.

Nesse momento elas começaram a se entreter totalmente com os mosquitos. Matavam com as espigas, riam entre elas, batiam as mãos na estante para que voassem, e riam mais ainda.

Enquanto isso a sala continuava normalmente suas atividades, como se nada estivesse acontecendo. As professoras se quer falavam algo para mim ou para o restante da turma. Eu estava nas mão de Lia e Maria. Pararam de rir e começaram a me mostrar o que eram os outros murais da sala. Maria foi se sentar e a Lia continuou a falar por alguns minutos ainda. Quando parecia estar satisfeita, o Tiago perguntou… “Há mais alguma coisa que queira falar sobre como é a sua sala, Lia?”

Ela ainda me explicou mais coisas sobre as atividades, sobre algumas bolas de massa que fizeram e pintaram juntos. E fomos embora.

Se a minha visita fosse só até ali eu já estaria muito feliz.

Ver aquelas duas meninas apresentando o que fazem com tanta naturalidade, sem decorebas, sem frases que adultos criaram para que falassem… isso me deixou muito feliz.

Eu vi em Manaus o que o sistema educacional é capaz de fazer com crianças de seis anos. É capaz de fazê-las decorar somas, gravar números romanos que sequer aparecerão em suas frentes, a fazer apresentações como robôs ou múmias, a se enfileirarem em suas carteiras ouvindo massivamente um professor que fala por horas e horas, e chorar – muito – para não ter que fazer tarefa de casa. Para a Lia e a Maria estava tudo bem, elas lidavam com leveza com tudo aquilo e entendiam o motivo de cada elemento ali, de cada atividade que fizeram, de cada criação, de cada experimento. E ao contrário de se aninharem atrás da saia de suas professoras, elas eram as estrelas naquele momento.

Passamos para outra sala, nessa os alunos eram maiores, tinham 8 anos. Era a sala da Cristiane.

A Cristiane foi me explicando que eles têm planos de estudos quinzenais e os conteúdos programados ficam fixados na parede. Para cada conteúdo, há algumas indicações de livros que ficam sobre a bancada. São livros didáticos das disciplinas e os alunos escolhem os que querem usar para estudar o conteúdo. Pelo que entendi, por conta própria cada um deles vai até lá e escolhe o livro, escolhe a ordem de estudar os conteúdos da quinzena.

Há uma bancada grande com muitos livros didáticos, todos eles separados por disciplinas. E ainda na parede há alguns cartazes que dizem “O que já sei”, onde o aluno escreve, por conta própria, o que já aprendeu dos conteúdos da quinzena, assina e data. “Preciso de ajuda”, onde o aluno escreve, por conta própria, seu conteúdo de dificuldade, assina e data.

Para o que já aprenderam, há uma anotação à caneta que imagino ser feita pelo professor. E para o que “precisam de ajuda” formam-se grupos entre os alunos e nesses casos o professor faz uma aula explicando o conteúdo.

Nessa hora um aluno se colocou de pé e levantou a mão. A professora, que estava sentada com um dos grupos, desligou o som, sem que falasse nada todos os alunos foram se silenciado e olhando, um a um, para o aluno que estava de pé com a mão levantada. O aluno deu algum recado e os trabalhos continuaram.

“O que aconteceu?”, perguntei para meus dois guias.

“Quando alguém quer dar algum recado, ou comentar algo, ou fazer alguma consideração, levanta e pede a vez de falar”, me explicou a Cristiane.

Seguimos.

Havia na parede um grande mural com quatro temas sobre meio ambiente e dentro dos temas vários temas de pesquisa. Aquele é um trabalho de ano inteiro. Cada aluno vai propondo perguntas e juntos vão desenvolvendo pesquisas para chegarem a respostas. No final do ano, todos aqueles que participaram fazendo perguntas e pesquisando respostas são levados para uma visita a algum projeto que envolva aqueles quatro elementos pesquisados.

“E há algum tipo de avaliação, Tiago?”

“Sim, há, e o tipo de avaliação nós negociamos como será com o professor. Podemos escolher fazer uma avaliação oral, podemos escolher criar um power point, ou podemos escolher escrever as respostas. Sempre chegamos à melhor forma”.

O “negociamos como será com o professor” saltou aos meus ouvidos, de uma leveza que impressiona.

Saindo da sala a Cristiane me mostrou um quadro de tutorias com o nome dos professores e os horários em que cada um deles está disponível para atendimento. Creio que seja para atendimentos individuais com os alunos para cuidar de dúvidas.

Fomos então para a sala do Tiago. Lá já são mais disciplinas, acho que cinco ou seis. E da mesma forma eles têm um cronograma quinzenal de estudos. Cada aluno escolhe a ordem que vai estudar os conteúdos e nas paredes há os mesmo murais de “O que já sei” e “Preciso de ajuda”.

Nessa sala o Tiago me mostrou um quadro com todas as atividades extras da escola, alguns projetos de solidariedade, algumas ações de cuidados com os equipamentos, cuidados com o jardim, com o mobiliário, organização de eventos… e para cada área extra que há alunos encarregados que, por iniciativa própria, se candidatam para fazer parte daquele grupo de cuidados, sempre monitorados por dois professores.

Naquela sala havia um painel diferente. “O que eu gostei”, “O que eu não gostei”. No mural “o que eu não gostei” havia três anotações e então o Tiago me explicou que no início de cada ano se forma uma comissão de alunos e professores que são responsáveis por trazer solução a todos os problemas que surgirem. Problemas de relacionamento, problemas com estrutura, problemas com horários… qualquer que seja o problema, aquela comissão vai cuidar.

Os alunos estão sempre envolvidos em todas as atividades, são responsabilidades compartilhadas todo o tempo e o estímulo da autonomia é lindamente estimulado. Eles entendem seus papéis e a importância que cada um tem dentro daquele ambiente.

Havia uma lousa digital naquela sala e um computador ligado conectado a ela.

“O professor usa o quadro digital nessa turma?”

“Quando queremos apresentar alguma coisa, vamos até o computador, colocamos a apresentação e ligamos no quadro”.

E com a maior sutileza do mundo, a resposta dele desmontava minha pergunta, porque pra mim, das salas de aula onde eu vim, é o professor quem detém o poder de ir até a lousa e colocar o seu power point, é o professor quem traz a apresentação, é ele quem rege a orquestra. Mas não ali. Naquele escola, “quando queremos apresentar alguma coisa, vamos até o computador, colocamos a apresentação e ligamos o quadro”. É democrática. E há uma beleza enorme na democracia.

Pelo corredor havia uma biblioteca de livros.

“Esses livros nós pegamos sempre que queremos ler algo durante o intervalo, como hoje por exemplo que está chovendo. É só anotar aqui o livro que pegamos e depois devolver.”

Cada aluno faz a própria anotação do título que pegou, seu nome, a data de retirada e a data de devolução.

Também nos horários de intervalo há torneios de damas e xadrez e nas paredes da sala estão os resultados dos torneios.

“Quem quer participar se inscreve no início de cada temporada e na hora do intervalo usamos as salas de jogos para isso”

Os intervalos duram 30 minutos.

Há também algumas atividades extras que são feitas depois do tempo de escola, como teatro.  E dentro dos conteúdos das quinzenas, estudam também as festividades daquela época. Nos murais havia peças e estudos sobre o carnaval e sobre o dia de Valentim, o dia dos namorados que aconteceu agora em fevereiro.

Chegamos ao final da visita, quase uma hora depois, na mesma sala em que fiquei sozinha esperando o início da visita. Minha sensação era que se me deixassem sozinha ali eu começaria a chorar.

Choraria profundamente. Choraria de alívio por ver se tornar possível. Soluçaria. Um desses choros que vêm da alma e descarregam um peso imenso. Como era lindo tudo que passou diante de mim… a ponte entre o amor e o conhecimento materializada.

Enquanto eu preenchia minha ficha de avaliação a Cristiane ficou parada bem ao meu lado observando eu compondo cada uma das letras no papel. Bem pertinho, sem medo, sem receio, sem distanciamentos.

Olhei para ela e ela novamente me olhou nos olhos.

Sim… naquela escola não há uniforme.

Não há um palco para o professor, o quadro nem ficava fixado na parede, ficava apoiado sobre algumas cadeiras em uma das salas.

Em cada sala de aula havia uma música instrumental ao fundo.

Todos podiam se movimentar livremente e falavam em tom baixo, calmo.

O uso dos espaços é comum.

O cuidado é conjunto.

A manutenção é conjunta.

As visitas são recebidas pelos alunos.

Os projetos são conjuntos.

Os torneios acontecem por iniciativa dos alunos.

Os problemas são resolvidos em conjunto.

E eu, atrasada, não precisei ser punida, muito pelo contrário, eu fui acolhida com amor.

Naquela escola há solidariedade. Há democracia. Há amor. Há uma profunda valorização da nossa humanidade.

E sim, na Escola da Ponte todas as crianças me olharam profundamente nos olhos. Isso me tocou demais. E por isso, também, eu chorei.

Paula Quintão. 2015

 

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Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br