Está pra haver uma outra palavra que eu acho tão feia quanto “arrependimento”. Talvez seja feia assim pra soar mal mesmo e as pessoas tentarem usar menos, se arrependerem menos do que fizeram. Arrependimento vem do francês “repentir”, que quer dizer “sentir muito” ou “sentir contrição ou mágoa por uma má ação”.  Não gosto da palavra nem da própria atitude de arrependimento. Sempre acho um pouco injusta a visão arrependida porque acredito que somos seres em transformação, em inevitável crescimento. E ao arrepender sentimos culpa pelo modo como agimos no passado, queremos estar lá para fazer diferente, nos punimos por ter feito daquele modo e não de outro.

“Se arrependimento matasse…” e bem acho que mata mesmo, mata por dentro, mata as muitas possibilidades que a vida oferece, porque não faz sair do lugar, faz lamentar algo que já passou e está posto. Criamos um ciclo vicioso em torno da ação do passado reunindo em torno dela um monte de “e SE eu tivesse feito daquele jeito…”, e de “e se…” em “e se…”, há martírio, há punição, há cobrança e continua não havendo um jeito de retornar lá no passado e fazer diferente.  Acredito na mudança e na responsabilidade sobre o que fazemos. Acredito em assumir que poderíamos ter agido melhor e aplicar no dia de hoje o conhecimento obtido. Acredito em olhar o passado, analisá-lo com as ferramentas de hoje sem julgamento e lutarmos para fazermos melhor, fazer diferente, fazer de forma mais madura e consciente.

Hoje somos mais e melhores que ontem. E o arrependimento é sempre uma visão do nosso EU de hoje sobre nosso EU de ontem, aquele que era pequeno e mais imaturo, que agiu de um modo e não de outro porque as ferramentas que ele tinha em mãos eram aquelas daquele momento e não as que tem em mãos hoje, melhores e mais eficientes.

Se hoje escolho agir de um jeito, é levando em conta o que há pra hoje, o que eu sinto no momento do AGORA, no que eu tenho no coração e na mente pra esse momento específico e pra nenhum outro. O arrependimento nos faz olhar pro EU de ontem com ferramentas melhores, com olhos que enxergam mais porque já viveram mais e percorreram um trecho maior do caminho da vida. É mais fácil olhar do futuro e saber as consequências do que olhar do hoje e saber o que vem pela frente. Do lugar do caminho que estamos hoje não dá pra ver depois da curva, não dá pra ter as informações que teremos logo ali na frente. O caminho nos faz crescer e nos faz tomar outras decisões. O que é maravilhoso. Fazer diferente hoje é a melhor forma de curar aquilo que gostaríamos de ter feito diferente no passado. Arrependimento não faz a situação de antes ser diferente. Tem um dito popular muito bonito que diz “se agimos errado foi tentando acertar”, é uma forma de fazermos carinho em nossas próprias cabeças e dizermos pra nós mesmos que se o resultado não foi o  melhor, se não foi o que esperávamos, paciência e segue adiante com essa experiência adquirida, usando as ferramentas de hoje pra construir o hoje, mais uma vez tentando acertar. Um novo passo transforma o hoje, que é a única coisa que temos em mãos.

 

 

Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br