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Paula Quintão

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AS NOSSAS MONTANHAS DA VIDA sobre áreas que nos desafiam

AS NOSSAS MONTANHAS DA VIDA
por Paula Quintão
 
Aquelas áreas que mais nos desafiam são como nossas grandes montanhas da vida. Será a vida profissional? A vida financeira? A vida dos relacionamentos amorosos? A família? O corpo?
 
É só olhar para quais áreas mais nos pedem atenção e mais nos exigem equilíbrio, presença, que encontramos as montanhas da vida. Ou a montanha da vida.
 
Algumas áreas são uma montanhazinha coisa fácil, tipo uma travessia que faríamos em três dias pela Patagônia Chilena, paisagens lindas, um certo cansaço, uma dorzinha nos músculos, mas água quente e albergues de cama macia.
 
Outras áreas são como uma Serra Fina feita em três dias com um guia horrível que te apressa, com um grupo até engraçado, mas com barracas instaladas sobre pedras que durante toda a noite marcam sua coluna ou seu quadril.
 
E ainda outras áreas da vida que são como cordilheiras. Ou como estar a quase 4mil metros de altitude na trilha inca e você não consegue pensar em nada, só consegue seguir o instinto de dar o próximo passo, respiração totalmente ofegante.
 
Montanhas, mais montanhas, mais montanhas, mais montanhas. Você pode até achar que está tudo resolvido naquela área e aí chegam os ventos e bagunçam tudo, tiram seu rumo, uma nevasca desmarca toda a trilha e você precisa sempre consultar sua bússola interna para dar o próximo passo.
 
Eu amo as montanhas. Com elas aprendo o valor do passo a passo, da paciência com meus tempos e meus limites, a beleza que sempre há ao redor mesmo nos trechos de maior dificuldade e o quanto os sentimentos se transformam, o quanto a dor sentida é esquecida e em instantes ganha lugar para a alegria.
 
Hoje meu exercício tem sido olhar para as montanhas que hoje eu subo. Olhar para as áreas da minha vida e me perguntar como estão cada uma delas e em que fase da travessia eu estou. A explorar.
 
Paula Quintão
26 de setembro (kin 231)

ÂNGULO DE VISÃO. sobre modos diferentes de enxergar a realidade

Ângulo de visão
Por Paula Quintão

Não dá pra pegar o seu ângulo de visão e emprestar para outra pessoa. Não dá pra dizer em palavras o que você vê e achar que o outro vai ver igual. Não vai. O outro só consegue ver com os seus olhos se ele te pergunta: “o que você vê daí?”. Só se ele te pergunta. E aí os seus dizeres vão ser como um empréstimo dos seus olhos para o outro.

Acontece isso no processo de expansão de consciência. Você vai vendo o invisível. E fica nessa ansiedade de o outro também ver. Porque quando a gente passa a ver parece tão óbvio que até esquecemos que antes também a gente não via. Só que o outro está vendo do ângulo dele, e não está te pedindo olhos emprestados.

Melhor seguir avançando na nossa própria visão, expandindo nosso olhar e percepção, do que ficar na tentativa de fazer o outro ver. Isso é o salvacionismo que o ego tem necessidade de viver.

Há uns dias escrevi sobre dar feedback que não foram pedidos e sinto que é a mesma coisa: o outro não pediu seus olhos emprestados, então ficamos na nossa. E avançamos na ampliação do que estamos vendo.

É assim. Cada um do seu lugar, todos juntos colaborando para o todo.

POR SORRISOS QUE QUERO SORRIR. sobre liberar a parte que é feita de plástico.

POR SORRISOS QUE QUERO SORRIR. sobre liberar a parte que é feita de plástico.

Ela ensinou as mulheres a sorrirem quando seus maridos esbravejassem com elas. Me disse “faça isso e você vai ver que funciona”. E eu sorri, sorri como um plástico para ela. Sorri para aquela mulher. Sorri e me machuquei um pouco mais. E isso me custou meu estômago nessa manhã de segunda. Revirou minha alma. Me fez sentir tristeza. Me fez chorar um pouco mais do que eu já estava chorando pelo museu nacional que pegou fogo bem enquanto ela dizia isso.

Não quero sorrir para ter que desarmar um homem, não é minha natureza e não vou fazer isso comigo. Me lembrei de quando meu ex-marido disse num email enquanto eu me recolhia em um quarto de hotel buscando forças para continuar aquele relacionamento. “Voltam os sorrisos, voltam as flores”. Chorei aquele dia. Não havia mais como dar um sorriso que não viesse de um lugar sincero da alma.

Cada novo sorrir não sincero tornou-se uma punição à minha alma e ao meu coração. Por todas as mulheres da minha família que precisaram sorrir sem querer, que se sentiram obrigadas a receber entre suas pernas um homem que não era bem-vindo naquele dia, que se puseram a cuidar de tudo invisivelmente creditando tudo de bom a seus maridos, que desistiram de suas vidas em suicídios silenciosos para evitar dizer “basta” quando era impossível manter em seu rosto um sorriso de “concordo com você”…. por elas e por mim, não posso sorrir quando meu coração pede outra coisa diferente de sorrir.

Não quero fazer um sorriso quando minha alma pede “respeite-me”. Em tempos recentes, minha expressão conectou-se ao meu coração. Meu sentir conectou-se às linhas do meu rosto, do meu corpo.

Um sentir e um amar que passa por tudo que sou. E não sou só esse sorriso que concorda e acolhe. Sou inteira e por mim passa a raiva, passam os olhos assustados, as lágrimas derramadas, os abraços espontâneos, os silêncios que pedem calma, o pedido de respeito das palavras pronunciadas e ouvidas, o cuidar de mim para depois cuidar do outro, a humana inteira que sou.
Paula Quintão.
03 de setembro.
Onda do Guerreiro. Kin 208
………….
E depois desse final de semana eu anuncio que estou em época de lançamento da nova edição do Espírito Selvagem 2018, edição ano 4, agora uma comunidade de mulheres. É tempo. Logo.

CAMINHAR NA DÚVIDA sobre seguir em frente mesmo sem clareza

CAMINHAR NA DÚVIDA sobre seguir em frente mesmo sem clareza

por Paula Quintão

Ela me escreveu porque sofria em seu mar de dúvidas. “Como caminho para algum lugar se nem sei para onde quero ir, Paula Quintão? Como caminho em meio a tanto dúvida se tudo o que vejo são pessoas que têm tantas certezas?”.

E meu coração se conectou a ela. Porque é tão ilusório pensar que o outro está vivendo lá em suas certezas. Estamos todos em processo. E o seu processo de dúvida é o meu processo de dúvida.  É também o processo de todos nós humanos. Somos todos assim, uma confusão por dentro buscando luzes que nos ancorem em um encontro com nós mesmos. Vez ou outra a confusão se alinha, vem um lampejo de clareza e sentimos “agora sim”. E o vento vem de novo e bagunça os cabelos, muda os cenários, refaz as paisagens.

Passamos a vida lapidando a descoberta do que somos e para que viemos. E esse é um processo que dói se não aceitamos que é assim mesmo. Temos dúvidas, e que mal há nisso. A dúvida nada mais é que uma pergunta.

Tenho dúvidas eu, Paula. Tem dúvidas todas essas pessoas que você tanto admira e acredita que estão com as perguntas todas respondias. Quem olha de fora pensa que está tudo resolvido dentro. Mas não está. Porque essa é a jornada de todos nós. Todo mundo tem dúvida. A pergunta faz parte da essência humana.

E a gente avança mesmo com dúvida, essa é a grande questão. Caminhando em frente a clareza vai chegando. É no passo a passo, no seguir em frente, mesmo que andando em círculos ainda assim avançamos algo, é que vamos aos poucos eliminar as dúvidas e encontrar mais certezas. Mas para encontrar as certezas, que nada mais são do que dissolução da dúvida, precisamos caminhar no escuro.

E de tanto caminhar no escuro, começamos a enxergar a luz que os olhos podem ver dentro da própria escuridão. A vida acontece no escuro, tal como um bebê se formando na barriga de sua mãe. Em frente.

Paula Quintão.

28 de agosto de 2018. kin 202

 

E aqui te dedico uma canção. Ouça com o coração.

ORDEM DA AJUDA sobre feedbacks e ajudas que não foram pedidos

Sobre feedbacks que não foram pedidos e sobre as ordens da ajuda

Por Paula Quintão

Às vezes nos colocamos na posição de ajudar o outro. Na posição de quem estende a mão para fazer um “bem”. Só que o outro não nos pediu nada, não solicitou ajuda, nem ao menos quer ajuda.

Sistemicamente há uma desordem aí: ajudar sem que o outro tenha pedido ajuda, responder sem que o outro tenha perguntado.

Eu via muito isso acontecer na Amazônia durante o tempo que morei lá. As comunidades ribeirinhas recebem muitos projetos de ajuda, às vezes por algo totalmente inútil naquele contexto. Essa semana no evento que palestrei a Petrina falou sobre isso. “Ajudar sem antes se conectar ao humano do outro lado é totalmente descabido”, dizia ela algo assim.

Lembro de quando o Luciano Huck com aquele jeito salvador da pátria foi fazer umas mudanças e investimentos numa comunidade ribeirinha: uma pousada, energia elétrica e freezers da coca cola. Talvez pra nós soe exagero os freezers, mas muito provável que pra eles a energia elétrica já seja um exagero, porque é outro mundo, é outro paradigma, é uma realidade que você náo dá conta porque não é a sua. Mais fácil seria perguntar: estão precisando de algo? Talvez motores de rabeta e diesel fosse uma resposta mais lógica, mas aí o bem não ia ter efeito para quem queria fazer.

O sentido está na ordem: a ajuda vem com base no que o outro solicita.

Lembro de quando tive infecção urinária em 2009 e fiquei de cama uma semana sem conseguir me mexer nem comer direito. A mãe de uma aluna da faculdade, a Fernanda, veio até minha casa, nunca tínhamos nos visto antes. Ela bateu na porta, eu atendi e ela disse: eu vim te ajudar no que você precisar. E eu disse: o que você puder me ajudar. Ali eu dava sinal verde. Ela descongelou uma carne, fez um pure de batatas, serviu pra mim e levou no sofá onde eu estava deitada. Depois limpou coisas da casa, lavou as loças. E eu só agradecia, eu agradecia, eu agradecia. Até hoje meu coração agradece essa anja. Mas ela me perguntou. “Ela me perguntou”. E isso é muito respeitador, é muito valioso.

Essa necessidade de responder sem ninguém perguntar ou ajudar sem ninguém ter pedido nada mostra uma patologia que é nossa e não do outro.

Vejo que às vezes o outro pode não se dar conta que precisa de ajuda, que o outro pode estar acanhado, que o outro pode achar que não é pra te pedir nada porque você não está disponível. É pra esses casos que serve a simples pergunta: “você está precisando de algo?”. Se a resposta for sim, você vai ter como ajudar; se for não, você digere sua sede de dar e vai direcioná-la para algo em sua própria vida ou na vida de outro alguém que te diga “sim”.

O mesmo serve para feedbacks, o mesmo serve sobre analisar o outro, o mesmo serve para orientar alguém. Pergunte se o outro quer ser orientado, quer ser avaliado, quer ser analisado. Se sim, você está diante de alguém em posição receptiva, faça então seu movimento de dar. Se não, você está diante de alguém que não quer ouvir o que você tem pra dizer e sua ação só vai trazer indigestão mesmo que seja com a melhor das intenções.

Uma ordem da ajuda, bem nos ensina Bert Hellinger em seus estudos sistêmicos, é a ajuda ser solicitada pelo outro. Importante refletir, mais importante ainda executar.

Paula Quintão

23 de agosto de 2018