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Paula Quintão

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Somos seres em eterna construção. Novos EUs. Somos hoje mais do que fomos ontem porque vamos colhendo ao longo de nosso caminho novas peças que se encaixam em nós, substituem algumas partes, refazem outras e produzem espaços novos no quebra cabeça que somos. Crescemos, nos transformamos, ampliamos nossa mente e consciência num eterno aprender – e sequer precisamos estar conscientes disso para que inevitavelmente todo esse processo ocorra.

Nessa jornada vamos, dia a dia, incansável e inevitavelmente, acumulando memórias. “Acumular memórias”: aí está o grande propósito de nossa existência. Tal qual uma grande esponja, olhamos o mundo e o que há ao redor, interpretamos, respiramos e absorvemos os cheiros e os ventos, narramos nossas estórias e ouvimos outras tantas, criamos relacionamentos, nos colocamos em risco e em segurança, viajamos para os mesmos lugares ou vamos a lugares novos, significamos o mundo para enfim podermos depositá-lo em nossas lembranças, tornando-o parte de nós.  O que fica na memória será, para todo o sempre, parte viva do que somos.

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Acumulamos memórias e acessamos esse arsenal a todo momento. A memória não é passado, é presente. As memórias se cruzam com o que vivo no momento presente  num eterno recriar e resignificar.  Está em constante transformação, num colocar e recolocar de peças. Nesse ciclo, quanto mais boas memórias temos, mais podemos recriar no AGORA boas sensações, bons sentimentos, boas vibrações, boas interpretações capazes de manter nosso espírito em paz. Os olhos só podem enxergar o mundo guiados pela memória que há em nós. E nossa oportunidade para colher uma boa memória é o AGORA, é o presente. O presente torna-se uma verdadeira graça quando carregamos a filosofia de que estamos vivendo num eterno coletar de memórias.

Ao seguirmos nossa vida cuidando para acumularmos boas memórias estamos realmente seguindo por uma jornada de ampla consciência, de infinita conexão com o maior propósito dessa vida que é armazenar em nós o melhor o que colhemos do mundo e da experiência de vida que temos. A memória é tudo o que  mora em nós.

Paula Quintão. 08/03/2012

 

 

sistema

Há rondando sobre nós uma entidade superior que a tudo governa: o Sistema – assim mesmo, com letra maiúscula, por estar se transformando praticamente em uma divindade do mundo moderno. Se vamos a um hospital e estão “Sem Sistema”, mesmo que 10 médicos estejam disponíveis, eles não podem atendê-lo. Se vamos ao banco e estão “Sem Sistema”, você pode ter milhões na sua conta, mas você vai sair de lá sem um centavo a mais no bolso. Se você vai ao Detran, sua carteira de motorista está pronta e impressa na mão da atendente, mas estão “Sem Sistema”, você é obrigado a voltar no dia seguinte. Até na locadora de filmes, o DVD está na prateleira e você só precisa que o atendente faça algum registro, mas estão “Sem Sistema” e você fica sem seu entretenimento.

O Sistema tornou-se um ente superior que a tudo controla, que a todos dita o que pode ou não pode ser executado, que possibilita que as operações sejam feitas e as demandas atendidas. Vivemos governados pelo Sistema, dependentes de seu bom funcionamento para que os serviços, burocracias e as próprias pessoas possam fluir.

Sou um tanto avessa a esse modo de vida moderno impregnado de burocracias, mas como estou aqui no ambiente urbano e optei por essa vida da cidade por enquanto, me recomponho por dentro e enfrento a submissão ao ser superior Sistema quando é necessário – e cada vez mais ele é necessário.

O Sistema está impregnando tanto as relações sociais que deixamos de prestar alguns serviços por pura dependência da máquina-tecnológica-burocrática-organizadora-de-tudo que se constitui e assim, numa combinação de surpresa com consternação, presenciei, nos primeiros dias de aula da minha filha, o quão cruel pode estar se tornando essa lógica moderna de tratos sociais, culturais e econômicos imposta pelo Sistema.

A Clara estuda no La Salle, uma instituição que tem filosofia “humanista”, e por eu estar mais interessada em priorizar as relações afetivas e emocionais da minha filha que os estudos em si, optei pelo colégio. É uma forma de priorizar um mundo  mais humano do que um mundo técnico. E em três anos de relações com o colégio ela estabeleceu amizades e convívios que aprimoraram suas múltiplas inteligencias, o que muito me alegra. Para nossa surpresa, dias antes do início das aulas, ao consultarmos o Sistema Online, verificamos que as amigas que vieram estudando na mesma turma há três anos foram separadas. Logo imaginei que fosse por causa de algum desacordo acadêmico-pedagógico. Inclusive preferiria mil vezes que o coordenador tivesse essa conversa comigo e com a Clara “mãe, sua filha bagunçou demais, tivemos que trocar ela de sala”, seria mais humana, mas não, a conversa foi outra:

– Senhor coordenador, bom dia, é a Paula, mãe da Clara…. queria saber quando posso fazer a solicitação para que minha filha seja mudada de sala pois sua amiga de estudos está em outra turma.

– A mãe da Clara, não se preocupe, isso acontece mesmo, utilizamos um Sistema Randômico e ele distribui as crianças aleatoriamente entre as classes, se elas ficaram três anos juntas foi por pura sorte.

Nem continuei a ligação. Falei “ahãm” e logo desliguei sem querer acreditar na metodologia que usam. Sistema Randômico?! Fui até o colégio para ouvir outra coisa.

– Mãe, você já fez sua parte vindo aqui, mas usamos um sistema randômico para determinar a turma dos alunos, não podemos fazer mudanças, o sistema nem permite. Mudanças estão restritas a problemas de saúde e de aprendizado.

As meninas se mobilizaram e foram à coordenação. Foram à direção. Foram ao pedagogo. Foram com o professor regente. Pediram. Choraram. Imploraram.

– Não podemos atender. Vocês têm que conseguir fazer novas amizades, a vida é assim mesmo.

“A vida é assim mesmo”. Realmente. Creio que em dois dias de aula o La Salle ensinou duas coisas muito úteis para minha filha: uma é que a filosofia narrada nem sempre é a filosofia colocada em prática “uma escola humanista” é bem diferente de uma escola que usa um sistema randômico para distribuir seus alunos entre as salas; outra é que somos mesmos governados por um Sistema que facilita as burocracias e emburrece as relações pessoais.

 

 

Talvez fosse mesmo necessário adicionar no calendário o dia dos professores. 15 de outubro. Nada mais justo do que homenagear os mestres tão empenhados em nos ensinar dia após dia algum conteúdo nas salas de aula. O mestre vai pra casa, enche suas pastas de assuntos para tratar com seus alunos no tempo da aula, prepara seus materiais para, em tempos multimídia, ser um tanto atrativo para os alunos hiperconectados sentados frente a ele. Professores de carga horária lotada, que trabalham manhã, tarde e noite e ainda em casa preparando suas aulas, corrigindo trabalhos, revisando e lançando notas. Professores que fazem suas greves, reclamam de seus salários, reúnem-se dezenas de vezes e entregam formalmente o que puderam colher ao longo da vida.
Quando penso no ofício de ensinar, na doação do que se sabe ao outro, acho mesmo linda a arte de ser professor. E penso que a data pode ajudar reavivar o espírito da doação dentro desses mestres – coisa difícil de ser feita num dia a dia com contas e mais contas a pagar, contexto no qual a profissão mais vira instrumento de renda do que de um propósito maior, que é o da doação.



Acontece que hoje tenho uma visão mais ampla do que é “ser professor”, enxergo todos nós dentro de uma grande teia em que o simples ato de conviver nos proporciona aprendizados e ensinamentos constantes, numa troca espontânea e necessária de saberes. Não vejo a educação das escolas como a única legítima, por isso não vejo o professor como o único instrumento para o aprendizado e construção de uma sociedade melhor e mais igualitária. Vejo a educação das escolas como uma entre várias educações possíveis. Falamos de saberes, falamos de conhecimentos, falamos de diversas manifestações da sabedoria humana. E saberes, conhecimentos, sabedorias não estão contidos somente na classe dos professores, estão em cada um de nós, estão em nossas bagagens que são todas tão diferentes umas das outras, estão em nossas histórias de vida que quando compartilhadas transformam também a história do outro. Aprendemos com a vida, com as experiências, com a convivência, com os exercícios diários.
Hoje um amigo postou no facebook uma reflexão que dizia que 15 de outubro era dia do ser humano, dia em que nós, mestres de nossas vidas, nos enxergamos como parte de um todo complexo e integrado, totalmente colaborativo, em que nunca estamos sozinho e sempre estamos contribuindo. Somos parte e construímos o todo a partir de nossos conhecimentos, dia após dia. Dizer que 15 de outubro não é dia só do professor e sim do ser humano não é desmerecer esse profissional, e sim extrapolar o profissional. É vivenciar na experiência cotidiana a noção de que temos o tempo inteiro a responsabilidade de depositar na vida do outro os ensinamentos e as lições que a vida depositou em nossa vida, colocando o máximo que pudermos em prática. Brilhante tirar o professor do pedestal (ou da cruz) e nos nivelarmos em um ato de mais cooperação, responsabilidade por nós mesmos, harmonia e construção conjunta do mundo.

 

Está pra haver uma outra palavra que eu acho tão feia quanto “arrependimento”. Talvez seja feia assim pra soar mal mesmo e as pessoas tentarem usar menos, se arrependerem menos do que fizeram. Arrependimento vem do francês “repentir”, que quer dizer “sentir muito” ou “sentir contrição ou mágoa por uma má ação”.  Não gosto da palavra nem da própria atitude de arrependimento. Sempre acho um pouco injusta a visão arrependida porque acredito que somos seres em transformação, em inevitável crescimento. E ao arrepender sentimos culpa pelo modo como agimos no passado, queremos estar lá para fazer diferente, nos punimos por ter feito daquele modo e não de outro.

“Se arrependimento matasse…” e bem acho que mata mesmo, mata por dentro, mata as muitas possibilidades que a vida oferece, porque não faz sair do lugar, faz lamentar algo que já passou e está posto. Criamos um ciclo vicioso em torno da ação do passado reunindo em torno dela um monte de “e SE eu tivesse feito daquele jeito…”, e de “e se…” em “e se…”, há martírio, há punição, há cobrança e continua não havendo um jeito de retornar lá no passado e fazer diferente.  Acredito na mudança e na responsabilidade sobre o que fazemos. Acredito em assumir que poderíamos ter agido melhor e aplicar no dia de hoje o conhecimento obtido. Acredito em olhar o passado, analisá-lo com as ferramentas de hoje sem julgamento e lutarmos para fazermos melhor, fazer diferente, fazer de forma mais madura e consciente.

Hoje somos mais e melhores que ontem. E o arrependimento é sempre uma visão do nosso EU de hoje sobre nosso EU de ontem, aquele que era pequeno e mais imaturo, que agiu de um modo e não de outro porque as ferramentas que ele tinha em mãos eram aquelas daquele momento e não as que tem em mãos hoje, melhores e mais eficientes.

Se hoje escolho agir de um jeito, é levando em conta o que há pra hoje, o que eu sinto no momento do AGORA, no que eu tenho no coração e na mente pra esse momento específico e pra nenhum outro. O arrependimento nos faz olhar pro EU de ontem com ferramentas melhores, com olhos que enxergam mais porque já viveram mais e percorreram um trecho maior do caminho da vida. É mais fácil olhar do futuro e saber as consequências do que olhar do hoje e saber o que vem pela frente. Do lugar do caminho que estamos hoje não dá pra ver depois da curva, não dá pra ter as informações que teremos logo ali na frente. O caminho nos faz crescer e nos faz tomar outras decisões. O que é maravilhoso. Fazer diferente hoje é a melhor forma de curar aquilo que gostaríamos de ter feito diferente no passado. Arrependimento não faz a situação de antes ser diferente. Tem um dito popular muito bonito que diz “se agimos errado foi tentando acertar”, é uma forma de fazermos carinho em nossas próprias cabeças e dizermos pra nós mesmos que se o resultado não foi o  melhor, se não foi o que esperávamos, paciência e segue adiante com essa experiência adquirida, usando as ferramentas de hoje pra construir o hoje, mais uma vez tentando acertar. Um novo passo transforma o hoje, que é a única coisa que temos em mãos.

 

 

 

Era uma vez uma mula de duas cabeças. Não eram duas cabeças com as dos siameses que se sobrepõem lado a lado, eram cabeças tarracháveis, com roscas. Se quisesse poderia inclusive ser uma mula SEM cabeça, mas parecia algo fantástico demais para ela, uma mula tão comum. Preferia algo mais tradicional. Quando a mula queria trocar de cabeça ia até o guarda-roupa, destarrachava a que estava usando, enroscava a outra cabeça no lugar e pronto: cabeça trocada, outro mundo, outros valores, diferenças justificáveis, uma leve cegueira constante.

Cada cabeça servia para uma ocasião e a mula era satisfeita por ter as duas. Elas podiam fazer dela uma mula bem esperta e aparentemente inteligente em qualquer situação. A primeira cabeça era seu lado “business”, comandava seu jeito “mula profissional de ser”. Quando estava no curral ela gerenciava a entrada e a saída dos bezerros, a quantidade de leite que cada vaca deveria produzir e o local em que os bois deveriam dormir. Sentia-se inflada ao ser obedecida pelos animais e avaliava-se como uma excelente mula gestora, mais inteligente que todos os outros, nunca considerando a possibilidade de um belo cavalo sequer repousar por aquelas bandas e ganhar o status de gestor num piscar de olhos, mas enfim seus dias seguiam com alegria e um pouco de inércia mental.

Passava todo o tempo fazendo a gestão do curral e reinando em sua vaidade e definições. Quando o fardo da ocupação lhe soava um pouco pesado ela seguia até seu guarda-roupa, trocava sua cabeça e caminhava calmamente pelos pastos. Sentia-se leve, cheia de bons valores, um espírito evoluído, parte da natureza, integrada, completa, super especial, “a escolhida”.

Nessas suas caminhadas pelos pastos seu lado “mula espiritualizada” falava alto. Vez ou outra ela parava e ficava horas a conversar com a fina borboleta, sempre tão leve e livre. Passavam horas falando sobre suas liberdades e descobertas, complementavam-se e amavam-se. Quando estava com a borboleta a mula tinha vontade de deixar o curral pra trás e esquecer a outra cabeça esquecida no guarda-roupa, mas sabia que isso não era possível. Lá no curral ela era tão importante, tão insubstituível, era impossível imaginar aqueles animais desprovidos de inteligência se organizando sem ela… Ficava mais uns minutos no pasto e voltava para o curral.

Numa dessas manhãs ensolaradas de segunda-feira acordou assoberbada com tanto trabalho acumulado: os bezerros ainda estavam dormindo quando já era para estarem de pé, as vacas estavam de papo furado quando a ordenha já deveria ter começado, e os bois estavam todos do lado de fora do curral molhando-se nas águas…. uma verdadeira bagunça.

– Vocês têm que se organizar melhor, assim não tem jeito, tenho que pedir mil vezes! Só EU me preocupo com as coisas aqui, por isso nada sai do jeito certo. Vocês fazem tudo errado!! Andem!! Andem!!

Estava aos berros quando de longe veio aproximando-se a borboleta. Logo ela, a borboleta, que nunca vagava por aquelas bandas do curral vinha leve e livre pelos ares… lindamente ela voava pelos ares a observar o curral.

A mula estava muito ocupada resolvendo seus problemas mas não pode evitar de sentir uma grande alegria em seu coração ao ver a borboleta. Não poderia dar atenção a ela naquele momento tão “profissional”, mas foi inevitável que seus olhos se encontrassem, penetrassem um no outro e naquele momento mágico a mula pode se enxergar com os olhos da borboleta, com os olhos da outra cabeça. A cegueira momentaneamente foi curada. Parou de gritar com os outros animais. Parou de arranjar tudo no curral. Parou por um segundo seu ego, percebeu suas grosserias, seus apegos, suas vaidades. E não enxergou amor em nenhum dos outros olhos que caminhavam cabisbaixos ao seu redor. A frieza do curral percorreu sua espinha. Olhou em volta e não viu mais a borboleta.

Muda, a mula se abaixou, deixou-se cair no chão. Chorou por sete dias e sete noites.

Recuperou-se, enfim. Foi até o espelho, conferiu se sua cabeça estava bem enroscada, lavou as orelhas, bebeu água e se colocou a percorrer o curral em busca de atos falhos da última semana sem gestão, tão cega quanto antes.