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A RAINHA DA HOSPITALIDADE. sobre aprender a receber o outro.

Paula Quintão | 27 de novembro de 2018

Era naquele airbnb que eu ficaria durante a estada em Belo Horizonte em dias de Escape. Um quarto no apartamento da Niusa.

Cheguei. Uma baiana.

“Oi, Paula, deixa eu abraçar você. E veja aqui, que bom te receber”.

Foi me mostrando tudo, primeiro a cozinha, e dentro da geladeira.

Quando as pessoas nos recebem abrindo a geladeira me encanto, me lembro da minha avó Selma, ela e sua acolhida, ela e sua alma abundante que tem tudo a oferecer, ela e sua generosidade de um ato que diz “aqui você também é bem-vinda”.

E lá dentro da geladeira da Niusa, entre potes bem organizados,  estava o iogurte que ela mesma faz e serve no café da manhã. “Raridade”, pontuava a plataforma do airbnb. Admiro quem faz o próprio iogurte. E quem faz o próprio pão. E a geléia. E a pasta de amendoim. Há algo na alma dessas pessoas que anuncia autocuidado, autoamor. E meu coração se abastece só de ver, lembrando de se amar também.

“Você vai ficar no meu quarto porque tem aqui um músico cego que me pediu para ficar mais uns dias”.

O quarto todo cuidado.

E a chave.

E a porta.

E a sensação de casa.

Ela me contou da sua história. Da dor de perder seu filho com 12 anos. Da depressão tão severa que viveu. Dos anos morando no mosteiro budista. Do seu pai quando partiu. E eu saí de lá em encantamento. Com o peito cheio por ver como é bonito quem recebe bem, como é bonito ser gentil com as pessoas e com a gente mesmo, como é afetuoso sorrir e abraçar, como um sorriso quando a gente chega faz diferença.

E eu só pude enxergar toda essa beleza porque a vida vai me dando as pistas e os símbolos para que eu aprenda também a ser assim, a abrir mais meus braços, a sorrir mais com o coração, a receber quem chega na minha vida com carinho.

E à Niusa agradeço as lições, a sábia presença que me ensinou tanto.

27 de novembro de 2018

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DNA ATUALIZADO sobre sobreviver ao voo mais turbulento atingido por um raio

Paula Quintão | 25 de novembro de 2018

Status atualizado: sobrevivente a voo atingido por raio e o mais turbulento da história da minha vida.
 
Na minha frente uma freira. Na fileira do lado um cara que voava pela primeira vez. Do meu lado um piloto de avião. Lá na cabine o piloto Latam anunciando manutenção de imprevisto no voo. “Nós da tripulação desse voo não aceitaremos voar se não estivermos com garantia de 110% de segurança”.
 
É, faça-me o favor e realmente não aceitem, agradeço. Uma hora arrumando lá fora. Os 201 passageiros lá dentro com seus 80 volumes de bagagem esperando – tinham feito as contas antes na fila de embarque.
 
Voamos. “O céu está muito encoberto até São Paulo, vamos precisar criar alguns desvios de rota, tudo está muito carregado”, entrou o piloto 110% da Latam falando no alto falante.
 
O piloto ao meu lado tinha um ex-medo de avião. Liberou fazendo curso e aprendendo a voar. “Tirei nota 10 em aerodinâmica”, além dos detalhes sobre o avião e seus voos, tinha umas histórias engraçadas sobre sua câmera de celular que produzia fotos borradas até que percebeu depois de um tempão que não tinha retirado a película protetora. Balançava e eu ria. Enquanto meu voo ameaçava cair, com ele aprendi sobre as asas que podem se dobrar, sobre a calda que vira sei lá como, sobre os pontos mais seguros, só não aprendi sobre os raios e trovões.
 
No mapa dava pra ver o piloto Latam zigzagueando entre Belo Horizonte e São Paulo buscando um espaço entre as nuvens para chegar em Guarulhos. Balança, balança, balança. “Nunca vi relato de avião cair por causa de turbulência”, anunciou o ex-medo ao meu lado.
 
Só que sexta teve evento do Escape e eu saí de lá com meu novo amigo de infância Ricardo Trajano e sua palestra sobre sua história de ser o único sobrevivente em um voo da Varig que caiu há uns bons anos. Admiração por ele, empatia à flor da pele, e ali meu voo balançando de um jeito que nunca vi antes. “Meu deus, que a vida também venha me abraçar como veio para salvar o Ricardo”.
 
E então… “Buuuum!”, um estouro imenso. Um raio na asa direita do avião. As luzes da aeronave oscilam. Uns gritam, uns ficam mudos. Meu-deus-do-céu!
 
Silêncio.
 
“Isso eu nunca vi”, o ex-medo anunciou ao meu lado. Eu no medo.
“Senhoras e senhores. Mantenham os cintos afivelados. Nosso procedimento de pouso será em condições turbulentas”.
 
E dá-lhe turbulência.
E a freira. E o moço de primeira vez na fileira ao lado. E o piloto ex-medo. E eu. E as histórias da palestra do Ricardo.
Era tudo um rezo só.
 
Turbulento. Turbulento. Turbulento.
Pousa.
 
Nunca vi passageiros vibrarem e gritarem tanto de alegria num pouso. O piloto 110% Latam foi promovido a piloto 1000% da vida.
 
“Aqui, como é seu nome moço da primeira vez que está voando?!”, perguntei que era pra garantir, provavelmente foi a vida me abraçando. “É, Breno!”. Breno. Anotei. “Breno, meu filho, eu vou checar toda vez que for voar se tem Breno na lista de passageiros que é pra eu decidir se corro esse risco ou não”. Rimos com a aeromoça que passou por nós com sorriso Latam, “Foi um voo tão tranquilo e suave”. O Breno já estava decidido que a volta era de carro. E eu já estava dali vendo minha vida que amo, a Clara, o Alexandre, meus pais, minha irmã, meus amigos. E nós saímos rindo, um alívio. Prontos pra recomeçar sobreviventes.
Paula Quintão, 24 de novembro de 2018
 
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DNA atualizado com sucesso. Pactos de vida refeitos para meu novo setênio.
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CADA VENTO NO ROSTO GUARDA UMA MENSAGEM sobre aprender pela dor ou pelo amor

Paula Quintão | 21 de novembro de 2018

Existe algo que aprendi. Uma sabedoria maior que a sabedoria que eu tinha.

E quando há uma sabedoria maior, é sábio também que a gente abandone o que acreditava antes.

É assim que as coisas avançam no mundo de dentro. E no mundo de fora.

E esse algo tem a ver com os modos de se aprender.

Pode se aprender pelo amor ou pela dor. Dois caminhos. Mesmo objetivo: ampliar a consciência, ampliar o poder da vida.

Quanto mais consciente estamos, mais em contato com nossa real natureza e real poder.

Pela dor já se sabe como aprendemos. Dói no corpo, dói na alma. E aí nada mais pode ser cuidado a não ser a própria dor. A dor se sobressai a tudo. É preciso olhar. Ela chama atenção. Ela tira as distrações. Pode ser uma dor física. Pode ser uma dor da alma. Não interessa, tudo o que a dor pede é “pare, por favor, e olhe. E sinta. E perceba. E compreenda.”.

Ao compreender a fala da dor, um aprendizado se desprende dela. E uma vez integrando esse aprendizado, é possível ampliar sua consciência, ampliar o poder da vida.

Você também pode tentar umas outras anestesias para a dor. Não adianta. A dor é como água que escorre, é como o amor… “passa por debaixo da porta”, bem diz meu amigo Silas. E você é livre para escolher o seu tempo de aprender. A vida te libera a escolha, mas não te libera da vida: é preciso ampliar a consciência, nascer da noite para o dia, da barriga de nossa mãe para o mundo. E como canta o Arnaldo Antunes, “é preciso não ter cabimento para crescer”. Só crescemos ampliando a visão.

Mas há também outro modo de aprender. Um modo que muito me interessa. Aprender pelo amor.

O amor se apresenta de maneira mais sutil. Mais invisível. O amor é aquela brisa que venta de leve no nosso rosto. Quase imperceptível, quase ignorável.

Dá para ignorar uma brisa. Mas não dá para ignorar um atropelamento. Pelo amor o aprendizado vem em símbolos, vem macio. Pela dor o aprendizado vem assim, como um caminhão que nos acerta na calçada.

O amor se comunica em símbolos. E dentro da dinâmica da ampliação da consciência, não existe evento pequeno ou evento grande. Não existe grandes feitos e insignificâncias. Sábio era o Manoel de Barros que prezava mais insetos que aviões. Ele aprendia bem pelo amor. O amor se comunica pelos símbolos. E o simbólico se repete aqui numa conversa com o seu amigo, ali na padaria do bairro, ali no seu relacionamento amoroso. O simbólico se repete na sua dificuldade de empreender, nas situações que você passa no trânsito. O mesmo símbolo. Sutil e macio. Leve e como brisa. Buscando revelar algum aprendizado que você pode ignorar… até um dia, adivinha?!, se transforma em dor.

A dor é todo o amor que se acumulou pedindo “por favor, será que você poderia parar um instante e olhar para mim agora?”.

Eu valorizo os símbolos. Isso pode parecer bobagem. Mas pra mim importa receber o que o amor traz de mensagens para que a dor só venha quando realmente for necessária. Há muito tempo eu já não desperdiço nenhuma dor, aprendo e mergulho em todas. E também há muito tempo eu venho me dedicando a aprender a me abrir para as mensagens que o amor traz. Na brisa suave. No vento macio. Nas insignificâncias do dia a dia. Nos símbolos de tudo o que vivo.

Paula Quintão

21 de novembro de 2018

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O DNA do Negócio que nasce da alma

Paula Quintão | 23 de outubro de 2018

Se não vier do fundo da sua alma, não vai fazer sentido e não vai durar”, do Jack para a Ally, em A Star Is Born Nasce Uma Estrela, com Bradley Cooper e Lady Gaga.

Há um jeito de criar um mundo a partir da nossa alma. Pode parecer que não, mas há. Pode parecer que é utópico, pode parecer que é sonho para depois da aposentadoria. Pode parecer que se for para viver de alma vamos ter que abrir mão de muita coisa.

Mas não é verdade.
A verdade é que viver da alma ao contrário de ser mais difícil é mais fácil. Criar o que é natural, criar a partir da nossa essência traz sempre resultados melhores do que criar a partir da demanda externa que nos conta histórias sobre produtividade, sobre o que o mercado valoriza, sobre o que as pessoas valorizam, sobre o que vende e o que não vende, sobre o que sustenta nosso estilo de vida e o que não sustenta.

É possível criar para o externo e ter ótimos resultados. Mas se a criação para o externo nasce do que vem da essência, antes mesmo de ter resultados externos, você já tem imensos resultados internos. Uma realização, um senso de “estou no meu lugar”, um retroabastecimento de energia mais natural, uma sensação de vida.

Tudo o que somos, tudo o que é natural em nós – conhecimentos, interesses, olhar, habilidades, temas, experiências, forma de perceber o mundo, bagagens – tem valor para alguém. Sempre tem alguém precisando exatamente do que somos e temos a oferecer. A equação é sempre perfeita. O que muitas vezes não conseguimos é revelar esse valor, é comunicar o valor e transformar em ações, produtos, serviços, vendas, rendimento financeiro. E tudo isso se aprende, se exercita, se pratica. Isso é o de menos. Aprender a comunicar e criar a partir da essência é possível, mudar a essência é que não é possível.

Tudo o que somos tem valor para alguém. E tudo o que somos tem o potencial em si mesmo de nos prover para sermos o que viemos ser. Basta saber transformar valor da essência em valor percebido pelo outro.

O que vem do fundo da alma precisa ser a bússola que guia a entrega e a construção da vida, e não o contrário.

Paula Quintão
23 de outubro de 2018

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(estou em tempo de divulgação do DNA do Negócio, a espiral que descobri que conta sobre o que é preciso fazer para manter vivo e sustentado um negócio que nasce a partir da essência)

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AS NOSSAS MONTANHAS DA VIDA sobre áreas que nos desafiam

Paula Quintão | 26 de setembro de 2018

montanhas da vida
AS NOSSAS MONTANHAS DA VIDA
por Paula Quintão
 
Aquelas áreas que mais nos desafiam são como nossas grandes montanhas da vida. Será a vida profissional? A vida financeira? A vida dos relacionamentos amorosos? A família? O corpo?
 
É só olhar para quais áreas mais nos pedem atenção e mais nos exigem equilíbrio, presença, que encontramos as montanhas da vida. Ou a montanha da vida.
 
Algumas áreas são uma montanhazinha coisa fácil, tipo uma travessia que faríamos em três dias pela Patagônia Chilena, paisagens lindas, um certo cansaço, uma dorzinha nos músculos, mas água quente e albergues de cama macia.
 
Outras áreas são como uma Serra Fina feita em três dias com um guia horrível que te apressa, com um grupo até engraçado, mas com barracas instaladas sobre pedras que durante toda a noite marcam sua coluna ou seu quadril.
 
E ainda outras áreas da vida que são como cordilheiras. Ou como estar a quase 4mil metros de altitude na trilha inca e você não consegue pensar em nada, só consegue seguir o instinto de dar o próximo passo, respiração totalmente ofegante.
 
Montanhas, mais montanhas, mais montanhas, mais montanhas. Você pode até achar que está tudo resolvido naquela área e aí chegam os ventos e bagunçam tudo, tiram seu rumo, uma nevasca desmarca toda a trilha e você precisa sempre consultar sua bússola interna para dar o próximo passo.
 
Eu amo as montanhas. Com elas aprendo o valor do passo a passo, da paciência com meus tempos e meus limites, a beleza que sempre há ao redor mesmo nos trechos de maior dificuldade e o quanto os sentimentos se transformam, o quanto a dor sentida é esquecida e em instantes ganha lugar para a alegria.
 
Hoje meu exercício tem sido olhar para as montanhas que hoje eu subo. Olhar para as áreas da minha vida e me perguntar como estão cada uma delas e em que fase da travessia eu estou. A explorar.
 
Paula Quintão
26 de setembro (kin 231)
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ÂNGULO DE VISÃO. sobre modos diferentes de enxergar a realidade

Paula Quintão | 12 de setembro de 2018

Ângulo de visão
Por Paula Quintão

Não dá pra pegar o seu ângulo de visão e emprestar para outra pessoa. Não dá pra dizer em palavras o que você vê e achar que o outro vai ver igual. Não vai. O outro só consegue ver com os seus olhos se ele te pergunta: “o que você vê daí?”. Só se ele te pergunta. E aí os seus dizeres vão ser como um empréstimo dos seus olhos para o outro.

Acontece isso no processo de expansão de consciência. Você vai vendo o invisível. E fica nessa ansiedade de o outro também ver. Porque quando a gente passa a ver parece tão óbvio que até esquecemos que antes também a gente não via. Só que o outro está vendo do ângulo dele, e não está te pedindo olhos emprestados.

Melhor seguir avançando na nossa própria visão, expandindo nosso olhar e percepção, do que ficar na tentativa de fazer o outro ver. Isso é o salvacionismo que o ego tem necessidade de viver.

Há uns dias escrevi sobre dar feedback que não foram pedidos e sinto que é a mesma coisa: o outro não pediu seus olhos emprestados, então ficamos na nossa. E avançamos na ampliação do que estamos vendo.

É assim. Cada um do seu lugar, todos juntos colaborando para o todo.

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POR SORRISOS QUE QUERO SORRIR. sobre liberar a parte que é feita de plástico.

Paula Quintão | 5 de setembro de 2018

POR SORRISOS QUE QUERO SORRIR. sobre liberar a parte que é feita de plástico.

Ela ensinou as mulheres a sorrirem quando seus maridos esbravejassem com elas. Me disse “faça isso e você vai ver que funciona”. E eu sorri, sorri como um plástico para ela. Sorri para aquela mulher. Sorri e me machuquei um pouco mais. E isso me custou meu estômago nessa manhã de segunda. Revirou minha alma. Me fez sentir tristeza. Me fez chorar um pouco mais do que eu já estava chorando pelo museu nacional que pegou fogo bem enquanto ela dizia isso.

Não quero sorrir para ter que desarmar um homem, não é minha natureza e não vou fazer isso comigo. Me lembrei de quando meu ex-marido disse num email enquanto eu me recolhia em um quarto de hotel buscando forças para continuar aquele relacionamento. “Voltam os sorrisos, voltam as flores”. Chorei aquele dia. Não havia mais como dar um sorriso que não viesse de um lugar sincero da alma.

Cada novo sorrir não sincero tornou-se uma punição à minha alma e ao meu coração. Por todas as mulheres da minha família que precisaram sorrir sem querer, que se sentiram obrigadas a receber entre suas pernas um homem que não era bem-vindo naquele dia, que se puseram a cuidar de tudo invisivelmente creditando tudo de bom a seus maridos, que desistiram de suas vidas em suicídios silenciosos para evitar dizer “basta” quando era impossível manter em seu rosto um sorriso de “concordo com você”…. por elas e por mim, não posso sorrir quando meu coração pede outra coisa diferente de sorrir.

Não quero fazer um sorriso quando minha alma pede “respeite-me”. Em tempos recentes, minha expressão conectou-se ao meu coração. Meu sentir conectou-se às linhas do meu rosto, do meu corpo.

Um sentir e um amar que passa por tudo que sou. E não sou só esse sorriso que concorda e acolhe. Sou inteira e por mim passa a raiva, passam os olhos assustados, as lágrimas derramadas, os abraços espontâneos, os silêncios que pedem calma, o pedido de respeito das palavras pronunciadas e ouvidas, o cuidar de mim para depois cuidar do outro, a humana inteira que sou.
Paula Quintão.
03 de setembro.
Onda do Guerreiro. Kin 208
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E depois desse final de semana eu anuncio que estou em época de lançamento da nova edição do Espírito Selvagem 2018, edição ano 4, agora uma comunidade de mulheres. É tempo. Logo.

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CAMINHAR NA DÚVIDA sobre seguir em frente mesmo sem clareza

Paula Quintão | 28 de agosto de 2018

CAMINHAR NA DÚVIDA sobre seguir em frente mesmo sem clareza

por Paula Quintão

Ela me escreveu porque sofria em seu mar de dúvidas. “Como caminho para algum lugar se nem sei para onde quero ir, Paula Quintão? Como caminho em meio a tanto dúvida se tudo o que vejo são pessoas que têm tantas certezas?”.

E meu coração se conectou a ela. Porque é tão ilusório pensar que o outro está vivendo lá em suas certezas. Estamos todos em processo. E o seu processo de dúvida é o meu processo de dúvida.  É também o processo de todos nós humanos. Somos todos assim, uma confusão por dentro buscando luzes que nos ancorem em um encontro com nós mesmos. Vez ou outra a confusão se alinha, vem um lampejo de clareza e sentimos “agora sim”. E o vento vem de novo e bagunça os cabelos, muda os cenários, refaz as paisagens.

Passamos a vida lapidando a descoberta do que somos e para que viemos. E esse é um processo que dói se não aceitamos que é assim mesmo. Temos dúvidas, e que mal há nisso. A dúvida nada mais é que uma pergunta.

Tenho dúvidas eu, Paula. Tem dúvidas todas essas pessoas que você tanto admira e acredita que estão com as perguntas todas respondias. Quem olha de fora pensa que está tudo resolvido dentro. Mas não está. Porque essa é a jornada de todos nós. Todo mundo tem dúvida. A pergunta faz parte da essência humana.

E a gente avança mesmo com dúvida, essa é a grande questão. Caminhando em frente a clareza vai chegando. É no passo a passo, no seguir em frente, mesmo que andando em círculos ainda assim avançamos algo, é que vamos aos poucos eliminar as dúvidas e encontrar mais certezas. Mas para encontrar as certezas, que nada mais são do que dissolução da dúvida, precisamos caminhar no escuro.

E de tanto caminhar no escuro, começamos a enxergar a luz que os olhos podem ver dentro da própria escuridão. A vida acontece no escuro, tal como um bebê se formando na barriga de sua mãe. Em frente.

Paula Quintão.

28 de agosto de 2018. kin 202

 

E aqui te dedico uma canção. Ouça com o coração.

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ORDEM DA AJUDA sobre feedbacks e ajudas que não foram pedidos

Paula Quintão | 23 de agosto de 2018

Sobre feedbacks que não foram pedidos e sobre as ordens da ajuda

Por Paula Quintão

Às vezes nos colocamos na posição de ajudar o outro. Na posição de quem estende a mão para fazer um “bem”. Só que o outro não nos pediu nada, não solicitou ajuda, nem ao menos quer ajuda.

Sistemicamente há uma desordem aí: ajudar sem que o outro tenha pedido ajuda, responder sem que o outro tenha perguntado.

Eu via muito isso acontecer na Amazônia durante o tempo que morei lá. As comunidades ribeirinhas recebem muitos projetos de ajuda, às vezes por algo totalmente inútil naquele contexto. Essa semana no evento que palestrei a Petrina falou sobre isso. “Ajudar sem antes se conectar ao humano do outro lado é totalmente descabido”, dizia ela algo assim.

Lembro de quando o Luciano Huck com aquele jeito salvador da pátria foi fazer umas mudanças e investimentos numa comunidade ribeirinha: uma pousada, energia elétrica e freezers da coca cola. Talvez pra nós soe exagero os freezers, mas muito provável que pra eles a energia elétrica já seja um exagero, porque é outro mundo, é outro paradigma, é uma realidade que você náo dá conta porque não é a sua. Mais fácil seria perguntar: estão precisando de algo? Talvez motores de rabeta e diesel fosse uma resposta mais lógica, mas aí o bem não ia ter efeito para quem queria fazer.

O sentido está na ordem: a ajuda vem com base no que o outro solicita.

Lembro de quando tive infecção urinária em 2009 e fiquei de cama uma semana sem conseguir me mexer nem comer direito. A mãe de uma aluna da faculdade, a Fernanda, veio até minha casa, nunca tínhamos nos visto antes. Ela bateu na porta, eu atendi e ela disse: eu vim te ajudar no que você precisar. E eu disse: o que você puder me ajudar. Ali eu dava sinal verde. Ela descongelou uma carne, fez um pure de batatas, serviu pra mim e levou no sofá onde eu estava deitada. Depois limpou coisas da casa, lavou as loças. E eu só agradecia, eu agradecia, eu agradecia. Até hoje meu coração agradece essa anja. Mas ela me perguntou. “Ela me perguntou”. E isso é muito respeitador, é muito valioso.

Essa necessidade de responder sem ninguém perguntar ou ajudar sem ninguém ter pedido nada mostra uma patologia que é nossa e não do outro.

Vejo que às vezes o outro pode não se dar conta que precisa de ajuda, que o outro pode estar acanhado, que o outro pode achar que não é pra te pedir nada porque você não está disponível. É pra esses casos que serve a simples pergunta: “você está precisando de algo?”. Se a resposta for sim, você vai ter como ajudar; se for não, você digere sua sede de dar e vai direcioná-la para algo em sua própria vida ou na vida de outro alguém que te diga “sim”.

O mesmo serve para feedbacks, o mesmo serve sobre analisar o outro, o mesmo serve para orientar alguém. Pergunte se o outro quer ser orientado, quer ser avaliado, quer ser analisado. Se sim, você está diante de alguém em posição receptiva, faça então seu movimento de dar. Se não, você está diante de alguém que não quer ouvir o que você tem pra dizer e sua ação só vai trazer indigestão mesmo que seja com a melhor das intenções.

Uma ordem da ajuda, bem nos ensina Bert Hellinger em seus estudos sistêmicos, é a ajuda ser solicitada pelo outro. Importante refletir, mais importante ainda executar.

Paula Quintão

23 de agosto de 2018

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HOJE QUERO FALAR SOBRE O TEMPO sobre o tempo distorcido

Paula Quintão | 16 de agosto de 2018

Dedico ao meu amigo Magno Souza, guardião das chaves para os caminhos da Montanha Encantada. 

Quero falar sobre o tempo distorcido.
Sobre a pressa.
Sobre andar rápido.
Sobre apressar os passo.
Sobre estar atrasado.
Sobre a data de vencimento.
Sobre os juros.

Hoje quero falar sobre o tempo distorcido. Esse que nos faz perder a fala, que nos faz dormir preocupados, que nos deixa ansiosos assim que abrimos os olhos pela manhã “estou atrasada?”.

Esse não é o tempo do divino. Imagina a árvore amanhecer e se perguntar “estou atrasada pra fazer a fotossíntese?”. Não é a minha natureza esse tempo do relógio. Esse tempo não é parte do meu sistema, é um tempo criado pelo homem que é totalmente alienígena à minha essência.
Um tempo que não consigo digerir. Um tempo que me aperta o peito. E que agora, vivendo em São Paulo, ficou ainda mais indigesto e impossível. O tempo das horas é como água que escorre entre os dedos.

Esse não é o meu tempo.

O meu tempo é o da noite que vira dia. E do dia que vira noite. Uma vez mais. E uma vez mais.
O tempo do plantio e das colheitas.
O tempo da mágica do germinar, da grandiosidade da gestação.
O tempo do encontro. O brilho nos olhos.
O tempo dos processos.
O infinito tempo da saudade.
O tempo do abraço.
O tempo das estações.
O tempo das criações e seus frutos.
O tempo do livre escrever do meu novo livro.
O tempo do agora que é atemporal.

O meu tempo não me apressa, não me cobra. O meu tempo não me cobra juros porque não existe atraso.

Não vou deixar para descobrir somente quando eu morrer que a grande ilusão da vida era medir o tempo pelas horas, pelas datas de vencimento, pelos dias de pagamento.

Em algum de sabedoria sei que a hora de ajustar o lugar dos ponteiros pra mim é agora. E que as horas me servem para o encontro com o outro poder ser combinado. E a partir de agora nada mais.

Sem o tempo dos relógios e das datas de vencimento, sigo o tempo que é meu, que é da minha natureza. E assim eu me assumo viva como tudo que é da natureza: noite e dia, dia e noite, germinar, criar, entregar, fluir, florescer.

Por amor a mim e a minha existência, eu libero o peso que o tempo distorcido impregnou no meu DNA e me conecto com a minha natureza divina das horas infinitas e dos tempos mágicos.

Paula Quintão
16.08.2018 kin 190

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