Categoria

Paula Quintão

Categoria

Hoje recebi alguns emails de leitores e coincidentemente eles falavam sobre o mesmo assunto: seus sonhos!

E amo pensar sobre “os sonhos”. Passei um tempo em minha vida dizendo para mim mesma que estava seguindo meu curso “sem remar para lugar nenhum”, entendendo a vida como um grande rio e eu ali dentro da minha canoa com dois remos à disposição, porém sem usá-los. Passei um tempo descansando na canoa só aproveitando o destino para o qual eu tinha remado por toda a vida, sentindo o vento bater no rosto.

Amo o lugar onde meus remos, meus braços, meu rio e os bons ventos me trouxeram. Passei um tempo curtindo o ambiente e agora, descansada, me coloquei a remar novamente.

Saibam que acho os rios lindos. Por isso mesmo, amo essa metáfora. Os remos são os instrumentos que podem nos levar até nosso destino, nossa meta, nosso sonho, nos fazendo seguir, inclusive, contra o próprio curso do rio.

Sei que às vezes é hora de deixar o rio nos levar, hora de deixar os remos ao lado do corpo e apreciar a paisagem que corre ao redor. Esses momentos são grandes recompensas. Mas quando queremos outras paisagens ao nosso redor, quando queremos viver outras experiências, temos que saber onde elas estão, criar um roteiro e um bom plano para chegar até elas, e usar nossos remos com todo vigor. Esses lugares maravilhosos são os nossos sonhos. E só quando traçarmos um plano para chegar até esses lugares, é que vamos realmente conseguir chegar lá.

Como nos ensina a história da Alice, quando não sabemos para onde vamos, qualquer caminho é caminho, e assim ficamos perdidos. A vida nos impõe tantas atividades que perdemos até mesmo a clareza sobre nossa essência, sobre o que gostamos ou não, sobre o que sempre quisemos para o nosso futuro.

Vamos então deitar hoje um pouco antes do sono chegar e pensar com carinho na pergunta “onde quero mesmo chegar?”. Assim usaremos nossos remos a nosso favor.

 

 

assine_newsletterb

banner_novoeu

Uma outra música toca em meu peito quando sou eu mesma, quando entrego palavras que rimam com o meu coração, quando as asas que voam dentro de mim ganham o mundo. Uma outra melodia eu consigo escutar quando a manhã nasce espontânea e os olhos abrem sem hora pra despertar. Um outro som ilumina meus olhos quando eu posso ir e voltar quando sinto que é hora de ir e voltar. Um outro acorde rompe minha alma quando ao lado de todos os outros posso ser só amor, sem amarra alguma, doando paz, fazendo o meu melhor. Uma outra canção paira no ar quando a noite se faz dia e os sonhos da cama são vividos ao acordar. Uma orquestra inteira rege a minha vida quando eu digo pra mim mesma que tenho asas e posso voar. O mundo canta num só coro e todos os cantos do planeta ficam cheios de luz quando abro meus braços e liberto o pássaro azul que há em meu coração.

Inspirado no texto “Pássaro Azul”, de Charles Bukowski.

De Paula Quintão. 09/05/2013

assine_newsletterb

banner_novoeu

Nem sempre nos damos conta do quanto repetimos pensamentos e criamos hábitos diários. A repetição pode passar despercebida por uma vida inteira. A verdade é que muito do que pensamos e refletimos nada mais são do que incansáveis repetições de um mesmo conteúdo, afirmado e reafirmado a mesma ideia como se fosse a maior novidade do planeta. Muito do que pensamos agora nada mais é do que repetição do que pensamos a vida inteira, foi o que o Gaiarsa, um dos meus autores favoritos, me ensinou em um de seus livros.
Além das ideias, repetimos nossas ações. Geralmente acordamos de um jeito, levantamos da cama e vamos fazer tal atividade, vamos ao banheiro num determinado horário e saímos pra trabalhar percorrendo o mesmo caminho. Criamos nossas rotinas.



A repetição vai, aos poucos, tirando nossa atenção daquilo que está nos ocupando naquele momento. Quando repetimos não nos damos conta do que estamos fazendo, simplesmente fazemos sem exigir nossa total concentração.
Quando começamos a dirigir, por exemplo, é muito difícil passar as marchas e fazer um freio motor numa ladeira, ou mesmo colocar o carro numa vaga que depende de baliza porque todas as atividades exigem muita atenção: a altura da embreagem, o nível de aceleração, a hora de pisar no freio, a posição da marcha, o que vamos ver no espelho retrovisor, a seta, a velocidade que giramos o volante. É quase uma euforia quando fazemos a baliza dar certo de primeira. Mas o tempo passa e dar ré, segurar o carro em freio motor e fazer uma bela baliza nem despertam mais nosso interesse, não prendem nossa atenção porque já foram automatizados em nosso cérebro, tornam-se rotinas, fazemos e pronto. E rotinas são formas de desativar o cérebro por uns instantes, tirá-lo do estado de alerta, de atenção total.
Diante do novo, nosso estado é outro. Quando conhecemos uma cidade estamos o tempo todo a observar os detalhes, comparar com o que já conhecemos em outras cidades, ter atenção às ruas, ao trânsito, às construções. Nossa mente, em situações novas, é como uma esponja que absorve tudo. Estamos despertos. Em viagens de férias, por exemplo, entramos em uma outra frequência: as horas ficam mais longas, parece que estamos fora de casa há muito mais de uma semana, os dias são enormes, o tempo gira em outro ritmo. Quando estamos diante do novo, a relação com o tempo torna-se outra, porque estamos muito imersos e atentos àquela atividade, ao agora, muito concentrados no presente. Esse interesse pelo que estamos fazendo nos torna mais vivos.
Pesquisas já mostraram que nossa atividade cerebral é muito mais intensa quando nos colocamos diante de situações que exigem nossa atenção, que nos tiram do automatismo. É claro que não precisamos estar despertos todo o tempo. A vida nos proporciona algumas rotinas exatamente para que nossa mente possa repousar um pouco, trabalhar num ritmo menos frenético, mas acomodar na rotina e não inserir novos elementos no dia a dia é permitir que a mente fique adormecida nos mesmos padrões e funcione num ritmo muito mais lento que poderia funcionar.
Viver mais e mais intensamente é inserir novos elementos no dia a dia, interromper pensamentos repetitivos substituindo-os por outros conscientemente. Por isso, saudemos sempre o novo.

Paula Quintão. 13/04/2013

 

assine_newsletterb

banner_novoeu

Bem posso dizer que sou um pouco arredia a médicos. Não “um pouco”, muito. Fico vendo todos nessa luta frenética por um horário marcado e uma fila no hospital e me benzo de alegria por fazer parte de um outro mundo, o mundo que não visita os médicos. Acontece que tem coisas que não curam pelo poder da mente – uma é meu dente que quebrou há quatro meses e agora precisa de um canal, outra é minha barriga que há uns três meses apresenta sintomas atípicos que mesmo eu, uma apurada observadora do meu corpo, não consegui compreender. Eu diagnosticaria como uma gravidez noturna, fato curioso e um tanto apavorante. Como não fez muito sentido meu diagnóstico, marquei, relutante, o médico.

Corbis-42-23201288

Segunda às 18h30 lá estava eu na sala de espera com meu amigo que fez a indicação: “é o melhor de Manaus”…. isso que as pessoas dizem dos seus médicos quando indicam para os outros. Às 21h o senhor Luis apareceu no corredor chamando meu nome. Adoro esses senhorzinhos mais velhos, fui logo falando com ele “detesto médico e só vim porque não estou conseguindo resolver sozinha”. Ele ria das coisas que eu dizia e da minha terrível suspeita de que posso ter intolerância à lactose, logo eu, uma mineira! Inconcebível!! E ria quando eu dizia “só vim pra saber se é algo grave, algo bem grave mesmo, dessas doenças que matam”, ou de quando eu deitei e ele examinava minha barriga “quero mesmo viver sem comida, mas minha barriga está me apressando a fazer isso”, riu quando eu mostrei meu exame de sangue recém publicado toda orgulhosa como uma aluna que tira boas notas. “É, com um exame desses qualquer médico se sente um pouco inútil”. Foi ótima a consulta, me diverti. Ele empilhou umas 7 caixas de medicamento amostra grátis na mesa: “um antidepressivo para o intestino” – o que soou meio absurdo pra mim – e disse que não seria preciso agora fazer mais exames, que eu devo estar vivendo algum tipo de estresse e isso causa inchaço na barriga. Hum….

– Dr. Luis, Dr. Luis, eu sou uma moça que faz ioga, que medita, que caminha, que fica calma no trânsito, não estou estressada.

Ele me olhou com cara de “sério?!”.

– Dr. Luis, eu sou suuuuuper calma, super calma, zen total!
Me olhou levantando as sobrancelhas.
– Ah, Dr. Luis, mas se você soubesse de quanta coisa eu tenho que cuidar durante meus dias…. ficaria orgulhoso de como eu sou zen mesmo desbravando o mundo e suas mil atribuições.
Riu com aquele bigodinho dele esperando que eu concluísse o óbvio.
– Sabe, Dr. Luis, eu não estou muito bem mesmo nos últimos tempos. Vivi um monte de mudanças. Até fiquei achando que estava com uma doença grave. E fiquei mesmo sentindo que estava um pouco depressiva. Tudo bem, você tem razão. Vou observar meu nível de estresse.
– Cuide-se com esse medicamento, vai te deixar mais confortável com sua barriga, volte daqui a um mês.
Disse assim essa última frase como um médico diria mesmo para uma paciente qualquer.  E eu vim embora pro mundo. E sei que o mundo não exige que façamos muitas autoanálises pra identificar se a barriga incha por causa estresse ou por causa do queijo. Com meu remédio mágico antidepressivo de intestinos estressados eu poderia até pular essa pergunta e seguir meus dias como manda o figurino.
Mas a quarta chegou. E meu dente, outra novela dessa vida mundana, me obrigou a marcar outra bendita consulta, agora com a dentista e não com o médico. Dra. Thaysa. Um consultório na torre de médicos do Millenium Shopping. Um tanto confortável parar no estacionamento do shopping, diga-se de passagem. E um tanto mais confortável quando eu consigo driblar os mil e um afazeres da minha quarta, sair duas horas mais cedo do trabalho, almoçar em tempo recorde para desempilhar pendências e organizar a agenda para estar ali 10 minutos antes das 16h, horário da minha consulta.
“Perfeito”, pensei. Ou “Ufa”, pensei.
Feliz por ter chegado 10 minutos antes fui procurar o elevador que dava acesso ao consultório. Eu, minha barriga inchada e meu dente  quebrado. E nesse momento uma cena um tanto surreal se concebeu na minha frente: para pegar o elevador eu teria que percorrer uma fila de umas 60 pessoas que tiravam do bolso sua identidade, sorriam em frente a uma webcam para ter sua foto registrada e ganhavam um cartão para enfim entrarem no elevador. “O que é isso, santo deus?!”. Fiquei lá resignada sem acreditar no esquema maluco.
Em quinze minutos eu dividia o elevador com outras 7 ou 8 pessoas. Subimos e eu desci no 5º andar.
Bati na porta trancada de vidro do consultório.
– Olá! Eu sou a Paula que te ligou há uma hora confirmando a consulta com a Dra. Thaysa, vim fazer meu canal! – faço uma cara de simpática nesses momentos de quem entrega um sentimento amoroso.
– A doutora foi embora.
– O quê?
– A doutora foi embora porque você não chegou às 16h.
Revirei minha bolsa caçando meu celular. Achei.
– Mas são 16h10!! E está um inferno lá embaixo para entrar nos elevadores!
– É…. eu sei. Mas ela foi embora.
Não acreditei. Não podia acreditar. Me levantei da cadeira bem devagar, talvez me sentindo nocauteada.
– Tá certo – soltei a frase entre os dentes. Puta. Derrotada. Sei lá o quê.
Parei em frente ao elevador junto com umas outras 5 pessoas. E comecei a sentir meus olhos cheios de lágrima. Meu queixo com aquele tradicional tremor de choro. Meu corpo todo querendo chorar, chorar, chorar, chorar, chorar. Chorar tanto até que o mundo se acabasse ali mesmo, num choro compulsivo por tudo o que tem me cansado tanto, por tudo o que tenho que dar conta pra chegar em todos os lugares no horário certo, fazer as coisas do melhor jeito possível, pagar as contas em dia, entregar o que me pedem no prazo, a casa, o doutorado, o trabalho, a filha, as contas, a saúde, as leituras. Quis chorar meu cansaço e o descaso horroroso daquela dentista. Chorar de cair no chão se fosse possível. Mas não foi possível. Não foi porque o elevador chegou. E mesmo meus olhos tão vermelhos cheios de lágrima já foram suficiente para todos que estavam no elevador darem mais espaço pra eu entrar, para deixarem eu sair na frente quando ele parou, para na farmácia as atendentes me perguntarem o que eu queria e para a moça do guichê do estacionamento me perguntar “tudo bem com a senhora?”. Um choro compulsivo como o que eu adoraria ter chorado seria demais pra todas aquelas pessoas, um desestabilizar de fim de dia.
Voltei pra casa pensando, durante metade do caminho, que o Dr. Luis bem tinha razão, alguém que quer chorar tão compulsivamente assim só pode estar mesmo em estado de estresse. E repeti pra mim o discurso de que tem horas que precisamos parar um pouco pra respirar mais fundo e encarar que os fardos, por mais que pareçam leves e possíveis de serem carregados por longas distâncias, ainda assim podem ficar ainda mais leves ou deixados no canto da estrada por um tempo para um breve descanso.
Voltei pra casa pensando, durante a outra metade do caminho, que o Dr. Luis abriu uma boa janela para eu olhar pra mim mesma enxergando mais fragilidade, mais cansaço, mais coisas a fazer que tempo livre, mais estresse. E não quero me enxergar assim.
Só de ficar tentando descobrir se tenho mesmo estresse ou se é uma autoindução por causa das conclusões do Dr. Luis minha barriga já inchou três vezes mais mandando eu parar de fazer perguntas e manter a  mente em silêncio, calada, muda, quieta.
assine_newsletterb
banner_novoeu

Numa linda manhã de sol, recebo o domingo de páscoa. Recebo com toda a receptividade para o simbolismo do momento: a renovação. No mais profundo silêncio vou abrindo as gavetas, as caixas, os armários, as mochilas com tudo o que guardei ao longo da vida. Reviro tudo o que há em minha casa, em minha história e em minha alma, numa busca pelo significado de tudo o que coletei. Há coisas que não são mais necessárias e posso entregá-las para outras pessoas usarem, coisas que posso deixar pelo caminho para que floresçam, há tudo o que guardei nas gavetas, itens que podem ser colocados no lixo ou como enfeite na mesa da sala, há peças que nem ficam mais bonitas em mim e não vou querer mesmo usá-las, há uma nova forma de olhar o que tenho para seguir com menos e sentir mais. A casa fica mais leve, os espaços ficam mais livres, a energia flui.

E então, num canto silencioso da casa limpa, é possível sentar e vasculhar os pensamentos, as crenças, as falas que estamos repetindo para nós mesmos dia após dia. É possível (e preciso) olhar com o mais amoroso sentimento as minhas escolhas, minhas atitudes, minha impressão da vida, meu modo de priorizar uma e outra coisa, minha relação com as pessoas queridas que estão em minha vida;  olhar minhas dificuldades, minhas amarras, minhas ansiedades, meus desejos, meus avanços, enxergar tudo para sentir o que precisa ser renovado, o que pode sair do lugar, o que já não é mais útil e pode ser deixado pelo caminho, para que assim, num ato de renovação eu me sinta mais leve e com isso mais livre.

Sei que a liberdade está no nosso olhar sobre nós mesmos e tudo o que levamos em nosso interior, nossa história. Sei que é o olhar que nos aprisiona pois ele pode ser muito cruel, muito questionador, muito crítico. E sei que somente eu posso  modificar esse olhar, enchê-lo de amor, porque o amor é o sentimento que mais nos impulsiona a olhar com profundidade para algo, um olhar de muita compreensão e afeto. Sei que a liberdade brota do espírito quando ele vai soltando as amarras, uma a uma, até que num momento decide seguir com o mínimo, seguir se amando, e assim alcança a libertação, ganha asas, acessa seu lado divino. Sei que quanto  mais amorosos somos com o ser em crescimento que há dentro de nós, mais livres podemos ser.  Que a páscoa traga essa renovação de tudo o que carregamos, do olhar sobre nós mesmos, deixando a vida mais leve, o coração mais sereno, o divino mais evidente, a alma mais liberta.

Paula Quintão. 31/03/2013