Esse texto só nasceu graças a uma pergunta que recebi do meu amigo Pedro Céu. Agradeço e retribuo com mergulhos em exploração dentro de mim e escritos que nascem deles.

Há uns dias eu ria de uma postagem que vi no facebook. Dizia que não era o bendito do amor que fazia a gente sair da cama e começar a semana, era raiva, raiva da vida. Achei graça. Vi um fundo de realidade em tantas vezes que a raiva foi o elemento que me fez agir num piscar de olhos e mudar minha vida de um segundo para o outro.

Raiva, bem sei, é força de mudança, de dar um basta, de dizer um não bem completo e bem dito.

Entro lá no instagram do outro. Nem sigo que é pra ser invisível e não dar audiência. Nem curto nada. O stories eu só veria do perfil fake, que é pra não dar o braço a torcer que estou acompanhando alguma coisa. O olhar vasculha a timeline em busca de algum defeito, alguma crítica que merece ser feita, alguma revelação que demonstre que o outro não é assim tão bom quanto narram suas legendas e suas fotos.

Lembro de quando meu segundo divórcio estava recente (ou nem tão recente assim) e meu ex-marido postou vídeo com a atual mulher. Assisti umas 50 vezes buscando alguma pista de que a coisa não ia assim tão bem quanto parecia. Encontrei, lógico. O sorriso largo dela deu uma pestanejada e eu logo entendi que a coisa não estava tão às mil maravilhas assim. É a inveja, irmã da raiva, fazendo as coisas acontecerem, fazermos ter motivos para esperar pelo amanhã, pelas cenas dos próximos capítulos.

As redes sociais se tornaram engrenagens poderosas da grande força motriz que roda a sociedade: a inveja e junto dela propulsora raiva. Uma inveja que compara, que busca o pior e o melhor no outro, nas escolhas do outro, na criação do outro. Junta e envelopada por uma raiva do outro que é comissão abre alas e vem puxando o desfile da inveja e por uma raiva de nós mesmos que encerra a passagem pela avenida do samba e abre dentro de nós passagem para o submundo da culpa, da vergonha, da autocrítica. Um mar de sombras sentidas e dores que nascem da comparação onde estamos em posição de inferioridade (e que criam uma sociedade dependente dos antidepressivos, logicamente).

Acontece que esse desfile da inveja pode não ser encerrado dessa maneira que coloca a raiva por nós mesmos em primeiro plano, ele pode ser encerrado colocando também a raiva do outro em destaque e aí é a hora que arregaçamos a manga e vamos criar algo, criar mudanças de cenário, construir cidades, negócios, empresas… até que um dia até uma mudança interna acontece e você ama tudo aquilo que criou e faz no seu dia a dia – nunca eliminando as sombras, e sim caminhando e gestando nas sombras para ter estímulos para criar na luz.  Assim a raiva junto com a inveja viram forças motrizes para acontecer uma mudança que vai nos fazer sair do lugar que estamos.

Por enquanto somos mais sombras que luzes. Todos nós. Sem exceção. Somos mais sombra que luz porque esse mundo para ter a densidade que tem na matéria precisa ser composto por mais sombra que luz. É pura física. 

Então o jeito é nos reconciliar logo com a sombra.  Estamos tentando pular essa etapa há muito tempo e a comunicação de massa e agora as redes sociais estrelaram um movimento de apego à luz, à vida perfeita, ao amor em primeiro lugar, à tudo lindo e florido. Sorrisos, frases inspiradoras, tudo lindo e maravilhoso, como se fôssemos todos essa felicidade sem fim. Devo dizer que é uma narração incompleta a que todos nós estamos fazendo – mas é incompleta porque também nós não damos audiência à sombra do outro. Perfis bad vibes, se não usam um mínimo de humor para elevar a frequência não têm audiência. E não têm audiência simplesmente porque não gera em nós nenhum estímulo da raiva, da inveja ou de apego à luz do outro como fonte de inspiração para nossas próprias vidas.

Por enquanto estamos longe de sermos toda a luz que narramos ser porque somos densos em sombras. Essa é nossa condição. O perigo está em nos enganarmos com a ideia de que o outro é pura luz, movido pelo amor todo o tempo, coração imenso e aberto que só tem pensamentos lindos, vai nos fazer entrar em lugares de frustração quando você não é todo paz e amor, ou vai nos anestesiar para a real mudança como se fôssemos bonecos de cera neutros que não reagem ao mundo. O outro não é essa luz toda. Ele narra parte da luz que passa por ele – ou talvez nem passe, seja só um lampejo mesmo.

O que reage em nós ainda muito da raiva. Ainda é inveja. E essas são nossas grandes forças motrizes retroalimentadas pelo todo.

Só sobrevivemos quando criamos algo, quando movemos algo. A vida (e o próprio amor em essência) é criação. E para criar, algo em nós precisa se mover da cama a cada manhã. Se não há estímulo nenhum, a roda não gira, a vida não acontece. Ainda nos impulsionam tantas vezes a raiva do outro, a inveja e também o dinheiro. Ter que pagar as contas é o que faz milhares de pessoas acordarem segunda-feira e irem para seus trabalhos.  Se quisermos viver sem dinheiro vamos para a floresta e acabou o problema. Mas até na relação que criamos com o que compramos e com as contas a pagar têm também a inveja definindo o que consumir e o padrão de vida a criar. (Entenda que até minimalista, aquele que consome o mínimo, é invejado, é também um exemplo de parte estrutural da narrativa da luz que somos, um bom mote também para a mídia da luz).

Somos domesticados e treinados para desenvolver um senso cada vez mais apurado de inveja. E isso não é à toa, é que sabemos inconscientemente que graças à inveja é que muitas vezes vidas aconteceão, histórias serão escritas, filmes serão criados, narrativas serão feitas, impérios serão construídos.

A inveja gera energia para a construção, para a mudança, para a ação baseada no querer – mas não exatamente a um querer conectado ao que é próprio do seu caminho, mas ao que é próprio do caminho do outro, e por intermédio do outro ativa aquilo que é próprio do seu caminho.

Vejo ali aquela grama tão verdinha e “maldita grama verdinha”, e bato no peito para dizer que eu vou ter uma mais verde ainda, me aguarde. Esse decreto nasce da inveja e gera uma ação de construção. No mínimo a frente da sua casa ganhou uma grama e ficou mesmo melhor que antes toda banhada de concreto.

As redes sociais e a mídia de comunicação de massa sabem bem disso e trabalha a luz que há em tudo: o brilho do cabelo, a decoração perfeita, o senso impecável de organização, o carro mais incrível, a viagem inesquecível, a mulher mais linda, o homem mais gato e mais rico. A mídia e a sociedade se apegam à luz porque somos todos apegados e estimulados pela luz. Agora o veganismo, o minimalismo, o despertar da consciência. Tudo é mídia apega à luz. Mas o que garante a manutenção da luz como objetivo de todos é o jogo que se faz na sombra: e a inveja, a raiva, a vergonha, a culpa… são as sombras que mantém a propulsão das luzes no ar, ao vivo, direto na sua timeline. E claro, como a força centro de tudo.

O sistema educacional segue a mesma pauta (ou posso até dizer que ele dá corpo e forma à essas forças) nos ensinando que nota boa mesmo é o 10, tirando os méritos de quem tirou um 5 e não se dedicou tanto assim. Notas boas, responsabilidade, disciplina, prestar atenção na aula, ser estudioso… a escola é mantenedora das engrenagens que nos fazem seguir em direção à luz mas graças à força que existe no comparar, no concorrer – um comparar e um concorrer que só é possível se são estimuladas a inveja e a raiva.

É a sombra que vai criar o movimento, que portanto vai fazer a vida criar engrenagens de ação. É a sombra que vai nos fazer ficar atentos ao próximo movimento para então desejarmos nos mover também.

Agora não precisamos mais da mídia de massa para nos ditar os padrões da luz. Agora nós usamos as redes sociais e fazemos esse discurso juntos: apegados à luz como somos (afinal é pra lá mesmo que vamos e somos), começamos por conta própria a narrar nossas vidas iluminadas e continuamos a retroalimentar a força da inveja e da raiva. Não é mais o carro do ano, é a viagem à Austrália. Não é mais o apartamento chiquérrimo, é ser minimalista vegano. Tudo em essência o mesmo: narrativa da luz que enche nossos olhos de “é isso!”, um “é isso!” movido nem tanto pela inspiração e reação ao que vem do outro.

Inveja e raiva, muito diferente de serem um problema, estão à serviço da manutenção da vida, estão todos os dias evitando um suicídio em massa pela total ausência de sentido encontrada na vida. Inveja e raiva estão fazendo a engrenagem da vida girar e criando novos cenários de mudança e construções que nascem das sombras e nos levam, sim, de fato, para a luz.

Ainda estou construindo….

Paula Quintão. 20.05.2018

Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br

  • Rodolfo Martins

    Parabéns Paula um texto longo mas faz muito sentido e nos dá uma reflexão em várias fazes em nossa existência , obrigado gratidão pelos momentos de reflexão .