MINHA AVÓ SELMA E SUA INCRÍVEL SABEDORIA DE VALORIZAR O AGORA

Fiz questão de começar a série “Vidas Admiráveis” abrindo as portas com minha rainha da sabedoria do bem viver, minha avó Selma. E ao mexer e remexer nas minhas memórias, minha vontade é pegar um voo e ir para Barbacena só para encontrá-la um pouco mais, encontrá-la na sala em seus momentos de alegria.

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Minha avó Selma e a incrível sabedoria de valorizar o AGORA 

Mais uma vez, lá estava ela na sala com seu acordeom dançando em passos curtos “um tico tico lá, um tico tico cá”. Chegar à casa dos meus avós era encontrar minha avó rindo de suas próprias graças, dançando as músicas que durante toda a minha vida só vi ela cantar, tocando flauta ou violão ou teclado ou qualquer outro instrumento que ela se interessasse. Chegar à casa dos meus avós era encontrar minha avó sempre feliz nos recebendo de sorriso aberto. E ir embora da casa dos meus avós era levar pra minha casa uma sacola com coisas para comer: poderia ser um abacate, um pão que virou torrada ou alguns chup chups. 

Houve um dia, que de tanto eu conviver com a alegria da minha avó, eu decidi que queria ter a mesma alegria dela para todo o sempre. Mesmo uma criança que ainda não racionaliza muito bem o que há de tão brilhante na vida da minha avó pode decidir rapidamente que quer viver como ela. Por muitos motivos ela não se enquadra no mundo endurecido dos adultos e seu espírito de criança faz seu mundo parecer muito mais incrível que os outros mundos ao seu redor. E não há nada que possa transformar tanto uma existência quanto manter vivo nosso espírito de criança – não um espírito infantil imaturo, mas o espírito de uma criança que sabe aproveitar o agora e doar amor espontaneamente. Minha avó sabe fazer tudo isso.

Primeiro porque minha avó tem uma lista de mil interesses. Ela ama dançar, fazer artesanatos, escrever músicas e poesias, fazer comidinhas para vender, cuidar das flores, tocar violão, teclado, acordeom, flauta. Pessoas com uma lista de muitos interesses são incrivelmente desapegadas porque sabem que a vida é mais do que aquilo que têm, não precisam de coisas materiais para serem felizes, pois sabem que sempre haverá algo maravilhoso a fazer.

Segundo porque a “dona Selma” chora de rir dela mesma, literalmente. E assim é fácil ver que ela se ama imensamente. Olha para os próprios feitos e quer contar às gargalhadas suas traquinagens. Mesmo tendo passado pela vida muito mais momentos duros que macios, ela enxerga todos os momentos como se fossem aveludados. Dia desses minha tia ligou pra ela querendo saber se estava tudo bem. “Ah, minha filha, estou bem sim, mas não estou tão ativa quanto antes com as coisas da casa, nem estou fazendo artesanatos, nem tocando flauta”. Minha tia logo se preocupou: “Mãe, o que é isso? Será que você está meio depressiva?!”. E ela, segurando o riso: “Não, minha filha, estou totalmente viciada no facebook”. Contou a história pra todos os outros filhos morrendo de ir dela mesma. E é certo que aos 77 anos está viciada no facebook: cada dia faz um vídeo novo. Em alguns ela canta para a câmera alguma ópera, em outros ela toca violão, em outro declama uma poesia. Cheia de graça, ou como dizem aqui no Amazonas: “confiada!”

Terceiro porque minha avó enxerga o mundo com os olhos de amor e de bondade, e vê em todos que a cerca os mesmos olhos de amor e bondade. Minha avó não fecha a porta de casa, nem mesmo quando ela vai à rua fazer alguma coisa. Nem mesmo quando ela está sozinha. Minha avó acredita na bondade e faz a bondade reinar. Quando eu fiquei grávida minha maior tristeza era causar decepção nas pessoas que me amavam, até porque a lista de julgamentos que se tem para fazer sobre uma adolescente grávida é longa. Minha avó se sentou ao meu lado, me abraçou e pediu meu pai para tirar uma foto nossa.

E mais: minha avó sabe partilhar, sabe viver em comunidade, sabe dividir. Sua geladeira pode estar vazia e a dispensa sem nada, mas ela encontra alguma coisa para colocar em nossas sacolas quando estamos indo embora. E ela sabe que isso não faz ela ter menos, sabe que quando um ou outro filho for lá vai acabar levando um saco de pães, ou um queijo, ou uma carne para o almoço. E se não levarem, ela mesma vai comprar.

Minha avó teve 9 filhos. 7 são homens. 2 são mulheres. Meu avô era descendente de italiano, então bem sabem como era explosivo. E todos os filhos são verdadeiros filhos do meu avô: o sangue ferve em todos. Minha avó, de dança em dança, de música em música, seguiu em frente coordenando suas crias. Um cuidava do outro e ela cuidava de todos. Às vezes jogando bolinha de gude no chão do terreiro, outras vezes enchendo o chevette velho com os filhos para passear.

Minha avó escreve poesias, músicas e cartas inspiradas. Ela ficou só três anos no colégio porque seu pai não queria que ela fosse “superior” aos seus irmãos.  Nem sei até que série minha avó estudou, e isso não tem a menor importância porque sabedoria não se faz no banco da escola, e mesmo que em seus escritos uma ou duas palavras estiverem fora da norma ortográfica, minha avó tem tanto o que dizer que ortografia vira segundo plano.

Minha avó já quis saltar de paraquedas, mas um dos meus tios foi até o aeroclube de Barbacena buscá-la dizendo que se entrasse no avião iria direto para o hospício quando chegasse no solo depois do salto. Ela não saltou, mas foi a primeira a dizer “eu quero” quando eu contei que estava fazendo o curso de paraquedismo.

Há poucos dias ela caiu e quebrou o fêmur. Disse que por causa de uma picada de aranha que levou há uns meses, sua labirintite piorou. “Depois da picada eu fico tonta e ando para trás em alta velocidade”. E antes mesmo de começarmos a rir, ela já está às gargalhadas. “Em alta velocidade, pensa bem!”. E agora ficará por três meses deitada esperando o fêmur se recuperar. “Meus filhos ficam só me vigiando, mas todos os dias eu levanto e vou ali arrumar a gaveta”.

Quando meu avô morreu ficamos todos muito sentidos. Ele era o homem mais forte que eu conhecia e sei que se não tivesse fumado por tantos anos estaria aqui firme e forte. Mas todo aquele movimento de funeral realmente cansa e desgasta a energia de qualquer um.  E a principal preocupação era como seriam as reações da minha avó. Depois de 54 anos de casada, lá estava ela caminhando pelo cemitério acompanhando o enterro do meu avô. Nesse momento, ela deu os braços pra mim e pra minha irmã e soltou sua pérola inesquecível. “Vamos lá jogar o Antônio no buraco”. E começou a rir. “Se o Antônio ouvisse ia achar a maior graça. O Antônio chorava de rir comigo”. Da tristeza, a alegria. Do limão, a limonada.

Amo minha avó. E amo o jeito como vive sua vida. Ela faz a existência parecer fantástica. Faz os problemas se tornarem muito menores do que são. Faz o simples ganhar o maior brilho e a maior importância. Faz a vida ser leve e plena. E um viver assim é mesmo admirável. 

 

16 comentários

  1. Leonardo Blasch

    Que lindo! Avós são mesmo a maior fonte de conhecimento para a vida, não porque estudaram muito, mas porque viveram muito, e isso vale mais que qualquer ortografia ou concordância. E que figura a Dona Selma! É bom saber que tua admiração por ela está construindo um futuro maravilhoso: vejo que você vive muito essas experiências e que se vê assim também, porque pra mim a Paula ri de si mesma, tem uma lista enorme de interesses, divide tudo o que tem e olha com olhos de bondade e amor o tempo todo. Olhar pra você é ver a felicidade da vida em qualquer instante, especialmente no agora!

  2. Lorrance

    Que lindo prima, é mesmo de se admirar essa força,coragem e garra que a nossa vó tem.. tenho muito orgulho de ser dessa família QUINTÂO, que nos acolhe sempre que precisamos. Saudades de todos .. um grande abraço !

  3. Ursula

    Prima, muito lindo! Nossa avó é simplesmente maravilhosa, única, irradia alegria e felicidade a quem está ao seu redor. Chorei lendo o texto, chorei não só de emoção mas também de saudade. Vou correndo ver nossa vózinha…

    Grande beijo prima, e parabéns, muito muito lindo! Você descreveu muito bem nossa avó. =)

  4. Maria Edith Alves Quintão

    Com alegria e leveza você nos presenteia e nos faz recordar cada pérola, cada gesto, da nossa querida “minha sogra/amiga” Dona Selma. Você soube colocar em poucas palavras tudo/muito do bem que ela faz, não só para nós da família como também para a sua legião de amigos que ela conguista a cada momento. Você Paula, é tão corajosa quanto ela. Continue o seu caminhar com as luzes do Espirito Santo. Beijo grande. Amo você. Tia Edith

  5. Paloma Oliveira

    Que bela homenagem!!! Que Deus conserve essa vivacidade da Tia Avó Selma Quintão por muitos e muitos anos, muita sabedoria e alegria…Paula Quintão parabéns pela sensibilidade e pelo talento notável que possui.Continue escrevendo sempre , você consegue despertar em nós “leitores” emoção pois escreve com o coração.bjs.

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