Domingo a Avenida Paulista fica fechada para ser uma rua de lazer, posso dizer uma rua que cabe o Brasil inteiro. Não sei bem como funciona para as pessoas que vão lá oferecer seus serviços, suas miçangas, suas músicas, suas performances, suas bancas. Fiquei pensando nisso enquanto eu caminhava entre o mundo de referências dessa manhã de páscoa e ouvia a banda tocar entre seus teclados, caixas de som, baixos e guitarras. Ou quando vi uma moça vendendo seus quadrinhos em um carrinho que mais parecia ter sido feito pelas mãos de seu próprio pai de tão lindo que era.

E entre uma e outra estação, quando resolvi descer para o Mirante da 9 de Julho, eu estava diante de um mágico e seu show em pleno asfalto. Ele mostrava seus truques, as pessoas aplaudiam quando eu fui chegando. Era a carta de baralho, era o anel dentro de várias sacolinhas, era a bolinha que se multiplicava nas mãos da criança.

Eu me encantei por estar ali, somos assim, não é? Humanos que andam distraídos e que num instante para o outro se encantam. Não havia nada específico em especial e era tudo lindamente especial. O olhar surpreso do menino de seus 3 ou 4 anos quando percebeu que de uma só bolinha agora haviam agora 3. O olhar e o sorriso sem graça da menina que em seus 8 ou 9 anos foi chamada para participar com seu anel, e seu olhar e sorriso revezavam entre o mágico, a mãe e o céu que parecia soar como um apoio a mais. O jeito desconfiado e animado do moço que em seus 20 e poucos anos apontou uma carta de baralho como opção para o mágico e voilá! Era a carta do baralho que estava marcada.

Observei as pessoas e me emocionei. Chorei por ver a mágica do instante nos reunir, nos fazer sorrir, nos fazer dizer em um só coro “óóóóóóó”.

Tão simples, tão profundo.

Foi um presente de páscoa, um presente que veio em combo à exposição do Saramago que fui ontem. O Saramago sempre a me lembrar da janela da alma, dos olhos e de ajustar a forma como estou enxergando.

Desde ontem, em minhas reflexões pré-páscoa, o que tenho sentido é muita alegria porque os olhos daqui estão enxergando diferente, estão regulados para outras percepções ultimamente e isso tem me feito um bem, pelo menos tem acalmado a alma, e isso vale muito nos dias de hoje. E quando os olhos podem ver diferente, é o mesmo que renascer. Para a páscoa, é o que desejo para mim, é o que desejo a você, caso sinta que é valioso: “olhos para ver além, olhos para ver cada vez um pouco mais”. Ou, como citação que abre um Ensaio Sobre a Cegueira, “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Paula Quintão. 01 de abril de 2018

Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br