Eu morava em Manaus naquela época. Gosto da lembrança quando me vejo em meu carro presa no trânsito, coração um tanto acelerado me cobrando para chegar no horário sem atrasos para o turno da tarde, logo depois do almoço. Almoçar às pressas já tinha se consolidado para mim. Era assim e pronto.

Um engolir sem mastigar.

Eu e minha filha tínhamos tudo mais ou menos organizado para que a orquestra não tocasse nenhuma música diferente da prevista. Imprevistos não eram bem-vindos, imprevistos me atrasavam. Quando imprevistos passam a significar atrasos é bom ligar um alerta, hoje eu vejo. Porque a vida é de imprevistos, a magia da vida está em se abrir para o inesperado e recebê-lo de bom grado. Mas eu não podia, tinha um horário a cumprir.

E meu trabalho, naquela época de tantos descontentamentos, se baseava não só em oferecer meus serviços, meus conhecimentos, minhas habilidades de gestão, de criação, de produção, minhas funções incluíam também cumprir os horários, o cartão de ponto, o uniforme, não só meu, mas de toda a equipe que eu gerenciava. E eu me abatia em ver pessoas incríveis, que trabalhavam divinamente, receberem um desconto no final do mês em seus salários porque “faltou hora no banco de horas”. O meu emocional não conseguia se adaptar. Foram dias de ansiedade, foram semanas de inquietude, foram meses de entristecimento. Dias, semanas e meses que viraram ano inteiro. E eu me via perdendo minha alegria.

Na verdade eu via minha alegria indo e vindo, como ondas do mar, só que mais ondas de tristeza do que de alegria. As ondas de final de semana eram felizes, começavam na sexta de manhã e terminavam domingo à tarde. Minha liberdade condicional de final de semana, eu brincava.

O que eu não me dava conta é que com meu bem mais precioso, o tempo, eu estava a viver uma relação não muito harmônica. Por dias eu queria que ele passasse rápido, por outros dias eu queria que ele passasse lento. Dentro de mim, uma pane estava a se anunciar.

E então uma grande mudança consciente começou na minha vida. Eu comecei a me perguntar qual caminho me faria viver uma vida diferente daquela, de almoços apressados, de pontos e horários apertados, de trânsito ansioso, de sensação de impotência, de apressar o tempo. As perguntas movem um mundo, e o meu pouco a pouco se movia, mesmo que meus olhos não enxergassem.

Mais de um ano depois de eu começar a me fazer minhas perguntas, as respostas começaram a chegar. Elas tinham a ver com montar meu próprio negócio, oferecer meus cursos, minhas consultorias, minhas mentorias. Naquele momento tudo ainda bem embaçado, tudo ainda bem nublado. Eu não sabia tantas e tantas coisas sobre o caminho que trilharia, mas eu sabia que era aquele caminho. Não sabia como, mas sabia que era por ali que deveria seguir.

E eu segui. E sei que foi graças a cuidar de transformar minha vida profissional, que naquele momento era a área da vida que mais me incomodava e me fazia perder energia, que eu transformei todas as outras áreas da minha vida. Sigo a transformar, é bem verdade. Mas a partir do momento em que pude colocar minha vida profissional nos eixos, ela que era a mais fora do lugar de todas, eu pude me sentir mais leve, com uma rotina mais flexível, vivendo mais o que acredito e podendo ser guiada todo o tempo pelo que meu coração chama.

Paula Quintão

25 de fevereiro de 2018

Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br