A crônica de hoje é humorística, talvez se encaixe aí nesse gênero a história que hoje vou lhe contar. Ou seja um suspense, também lhe caberia bem. É uma desventura da vida real. Essa vida que traz a todo instante seus símbolos e nossa reação a eles.

Abri a janela do meu quarto, e por se tratar de um sábado de manhã, um movimento que fazemos com um certo prazer e brilho nos olhos… ao entoar um pensamento de liberdade… “o dia lá fora que me aguarda”.

Eis que me surpreendo…

(Essa é a parte em que a trilha sonora vai determinar se temos uma cena de humor ou de suspense, escolha por sua conta).

Além do céu azul e dos pássaros cantando, tinha uma cueca zorba branca caída no beiral da minha janela, que ficou presa e não alcançou o destino final que, imagino eu, seu dono pretendia.

Em minha mente tocava ainda uma música de suspense… naquele momento eu não entendi como a curca voadora percorreu o caminho da janela do seu apartamento de origem e o meu, que está no quinto andar.

Eis que minha escolha é contribuir para que a cueca chegue ao destino final desejado pelo seu dono: o solo. Até porque eu não traria para dentro da minha casa, meu lar doce lar, uma cueca invasora e sem procedência definida.

Nesse momento em que dou um empurrãozinho um tanto de pontas de dedos na tal zorba, eis a revelação. A cueca estava borrada, era uma cueca de um homem que não conseguiu segurar seu aperto e fez cocô na calça.

A cueca voadora ganhou um contexto e contextos contam histórias em nosso imaginário. Imagino que por estar suja de cocô, a tal cueca se tornou mal vinda naquele andar já que precisava de no mínimo uma boa lavagem dedicada de seu dono. Mas esse dono, muito provavelmente não querendo que seu aperto se revelasse  para outras pessoas dentro de sua casa, resolve enviar a merda toda pelos ares, com o entendimento de que melhor que encarar de frente aquela borrada nas calças, sua parte de responsabilidade era fazer a cueca desaparecer pelo mundo.

Penso que esse dono viveu dois apertos, um ao não conseguir ir a tempo no banheiro, e outro de não saber lidar com aquele resultado nada agradável em sua zorba branca.

Fico imaginando que deveria estar acompanhado de alguém, talvez ser um visitante ou estar com sua mulher, sua esposa talvez, ou sua namorada, ou quem sabe a dona do apartamento e ele visitando sua casa pela primeira vez, primeira noite juntos, e num momento meio Ben Stiller em Quero Ficar Com Polly o desastre acontece. Se estivesse sozinho, imagino eu, poderia ter jogado a tal cueca no lixo. Pra evitar qualquer vergonha, fez a coisa desaparecer seguindo a crença socialmente instituída de que se os olhos não vêm, o coração não sente. Problema resolvido para esse morador dos andares superiores.

A cueca borrada. Destino: janela.

Vi a tal cueca seguir viagem e cair lá embaixo. E passando pela portaria avisei ao porteiro. Ele já sabia sobre o tal voo da cueca, que antes de bater no solo fez outra escala depois do meu apartamento, criando uma crônica também no segundo andar.

A crônica pode ganhar umas reflexões caso queira. Pode ser uma crônica sobre como se livrar das merdas da sua vida repassando essas merdas para a vida de outra pessoa. Ou sobre a mágica de fazer sua cueca borrada sumir em 2 segundos. Pode ser sobre a triste realidade de não sermos responsáveis pela parte que nos cabe nas nossas histórias. Pode ser sobre a dificuldade de narrar suas cagadas em seu relacionamento e a necessidade de escondê-las. Oi sobre a dificuldade de encarar suas merdas. Pode ser também sobre a vida em comunidade e como o que um vive vai refletir na vida do outro. Ou sobre como somos mestres em deduzir o que se passa nas casas de nossos vizinhos, ainda mais quando suas cuecas param na nossa janela.

Podem ser muitas as conclusões dessa bela e inspiradora crônica de uma zorba branca borrada voadora. Escolha a que você gostar mais, ou crie a sua própria e sigamos porque o domingo nos aguarda. Por hoje não estou muito em clima de conclusões, estou em clima de travessias. Para mim a curca fez uma travessia pela minha vida e me deixou essa crônica de presente. É domingo chuvoso e estou em hoje expedição pela cidade.

Paula Quintão

15 de abril de 2018

Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br

  • Carolla Gkloucaus

    Para mim teve humor, suspense, e outras emoções… Mas a melhor parte foi me fazer ficar extremamente reflexiva com a frase “Sobre a dificuldade de encarar suas merdas”… Sensacional o texto! ^__^

  • Cibele Castro

    Querida!!! Só você pra conseguir extrair tantas lições de uma supresinha dessas na janela!!!!
    Adorei as reflexões e a mistura entre o suspense e o humor!!!!