Há momentos em que a vida deixa de nos convidar. Ela nos puxa. Empurra. Força. E, quase sempre, só percebemos depois que não se tratava de castigo, mas de passagem.
Ao longo da vida, isso acontece mais de uma vez. É como subir uma escada: saímos de um degrau e vamos ao seguinte. Só que, na maior parte das vezes, não subimos porque enxergamos que era hora. Subimos porque a própria estrutura inteligente da vida tornou o degrau atual desconfortável o bastante para que não houvesse outra saída.
Podemos, sim, fazer esse movimento com intenção, e é bom que façamos. Mas é preciso admitir uma coisa humilde: há consciências que nem sabemos que existem. E ninguém deseja um lugar que não consegue imaginar.
Por isso o ambiente externo começa trazer problemas, rupturas, situações insustentáveis. E o propósito de tudo isso cabe numa única palavra, que eu escrevo em caixa alta: PERCEBER. Perceber que existe algo além daquele véu, além daquele momento presente.
Sobre esse tema, aqui está o episódio de podcast que publiquei hoje:
O Egito que mora em nós
Hoje é impossível não olhar para o Brasil quando vivemos uma crise muito grave no sistema de justiça e político do país, e basta ter olhos para notar que o cenário está testando os nossos limites de percepção. Diante de cenários assim, a resposta mais comum é pensar em sair do território. Às vezes é mesmo necessário. Mas o convite mais profundo que a vida nos faz não é sair do lugar. É sair da consciência.
Para entender isso, volto às pragas do Egito. Nenhuma história bíblica fala apenas do seu tempo: ela descreve uma dinâmica da alma que se torna vigente em cada um de nós. Em hebraico, Egito é Mitzrayim, palavra que carrega a raiz de metzar, o estreito, o aperto. O Egito é toda estreiteza onde a consciência ficou confinada.
E quem habita esse estreito? Um povo que se empobreceu de recursos a ponto de se tornar escravo. Escravo é aquele que se considera totalmente dependente de um poder externo. Não tem poder sobre nada, porque entregou todo o seu poder. Tão desprovido está que nem sair por conta própria ele pode: precisa que alguém lá fora diga se pode ou não.
Para que aquele povo saísse, dois movimentos precisaram acontecer. O primeiro foi a liberação do poder: o faraó, a estrutura que detinha o comando, precisou dar o aval. O segundo foi interno: o povo precisou querer sair.
Permissão mais vontade. Sem esses dois elementos juntos, ninguém se move ao próximo estágio.
Acontece que nenhum dos dois veio por iniciativa própria. Foram necessárias as pragas, uma após a outra, até que o faraó permitisse, não por generosidade, mas porque não permitir tinha se tornado insustentável. E até que o povo quisesse, não por coragem espontânea, mas porque não querer também tinha se tornado insustentável. Quase por obrigação, sair passou a ser o melhor caminho.
A Terra Prometida é um estado de consciência
E para onde se sai? Para a Terra Prometida. Ela não é um território no mapa. É um novo estado de consciência: a nova forma, a nova dinâmica que o seu mundo ganha depois que você abandona a consciência antiga.
Você reconhece esse momento quando a consciência atual deixa de ser favorável. É como se ela se partisse ao meio. O modelo em que você vive simplesmente não se sustenta mais. E então é você quem precisa se dar permissão para sair dele.
Não nego que mudar de território ajude. Uma viagem, um lugar diferente dos que você frequenta, outro país: tudo isso desloca o olhar e abre frestas. Escrevo este texto dos Estados Unidos, onde estou desde o dia da eleição, e sei o quanto a distância ajuda a ver. Mas a distância só ajuda porque nos empresta outra consciência. Se a mente não muda, ela atravessa o oceano conosco e reconstrói o Egito do outro lado.
Talvez você pense: mas o lado de fora não deixa. Não é verdade. O lado de fora é um espelho. Ele nos convida a mudanças que acontecem num eixo interno. Quando as estruturas externas ficam insustentáveis, essa é a chance de cada um, do seu lugar, se autoconvidar ao próprio próximo nível: criar novos sistemas na própria vida, acessar novas realidades na própria vida.
O solo fértil do fim do ano
E há um tempo especialmente propício para isso. É agora.
Estamos entrando nos dois últimos meses do ano. Como coletivamente combinamos viver o ano de janeiro a dezembro, toda a energia do ciclo vai se acumulando, estocada, até o fechamento. Por isso o fim do ano é tão movimentado: muitos encontros, muitos compromissos, muitas trocas, muita gente comprando para as festas. No plano sutil acontece o mesmo. Os recursos ficam disponíveis, os processos se aceleram, e as nossas ações são muito favorecidas.
É um solo simbólico extremamente fértil para plantar novas ideias, novos projetos, novas rotinas, novas consciências. E o que costumamos fazer? Deixamos para o ano que vem. “Já nem dá tempo.” Que desperdício imenso.
O que você coloca em movimento neste período, com alegria, com confiança e conectado a um eixo maior do que você, gera resultado. E gera mais uma coisa: clareza. Quando janeiro chegar e você sentar para planejar 2027, aquilo que foi movimentado agora vai se mostrar com nitidez. Quem planta no fim do ano começa o ano enxergando melhor.
O processo hipnótico de fim de ano
Mas preste atenção nesta parte. Não é por acaso que justamente nesta época se intensificam os movimentos externos e maiores do que nós: nas instituições, nas estruturas de poder, todos os anos. E também em escala pequena: um acidente, uma discussão em família, algo que entra em casa sem pedir licença. Às vezes vêm livramentos, às vezes vêm testes.
Tudo isso, que é externo, se torna uma distração. Uma distração para que, no nível individual, esqueçamos e adiemos justamente aquilo que seria importante fazer. “Todo mundo só fala de política, nem vou mexer na minha engrenagem agora.” Ledo engano. Quem pensa assim entrou em conjunção com aquilo que chamo de processo hipnótico de fim de ano.
Repare na semelhança com o Egito. O escravo espera que um poder externo diga quando ele pode se mover. O hipnotizado espera que o cenário externo se acalme para retomar a própria vida. É a mesma consciência, apenas com outra roupa.
A medida entre o coletivo e o individual
Isso não significa virar as costas para o mundo. Acompanhe as discussões, reflita, se posicione. Mas tenha uma medida. Quando olhamos demais para o coletivo, saímos do nosso lugar, e algumas soluções do coletivo só conseguem passar por nós se estivermos fazendo a nossa parte.
Separe um tempo, mesmo em meio a todo o ruído, para cuidar do seu caminho, do seu plantio, das suas coisas. Não se esqueça de você. Não se esqueça do que importa: contribuir, plantar, somar com a sua parte.
Deixo três perguntas para esta semana:
Qual degrau da sua vida está ficando insustentável, e o que ele está tentando fazer você perceber?
Onde você ainda espera a permissão de um poder externo para se mover? E onde ainda falta a sua própria vontade?
Qual semente você estava guardando para “o ano que vem” e pode plantar ainda nestes dois meses?
A Terra Prometida não fica do outro lado da fronteira. Ela começa no instante em que a gente se permite e quer, ao mesmo tempo, sair do estreito.
Desejo a todos nós um final de ano cheio de vida e cheio de plantios.
Com carinho,

P.S. É exatamente para esse plantio que conduzo, todos os anos, os Rituais de Encerramento e Abertura de Ano, vivenciando juntos o solstício de dezembro. As inscrições abrem em 11 de novembro. Guarde a data.
Inscrições Abertas. 12 Luas e Santa Hildegarda
por Paula Quintão e Ana Castilhos, os detalhes estão aqui:


