“Síndrome do Mundo Estático”

Há uma síndrome que nos habita, a “síndrome do mundo estático”, vou nomeá-la por um instante desse modo até que um nome melhor se apresente. Essa síndrome envolve um profundo desejo pela não-mudança – principalmente das relações. Vamos aos fatos. Nas cidades que eu sinto alegria em estar, existem lugares específicos que mapeio dentro de mim como aqueles que desejo retornar. Quando volto a uma cidade que amo, meu desejo não é por visitar novos lugares, mas por retornar àqueles que me dão os motivos para amar. Na última vez que estive em Londres em conexão eu tinha 8 horas para vagar pela cidade, eu sabia exatamente a ordem dos lugares onde eu precisava estar, o que precisava comer, o que era preciso comprar, os cheiros que precisava rever, o banco que era preciso sentar. Acontece que se meu coração não estiver aberto, eu vou ter que me chatear com o inevitável: as coisas, os lugares, os cheiros e os sabores mudam, é bem mais provável que mudem do que continuem como estavam. Qual a surpresa? A surpresa é querermos que o mundo se mantenha estático. E pior, não só o mundo, mas as pessoas e as relações – o que é ainda mais absurdo. A síndrome está em acreditarmos que a mudança é o erro de percurso. Essa síndrome nos faz reagir de um modo às avessas, em que diante de uma mudança, ocorre uma espécie de chateação e revolta porque o outro mudou, porque o plano mudou, porque o sabor mudou, porque a amizade mudou, porque o acordo mudou, porque o endereço mudou, porque o humor mudou, porque sabe-se lá o que mudou. E o absurdo acontece não na reação – porque sim, o que muda cria em nós reações – mas o absurdo está na acusação direcionada a quem mudou. “Você mudou muito, amiga, não é mais como antes…”. “No início escrevíamos um para o outro todo dia mensagem de manhã, agora tudo mudou”… “Combinamos dessa forma e agora os planos mudaram”. Aquele que se incomoda e reclama, ACUSA o agente da mudança, como se aquele que muda estivesse cometendo um crime. O ponto do enrosco é a reinvidicação que o outro não mude, que as coisas não mudem, que as relações não mudem, que os acordos não mudem. A mudança e a transformação são símbolos da vida em movimento.