Status atualizado: sobrevivente a voo atingido por raio e o mais turbulento da história da minha vida.
 
Na minha frente uma freira. Na fileira do lado um cara que voava pela primeira vez. Do meu lado um piloto de avião. Lá na cabine o piloto Latam anunciando manutenção de imprevisto no voo. “Nós da tripulação desse voo não aceitaremos voar se não estivermos com garantia de 110% de segurança”.
 
É, faça-me o favor e realmente não aceitem, agradeço. Uma hora arrumando lá fora. Os 201 passageiros lá dentro com seus 80 volumes de bagagem esperando – tinham feito as contas antes na fila de embarque.
 
Voamos. “O céu está muito encoberto até São Paulo, vamos precisar criar alguns desvios de rota, tudo está muito carregado”, entrou o piloto 110% da Latam falando no alto falante.
 
O piloto ao meu lado tinha um ex-medo de avião. Liberou fazendo curso e aprendendo a voar. “Tirei nota 10 em aerodinâmica”, além dos detalhes sobre o avião e seus voos, tinha umas histórias engraçadas sobre sua câmera de celular que produzia fotos borradas até que percebeu depois de um tempão que não tinha retirado a película protetora. Balançava e eu ria. Enquanto meu voo ameaçava cair, com ele aprendi sobre as asas que podem se dobrar, sobre a calda que vira sei lá como, sobre os pontos mais seguros, só não aprendi sobre os raios e trovões.
 
No mapa dava pra ver o piloto Latam zigzagueando entre Belo Horizonte e São Paulo buscando um espaço entre as nuvens para chegar em Guarulhos. Balança, balança, balança. “Nunca vi relato de avião cair por causa de turbulência”, anunciou o ex-medo ao meu lado.
 
Só que sexta teve evento do Escape e eu saí de lá com meu novo amigo de infância Ricardo Trajano e sua palestra sobre sua história de ser o único sobrevivente em um voo da Varig que caiu há uns bons anos. Admiração por ele, empatia à flor da pele, e ali meu voo balançando de um jeito que nunca vi antes. “Meu deus, que a vida também venha me abraçar como veio para salvar o Ricardo”.
 
E então… “Buuuum!”, um estouro imenso. Um raio na asa direita do avião. As luzes da aeronave oscilam. Uns gritam, uns ficam mudos. Meu-deus-do-céu!
 
Silêncio.
 
“Isso eu nunca vi”, o ex-medo anunciou ao meu lado. Eu no medo.
“Senhoras e senhores. Mantenham os cintos afivelados. Nosso procedimento de pouso será em condições turbulentas”.
 
E dá-lhe turbulência.
E a freira. E o moço de primeira vez na fileira ao lado. E o piloto ex-medo. E eu. E as histórias da palestra do Ricardo.
Era tudo um rezo só.
 
Turbulento. Turbulento. Turbulento.
Pousa.
 
Nunca vi passageiros vibrarem e gritarem tanto de alegria num pouso. O piloto 110% Latam foi promovido a piloto 1000% da vida.
 
“Aqui, como é seu nome moço da primeira vez que está voando?!”, perguntei que era pra garantir, provavelmente foi a vida me abraçando. “É, Breno!”. Breno. Anotei. “Breno, meu filho, eu vou checar toda vez que for voar se tem Breno na lista de passageiros que é pra eu decidir se corro esse risco ou não”. Rimos com a aeromoça que passou por nós com sorriso Latam, “Foi um voo tão tranquilo e suave”. O Breno já estava decidido que a volta era de carro. E eu já estava dali vendo minha vida que amo, a Clara, o Alexandre, meus pais, minha irmã, meus amigos. E nós saímos rindo, um alívio. Prontos pra recomeçar sobreviventes.
Paula Quintão, 24 de novembro de 2018
 
…….
DNA atualizado com sucesso. Pactos de vida refeitos para meu novo setênio.
Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br