MEU CURSO DE PARAQUEDISMO, MEU CURSO INTENSO DE AUTOCONHECIMENTO

Depois de viver a experiência incomparável de fazer um salto duplo (que contei neste outro texto), não foi possível ignorar o chamado da alma para que eu fizesse um curso completo de paraquedismo e ganhasse os ares com meu próprio paraquedas. Um curso é bem diferente de um salto duplo, é como uma continuação.

Enquanto no salto duplo você se entrega por completo ao seu instrutor num ato lindo de confiança, deixando nas mãos dele não só a responsabilidade de carregar o seu corpo, mas também a de abrir o paraquedas e guiá-lo em segurança até o aeroclube; no curso AFF para se tornar um paraquedista a intenção é que você seja capaz de comandar seu paraquedas na altura certa, ter total consciência dos procedimentos de emergência e navegar sozinho até o momento de seu pouso.

Sim, é um curso com atividades bem simples e didáticas divididas em oito níveis de progressão, com técnicas avançadíssimas e uma equipe bem preparada que não nos deixa em situações de perigo. Sim, a cada nível vamos aprimorando as técnicas e só ganhamos autonomia à medida que nos tornamos confiáveis para os instrutores e para nós mesmos. Sim, é um curso que exige muito mais do nosso emocional do que do nosso racional, uma experiência rumo ao nosso autoconhecimento. Um curso de paraquedismo pode fazer mais por você que qualquer análise ou terapia.

Há exatos cinco meses lá estava eu na escola Skydive Amazonas fazendo mil perguntas e mil planejamentos para iniciar o curso. Ontem, depois de concluir os oito níveis que compõem o treinamento, com a alma lavada, a mente saltitante e as emoções curadas, terminei meu curso com 11 saltos e pude celebrar minhas superações. Descobri que nesse curso, além de voar pelos céus, ver manhãs ensolaradas e momentos lindos de pôr do sol por uma perspectiva única, de ser carregada pelas asas de um paraquedas e ouvir o silêncio do mundo, de me divertir com meu pé balançando sobre a cidade em miniatura, de ser incrivelmente feliz com as experiências nos ares e ter fotos e vídeos que posso assistir mil vezes e achar o máximo, ainda desenvolvemos habilidades incríveis de força e confiança, desbravando a alma e incrementando nossas ferramentas emocionais. Descobri, ao longo de todos esses meses, que o paraquedismo não é só uma escola de saltos, é uma escola de autoconhecimento.

Isso porque passamos a nos observar num nível profundo. Cada um de nossos pensamentos ganha dimensões bem visíveis – se estamos inseguros, não concluímos a etapa; se não confiamos no outro, entramos em crise; se não acreditamos em nós, não conseguimos seguir em frente. Jornadas de autoconhecimento são jornadas de fortalecimento, são jornadas libertadoras.

Eu, em especial, tive que tratar minha incrível e incomparável dificuldade de “sair pela porta do avião”.   “Independente do que você está sentindo, faça o que tem que ser feito”, era o pensamento que me fazia seguir. Desde o meu primeiro salto eu soube que se conseguia sair por aquela porta, conseguia fazer qualquer outra coisa na minha vida. Acontece que eu não queria simplesmente “sair pela porta”, eu queria “sair pela porta sem desconforto emocional”.

Passei meses ouvindo com o máximo de atenção cada um dos meus instrutores e companheiros de aeroclube para colher suas experiências e impressões – pessoas incríveis que conseguem viver plenamente, naquele espaço, um mundo de mãos dadas, um mundo de muito companheirismo e solidariedade. Passei meses me recarregando com boas filosofias e enchendo minhas bagagens com pensamentos que me fizessem ir adiante.

A dificuldade de sair pela porta do avião me obrigou a lidar com meus medos, medos que eu nem sabia que estavam em mim, e tratá-los um a um. Para lidar com os medos eles precisam ganhar nome, não podem ser chamados genericamente de “medos”. Medo de altura? Não. Medo de ter problemas com o paraquedas? Não. Medo de me machucar? Não. Medo de pousar? Não. Meu deus, então o que era? Tive que me debruçar longamente sobre meus pensamentos e raciocínios, criando uma atmosfera de determinação. Tive que me deparar com minha fragilidade e aceitá-la pela primeira vez na minha vida. Tive que aprender, a duras penas internas, que perder a estabilidade não é um problema desde que eu saiba me estabilizar com tranquilidade. Tive que tratar minha autoconfiança. Tive que me olhar com todo o amor do mundo para poder compreender minhas dificuldades e trabalhá-las para então seguir em frente. E assim eu fiz.

Ontem concluí meus três últimos saltos, terminei meu curso e pude celebrar, com uma leveza sem igual e um conforto agradável, a gratidão por cada um dos aprendizados que tive. Quando fiz meu último salto, a salto da graduação, me lancei da porta da aeronave totalmente sozinha, leve, num mergulho tão confortável que mal pude acreditar. Voei os 45 segundos de queda livre feliz podendo enfim escolher para onde olhar, dominando completamente meu voo e minha posição no ar. Agradeci aos céus pela beleza daquele pôr do sol sobre o Rio Negro, sobre Manaus e sobre mim, agradeci a beleza de todo aquele processo.

Mais importante do que me tornar uma paraquedista e poder sentir a incrível magia e conexão com o universo que há ao se lançar da porta de um avião, foi viver meu processo de tantas curas. Uma experiência rica, incrível, intensa e incomparável. Só me faz sentir que a vida é mesmo uma jornada incrível.

 

 

Texto de Domingo

A carta semanal de Paula Quintão, notas do seu passo a passo, sabedorias coletadas em seu email.