O DESPERTAR PELO NOVO

Nem sempre nos damos conta do quanto repetimos pensamentos e criamos hábitos diários. A repetição pode passar despercebida por uma vida inteira. A verdade é que muito do que pensamos e refletimos nada mais são do que incansáveis repetições de um mesmo conteúdo, afirmado e reafirmado a mesma ideia como se fosse a maior novidade do planeta. Muito do que pensamos agora nada mais é do que repetição do que pensamos a vida inteira, foi o que o Gaiarsa, um dos meus autores favoritos, me ensinou em um de seus livros.
Além das ideias, repetimos nossas ações. Geralmente acordamos de um jeito, levantamos da cama e vamos fazer tal atividade, vamos ao banheiro num determinado horário e saímos pra trabalhar percorrendo o mesmo caminho. Criamos nossas rotinas.



A repetição vai, aos poucos, tirando nossa atenção daquilo que está nos ocupando naquele momento. Quando repetimos não nos damos conta do que estamos fazendo, simplesmente fazemos sem exigir nossa total concentração.
Quando começamos a dirigir, por exemplo, é muito difícil passar as marchas e fazer um freio motor numa ladeira, ou mesmo colocar o carro numa vaga que depende de baliza porque todas as atividades exigem muita atenção: a altura da embreagem, o nível de aceleração, a hora de pisar no freio, a posição da marcha, o que vamos ver no espelho retrovisor, a seta, a velocidade que giramos o volante. É quase uma euforia quando fazemos a baliza dar certo de primeira. Mas o tempo passa e dar ré, segurar o carro em freio motor e fazer uma bela baliza nem despertam mais nosso interesse, não prendem nossa atenção porque já foram automatizados em nosso cérebro, tornam-se rotinas, fazemos e pronto. E rotinas são formas de desativar o cérebro por uns instantes, tirá-lo do estado de alerta, de atenção total.
Diante do novo, nosso estado é outro. Quando conhecemos uma cidade estamos o tempo todo a observar os detalhes, comparar com o que já conhecemos em outras cidades, ter atenção às ruas, ao trânsito, às construções. Nossa mente, em situações novas, é como uma esponja que absorve tudo. Estamos despertos. Em viagens de férias, por exemplo, entramos em uma outra frequência: as horas ficam mais longas, parece que estamos fora de casa há muito mais de uma semana, os dias são enormes, o tempo gira em outro ritmo. Quando estamos diante do novo, a relação com o tempo torna-se outra, porque estamos muito imersos e atentos àquela atividade, ao agora, muito concentrados no presente. Esse interesse pelo que estamos fazendo nos torna mais vivos.
Pesquisas já mostraram que nossa atividade cerebral é muito mais intensa quando nos colocamos diante de situações que exigem nossa atenção, que nos tiram do automatismo. É claro que não precisamos estar despertos todo o tempo. A vida nos proporciona algumas rotinas exatamente para que nossa mente possa repousar um pouco, trabalhar num ritmo menos frenético, mas acomodar na rotina e não inserir novos elementos no dia a dia é permitir que a mente fique adormecida nos mesmos padrões e funcione num ritmo muito mais lento que poderia funcionar.
Viver mais e mais intensamente é inserir novos elementos no dia a dia, interromper pensamentos repetitivos substituindo-os por outros conscientemente. Por isso, saudemos sempre o novo.

Paula Quintão. 13/04/2013

 

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2 comentários

  1. Silas

    Pois eis aí um ponto em que penso diferente. É muito comum que eu adore fazer coisas bem repetitivas e automáticas!
    De alguma maneira, quando paro e começo a lavar a louça, por exemplo, minha mente vai pra outro lugar. Coisas vividas, situações do presente e até possibilidades pro futuro vão surgindo. Fico tão focado nessa atividade simples que minha imaginação ganha asas. De repente estou vivendo situações, visualizando um conto novo eu repensando algo que, até então, parecia estabelecido e ali mostra novos aspectos.
    De certa forma fazer uma coisa repetitiva me põe numa espécie de estado contemplativo. Como se estivesse eliminando qualquer coisa que possa me distrair e, ao mesmo tempo, não tomando minha atenção, pois é algo feito no modo automático. É mais ou menos como quando estou na janela de um ônibus. As imagens convidam meus olhos, mas minha mente viaja em outro lugar.
    Sim, ver o novo é importante e magnífico, mas também é importante rever e repensar. E numa rotina frenética, muitas vezes é apenas esses momentos repetitivos que nos restam pra reflexão!

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