Sobre feedbacks que não foram pedidos e sobre as ordens da ajuda

Por Paula Quintão

Às vezes nos colocamos na posição de ajudar o outro. Na posição de quem estende a mão para fazer um “bem”. Só que o outro não nos pediu nada, não solicitou ajuda, nem ao menos quer ajuda.

Sistemicamente há uma desordem aí: ajudar sem que o outro tenha pedido ajuda, responder sem que o outro tenha perguntado.

Eu via muito isso acontecer na Amazônia durante o tempo que morei lá. As comunidades ribeirinhas recebem muitos projetos de ajuda, às vezes por algo totalmente inútil naquele contexto. Essa semana no evento que palestrei a Petrina falou sobre isso. “Ajudar sem antes se conectar ao humano do outro lado é totalmente descabido”, dizia ela algo assim.

Lembro de quando o Luciano Huck com aquele jeito salvador da pátria foi fazer umas mudanças e investimentos numa comunidade ribeirinha: uma pousada, energia elétrica e freezers da coca cola. Talvez pra nós soe exagero os freezers, mas muito provável que pra eles a energia elétrica já seja um exagero, porque é outro mundo, é outro paradigma, é uma realidade que você náo dá conta porque não é a sua. Mais fácil seria perguntar: estão precisando de algo? Talvez motores de rabeta e diesel fosse uma resposta mais lógica, mas aí o bem não ia ter efeito para quem queria fazer.

O sentido está na ordem: a ajuda vem com base no que o outro solicita.

Lembro de quando tive infecção urinária em 2009 e fiquei de cama uma semana sem conseguir me mexer nem comer direito. A mãe de uma aluna da faculdade, a Fernanda, veio até minha casa, nunca tínhamos nos visto antes. Ela bateu na porta, eu atendi e ela disse: eu vim te ajudar no que você precisar. E eu disse: o que você puder me ajudar. Ali eu dava sinal verde. Ela descongelou uma carne, fez um pure de batatas, serviu pra mim e levou no sofá onde eu estava deitada. Depois limpou coisas da casa, lavou as loças. E eu só agradecia, eu agradecia, eu agradecia. Até hoje meu coração agradece essa anja. Mas ela me perguntou. “Ela me perguntou”. E isso é muito respeitador, é muito valioso.

Essa necessidade de responder sem ninguém perguntar ou ajudar sem ninguém ter pedido nada mostra uma patologia que é nossa e não do outro.

Vejo que às vezes o outro pode não se dar conta que precisa de ajuda, que o outro pode estar acanhado, que o outro pode achar que não é pra te pedir nada porque você não está disponível. É pra esses casos que serve a simples pergunta: “você está precisando de algo?”. Se a resposta for sim, você vai ter como ajudar; se for não, você digere sua sede de dar e vai direcioná-la para algo em sua própria vida ou na vida de outro alguém que te diga “sim”.

O mesmo serve para feedbacks, o mesmo serve sobre analisar o outro, o mesmo serve para orientar alguém. Pergunte se o outro quer ser orientado, quer ser avaliado, quer ser analisado. Se sim, você está diante de alguém em posição receptiva, faça então seu movimento de dar. Se não, você está diante de alguém que não quer ouvir o que você tem pra dizer e sua ação só vai trazer indigestão mesmo que seja com a melhor das intenções.

Uma ordem da ajuda, bem nos ensina Bert Hellinger em seus estudos sistêmicos, é a ajuda ser solicitada pelo outro. Importante refletir, mais importante ainda executar.

Paula Quintão

23 de agosto de 2018

Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br