Era uma vez uma mula de duas cabeças. Não eram duas cabeças com as dos siameses que se sobrepõem lado a lado, eram cabeças tarracháveis, com roscas. Se quisesse poderia inclusive ser uma mula SEM cabeça, mas parecia algo fantástico demais para ela, uma mula tão comum. Preferia algo mais tradicional. Quando a mula queria trocar de cabeça ia até o guarda-roupa, destarrachava a que estava usando, enroscava a outra cabeça no lugar e pronto: cabeça trocada, outro mundo, outros valores, diferenças justificáveis, uma leve cegueira constante.

Cada cabeça servia para uma ocasião e a mula era satisfeita por ter as duas. Elas podiam fazer dela uma mula bem esperta e aparentemente inteligente em qualquer situação. A primeira cabeça era seu lado “business”, comandava seu jeito “mula profissional de ser”. Quando estava no curral ela gerenciava a entrada e a saída dos bezerros, a quantidade de leite que cada vaca deveria produzir e o local em que os bois deveriam dormir. Sentia-se inflada ao ser obedecida pelos animais e avaliava-se como uma excelente mula gestora, mais inteligente que todos os outros, nunca considerando a possibilidade de um belo cavalo sequer repousar por aquelas bandas e ganhar o status de gestor num piscar de olhos, mas enfim seus dias seguiam com alegria e um pouco de inércia mental.

Passava todo o tempo fazendo a gestão do curral e reinando em sua vaidade e definições. Quando o fardo da ocupação lhe soava um pouco pesado ela seguia até seu guarda-roupa, trocava sua cabeça e caminhava calmamente pelos pastos. Sentia-se leve, cheia de bons valores, um espírito evoluído, parte da natureza, integrada, completa, super especial, “a escolhida”.

Nessas suas caminhadas pelos pastos seu lado “mula espiritualizada” falava alto. Vez ou outra ela parava e ficava horas a conversar com a fina borboleta, sempre tão leve e livre. Passavam horas falando sobre suas liberdades e descobertas, complementavam-se e amavam-se. Quando estava com a borboleta a mula tinha vontade de deixar o curral pra trás e esquecer a outra cabeça esquecida no guarda-roupa, mas sabia que isso não era possível. Lá no curral ela era tão importante, tão insubstituível, era impossível imaginar aqueles animais desprovidos de inteligência se organizando sem ela… Ficava mais uns minutos no pasto e voltava para o curral.

Numa dessas manhãs ensolaradas de segunda-feira acordou assoberbada com tanto trabalho acumulado: os bezerros ainda estavam dormindo quando já era para estarem de pé, as vacas estavam de papo furado quando a ordenha já deveria ter começado, e os bois estavam todos do lado de fora do curral molhando-se nas águas…. uma verdadeira bagunça.

– Vocês têm que se organizar melhor, assim não tem jeito, tenho que pedir mil vezes! Só EU me preocupo com as coisas aqui, por isso nada sai do jeito certo. Vocês fazem tudo errado!! Andem!! Andem!!

Estava aos berros quando de longe veio aproximando-se a borboleta. Logo ela, a borboleta, que nunca vagava por aquelas bandas do curral vinha leve e livre pelos ares… lindamente ela voava pelos ares a observar o curral.

A mula estava muito ocupada resolvendo seus problemas mas não pode evitar de sentir uma grande alegria em seu coração ao ver a borboleta. Não poderia dar atenção a ela naquele momento tão “profissional”, mas foi inevitável que seus olhos se encontrassem, penetrassem um no outro e naquele momento mágico a mula pode se enxergar com os olhos da borboleta, com os olhos da outra cabeça. A cegueira momentaneamente foi curada. Parou de gritar com os outros animais. Parou de arranjar tudo no curral. Parou por um segundo seu ego, percebeu suas grosserias, seus apegos, suas vaidades. E não enxergou amor em nenhum dos outros olhos que caminhavam cabisbaixos ao seu redor. A frieza do curral percorreu sua espinha. Olhou em volta e não viu mais a borboleta.

Muda, a mula se abaixou, deixou-se cair no chão. Chorou por sete dias e sete noites.

Recuperou-se, enfim. Foi até o espelho, conferiu se sua cabeça estava bem enroscada, lavou as orelhas, bebeu água e se colocou a percorrer o curral em busca de atos falhos da última semana sem gestão, tão cega quanto antes.

 

Autor

Paula Quintão segue a desvendar os mundos internos e externos. É escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Doutora em Sustentabilidade, montanhista, paraquedista e mergulhadora. Mãe da Clara. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU (2012) e O Caminho Que As Estrelas Me Viram Cruzar (2017). Escreve semanalmente dentro das temáticas autoconhecimento, escrita, transformação de vida e empreendedorismo em paulaquintao.com.br