O CONHECIMENTO ESTÁ EM TODA PARTE

Na newsletter dessa semana da “Equipar Para Vencer” questionei meus leitores sobre quais eram suas fontes de conhecimento. Queria saber se eles enxergavam o mundo ao seu redor, as pessoas que convivem, os filmes que assistem e as experiências que vivem como fontes incríveis de aprendizado. Para minha alegria, recebi muitos e-mails e tive muitas surpresas interessantes.

Sei que nossa sociedade valoriza de maneira exagerada a cultura acadêmica e os muitos níveis que a escola nos oferece: somos levados a cursar ensino superior, mestrado, doutorado, pós-doutorado e o que mais houver nessa cadeia de títulos e níveis a conquistar. Nada contra a cultura acadêmica, inclusive sou muito feliz na academia, adoro a vivência das aulas, o contato com os professores e colegas de classe – por isso mesmo, aos 29 anos, sou uma dessas alunas exemplares que senta na frente e faz anotações sobre tudo que os professores falam mesmo estando no doutorado.

Acontece que valorizar a cultura acadêmica é totalmente diferente de SÓ validar os conhecimentos que recebemos dessa forma. Estou na metade do doutorado e aprendi muitas coisas, mas nada se comparou, por exemplo, às experiências de aprendizado que vivi nas três expedições que fiz ao Monte Roraima. E olha que cada expedição durou apenas 8 dias cada, ou seja, são 24 dias contra 730 dias de doutoramento. Alguns dos meus aprendizados viraram meu livro “Para sempre um novo EU” muito mais rapidamente que a própria formulação da minha tese ou de um artigo científico.

 

Há um livro muito rico do Boaventura Santos que se chama “Epistemologias do Sul”, foi uma das melhores leituras que fiz nesses 730 dias de doutorado. Seu argumento é que há no mundo saberes muito valiosos e preciosos que são colocados à margem e desqualificados para que a soberania da ciência e da academia seja mantida. Ao fazer isso, deixamos de criar um mundo de diversidades para criar um mundo de homogeneidade, de vozes que falam a mesma coisa e concordam entre si.

A medicina é um ótimo exemplo. Hoje temos muitos produtos farmacêuticos, uma indústria poderosíssima a de medicamentos, e nossos médicos não validam os conhecimentos tradicionais que dizem, por exemplo, que um chá de erva cidreira vai ser tão bom para sua digestão mal feita quanto um simeticona comprado na farmácia. No Amazonas ainda é muito comum o uso de ervas medicinais e métodos alternativos de tratamento e muitos funcionam muito bem, obrigada.

Uma professora, pesquisadora dessas que estão sempre em comunidades indígenas e amam o que fazem, contou que numa certa comunidade que frequentava, todas as vezes chegava em seu barquinho rabeta à noite. E todas as vezes não havia ninguém da comunidade para recebê-la. Achava aquilo sempre muito estranho – e o estranhamento é exatamente o contato com o diferente. Da primeira vez, encontrou com facilidade o salão onde iria dormir. No dia seguinte, logo que amanheceu, todos os moradores estavam ao seu redor curiosos para saber como seria sua “visita de pesquisa de campo”. Da segunda vez pensou que seria diferente, mas da mesma forma não havia ninguém para recebê-la. Da terceira vez, resolveu perguntar. Logo que acordou e se viu cercada pelos indígenas, lançou seu questionamento: “E então…por que toda vez que eu chego na comunidade vocês não vêm me receber?”. Fizeram silêncio, se entreolharam talvez pensando que era bem óbvia a resposta e um deles formulou: “Ah, dona Kátia, melhor encontrar você de manhã, assim dá tempo do seu espírito chegar também!”. Ela riu e entendeu completamente o que eles quiseram dizer. Realmente tinham razão: quando chegamos em algum local, principalmente quando chegamos de viagem ou quando nossa logística até aquele local exigiu bastante de nós, levamos um tempo até “sossegarmos o espírito” e nos sentirmos inteiramente ali. Aquela etnia indígena sintetizava de maneira muito própria essa percepção que todos nós temos sobre nosso “estado de espírito” quando chegamos em algum lugar. Por que não validaríamos esse conhecimento deles como sendo apropriado?

Em todas as respostas que recebi dos meus leitores, percebi que da mesma forma eles valorizam muito o conhecimento científico e a cultura acadêmica: querem fazer uma pós-graduação, querem ler mais livros, querem terminar a graduação e isso é ótimo. O conhecimento eleva nosso espírito, nos dá liberdade. E para minha alegria também percebi que cada um deles se sente muito feliz quando faz viagens, quando conversa com pessoas mais sábias, quando assiste a algum documentário. Maravilha.

O mais valioso é percebermos que qualquer oportunidade e qualquer situação é uma fonte preciosa de aprendizados, uma oportunidade única de recarregar nossa bagagem de conhecimento. O mundo é mesmo uma grande aventura de descobertas.

 

Um comentário

  1. Alessandra Martelini

    Paulinha, esse texto é exatamente o que sinto. Por muito tempo estive condicionada por este mesmo pensamento acadêmico, e meu sonho era ter um MBA em alguma escola de prestígio americana. Essas ideias foram sendo questionadas até o ponto que desisti e resolvi criar uma nova carreira, ainda sem muita clareza. Entre viagens, cursos e treinamentos durante o último ano (e muitos mais por vir), sei que estou no caminho certo e nunca me senti tão repleta de conhecimento e curiosidade.

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